A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

MÍNIMAS


A poesia me ensina:
Amar alucina
essa assaz sina


Longa noite esperei
para lançar feitiços
com dedos de piche


Gaiola vazia. Pássaro voa
sem direção para comer
migalhas de pão.


O que me arruina em silêncio?
A ilusão desse 
corpo solto
ao sabor dos ventos?


Úmidos quintais.
Construção de fumaça
É natural...
Que o dia se faça!


Quem, com teus olhos,
desenhaste o vôo do pássaro,
o passo lento,
a despedida?

(Poema e foto: Roberto Nicolato)

sábado, 14 de março de 2015




CANTOS DO MAR

Eu que me abstraio
Água forte, derradeira,
Apressa e retorna
Agora esperada,
Para os meus pés
Acordarem.

O mar é o limite
Do que observo
Sei, há mais pra lá
Um vasto caminho
Que me esqueço
Que de cá posso
Pedir socorro e
Por todos não
Ser ouvido.
  
Se bem-te-vi
Teve a sonhar
Peixes voadores
Cortaram o céu.
Repousava olhos
No mar. Depois
A escuridão,
Centelhas de vidas
Tudo, inteiro ao
Seu dispor,
Antes que fosse
Tarde demais.

  Pelo prazer de voar que sigo nos céus por uma temporada e que em seus olhos parece pura eternidade.

Pelo prazer das correntes que navego em busca do peixe que voa pela noite em que seu brilho traça caminhos no mar.

(Roberto Nicolato: Poema e foto (Litoral do Paraná)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

UM ROSTO APENAS



Na rua trafegam:
Ônibus resoluto,
Máscaras bêbadas,
Em rostos pueris.

A viagem ensaia
uma cantiga
no cimento fosco.

Olho no teu olho
sorriso fácil
Apagando imagens:
Recordações vis

Danço solto
No pó do asfalto.
Entre raps, rocks
E bolhas de sabão.
Viagem que não faço
Na condução em
Que  trafega, um aceno,
Que eu sei, não verei mais.

Desconheço teu endereço
Deixo nas engrenagens
Amarguras, lassidão.

Estou a esperar-te
Em direções opostas.
Enquanto cruzam
artérias,
esse ônibus
vermelho
aflito.


Na memória
Restou  um olhar, 
fotografado,
um rosto,
esquecido.

A condução contorce,
E o mundo se revela,
como tudo em volta.
O ar gélido
Reproduz formas
na janela.
O silêncio reina.
E Curitiba se faz real,
Aos meus olhos,
nessa tarde molhada.

(Roberto Nicolato)
          


sábado, 4 de outubro de 2014

MURILO MENDES, UM POETA TRANSGRESSOR

         
          Recentemente visitei, em Juiz de Fora (MG), o Museu de Arte Murilo Mendes, que abriga obras do poeta mineiro, em diferentes edições, objetos pessoais, estudos críticos sobre o autor e a coleção de arte valiosa que a ele pertenceu . O prédio, onde funcionava a Reitoria da Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição onde cursei Jornalismo, já algum tempo está sendo utilizado,  para guardar e divulgar o  legado do escritor. Um espaço digno da grandiosidade da obra de Murilo Mendes,  considerado um dos maiores poetas brasileiros. Da outra vez que fui ao Museu, ele ficava num a casa histórica, mas acanhada e sem condições para continuar abrigando o acervo.
        No ano em que se comemora 20 anos de criação do museu,  uma série de eventos está sendo realizada para homenagear o escritor mineiro. Confesso que conheci a poesia de Murilo tardiamente. Se Drummond foi meu poeta da juventude, o poeta de Juiz de Fora foi o da maturidade, com um dicção mais cosmopolita e visionária. Portanto, não pestanejei quando tive a oportunidade de escrever um artigo sobre meu poeta conterrâneo, um dos meus favoritos, num das disciplinas do mestrado em Estudos Literárias na UFPR. Uma cópia eu deixei no Museu, numa pasta onde há outros textos não publicados sobre o autor. Mas ele pode ser visto na internet. É só acessar link abaixo:
http://pt.slideshare.net/nicolato77/murilo-mendes-25362064
(Foto: acervo MAMM)

sábado, 20 de setembro de 2014


INSIGHTS

I
Assim meu coração deu
Asas à razão.
Só para confundir…
Só para amolar.
Amores. Vagas estações
No brilho dos olhos
De ressaca de Capitu.

      II
Paisagem interiorana:
Homens na calçada.
Mulheres dançam
Ao redor do fogo...
É noite!
Estrelas caem do céu
Clara noite no sertão.
Guimarães trouxe a viola,
Zé Beto, os causos,
Diadorim amor pra mim.
Riobaldo, meu brother,
Companheiro de quarto.
   
      III
Quem, com teus olhos,
desenhou o vôo do pássaro,
o passo lento, a despedida?

      IV
Hoje toquei teu ser
ávido de ternura.
Serra de límpido azul.
Porque do coração é esta
A mais  pura natureza:
Seus olhos ingênuos,
Flor do pântano
De múltiplas incertezas.
E que guardo,
Como o anjo bom,
da serpente da dúvida.
     
      V
A verdade nos sonhos
é o que procuro.
Em ritmos velozes,
coração que se atrapalha.
Beleza que se fez
ninho para o pássaro
da mais pura alegria.

domingo, 31 de agosto de 2014

IBITIPOCA




Esta paisagem singular
Deixou um rastro de vida
Flor que é saudade,
Cristais nos olhos,
Veredas que a tudo anima.

Ali, ao batismo da
                         água pura.
Na irmandade dos peixes
O corpo sereno na correnteza.
                           seguiu
A alma insaciável na
                        paz dos dias.

Nesta natureza que é templo.
Onde Narciso dá de comer
                        aos lobos.
Onde a flor dos manacás
                        se oferece.
Ali verti os ares como o
                   grande pássaro
A tudo que nascia.
Bromélias na árvore seca.
Amores imperfeitos em
                 trilhas infindas.
Eu que  aos mares viajei.
Que nas cidades vivi o
                 inferno dos dias.
Branca lua saudou-me,
E o rio como um vulto,
                 que insinua.

Na cachoeira, como turbilhão,
Lágrimas verteram,
Banharam as aves
Inclinadas ao vento.
A saudade abriu-se em flor.
O mundo em mistérios.
E, assim, atravessamos a
Branca estrada de quartzos.
Milhões de pequenas pedras.
Retangulares, redondas...
Em teus olhos refletiam
Só a lua, agora,
Em nossa companhia.
(Poema e foto de Roberto Nicolato)

DESPEDIDA



Desvio agora o olhar, e vejo que uma pequena legião desce os degraus das escadarias da velha igreja, guiada por um vulto de veste negra, acima dos demais na altura; de sorte que me certifico logo se tratar do pároco da aldeia, de feições um tanto sérias e princípios não menos conservadores. Lá de cima, o badalar do sino ganha uma nova melodia e um ritmo mais lento. A missa já havia acabado, e teria de encontrar uma desculpa aos meus pais para justificar a minha ausência. Mas naquele dia tudo era permitido, pois que era um dia de despedidas.
           Desço a montanha em disparada, voando para o abismo, as pernas destrambelhadas até parar lá embaixo, com o coração cuspido pela boca. Se era para enfrentar o pior, do que temer? Como disse, tinha por ocasião 12 anos de idade e estava para entrar na adolescência que, por sorte ou azar, seria vivida em grande parte no seminário, recluso junto com outros garotos, numa grande construção cercada por uma extensa mata. Devia dar graças a Deus pela possibilidade de estudar na companhia de filhos de famílias dotadas de um bom poder aquisitivo. Eles eram mandados para lá para ajudar na sua formação e eu para salvar a mim e a minha família de maiores desgraças.
(Do livro "A Caminhada ou O homem sem passado")