A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Poema Desejos é finalista do Prêmio Flip Off

A produção poética de Curitiba anda de vento em popa. Pelo menos, quatro poetas da cidade foram escolhidos como finalistas do Prêmio Flip Off, na categoria poesia. Yuri Amaury Pires Molinari arrebatou o segundo lugar, com  Os homens da minha família.   Os outros finalistas foram: João Victor Arcega Simino (I [am]azonia), Layla Gabriel de Oliveira (Como num truque de mágica) e Roberto Nicolato (Desejos). Além da premiação aos primeiros colocados, os demais finalistas também terão seus poemas reunidos numa coletânea a ser lançada na próxima Flip (Festa Literária de Parati), marcada para o final julho.

DESEJOS

Roberto Nicolato

O que arde em brasa, desaquece
Esquece, na fervura que as horas exalam.
Sê tudo, pois que tudo passa:
O abraço fortuito, o gesto inesperado,
O desejo incontido numa noite enganosa.
Não se prende o instante
A não ser no sopro fatal da ternura,
Numa oração ao vento
Do corpo móvel na brancura dos dias.
É que não existe estrada aos que se ajustam
Às metas, ao objetivo final da sorte.
É só um gozo alucinado para quem desperta.
Uma nuvem trovejante a quem se dobra.
Trejeitos! Sombra viva!
É o que és caminhante.
A lua te tem como única companhia,
Será cúmplice e não te roubará a sorte.
O sol aquece os teus pulmões.
Irrespiráveis, dilata seus olhos a sombra lancinante.
Redemoinhos lhe alcançam o corpo na orgia.
Esquece, pois que nada restará.
A não ser o suor de suas têmporas,
A vontade desacreditada dos girassóis.
Viva o tempo das andorinhas,
O cursar dos antílopes em retirada,
A fome dos lobos que sobrevivem no Saara.
O pouco que lhe é concedido...
Absorva como água na chuva.
Sobeja, delira, enlouqueça!
Há espaço no tempo que se move aflito.
Repare como as nuvens estão arredias!
Como esse coração pulsa sem que lhe dê cordas, desejos...
A vida do inseto invalida a permanência, de tão curta?
Vale para quem a executa.
Não tenha medo da dúvida,
Dos temporais, das formigas,
Do amor que a tudo devora
Pois que o instante não se fixa,
E Deus não escreve sua história na lama funda.
Com tintas escuras apenas lhe deu corpo e alma
E desejo para que cumpra a sua absurda aventura.



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