A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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sábado, 31 de outubro de 2020
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Kotter Editorial publica livro de poesias de Roberto Nicolato
O leitor e a leitora têm em mãos um livro de um poeta que é, antes de mais nada, um artífice da palavra. Os poemas de Pequeno tratado do amor e da natureza apresentam de fato várias facetas de Roberto Nicolato sob o escopo da artesania poética, ou seja, sua poesia é práxis vital. Nicolato transita entre versos livres, sonetos (alexandrinos, heroicos, sáficos) e demonstra um domínio de estilo que o leitor e leitora perceberão desde a primeira seção do livro: Do amor. Na segunda seção, Da natureza, alguns poemas nos remetem um Manoel de Barros e toda aquela atmosfera telúrica. Na terceira e última seção, Do homem, é a mais sinestésica, na qual nos deparamos com versos como “rastejando o corpo desnudo nas ervas. Levanto o meu grito, atingindo-o”. Os poemas que ora compõem este volume do vate Nicolato são cristalinos no melhor sentido da palavra, pois fogem de quaisquer armadilhas herméticas. O autor valoriza com frequência os prazeres da melopeia com toda a cadência e musicalidade das quais é feita a poesia.
Leitores e leitoras, sem mais delongas, contemplem a poesia pensada deste poeta visceral.
Evoé!
Daniel Osiecki, poeta
Outono 2020
sexta-feira, 20 de março de 2020
Poema Desejos é finalista do Prêmio Flip Off
A produção poética de Curitiba anda de vento em popa.
Pelo menos, quatro poetas da cidade foram escolhidos como finalistas do Prêmio Flip
Off, na categoria poesia. Yuri Amaury Pires Molinari arrebatou o segundo lugar,
com Os
homens da minha família. Os outros
finalistas foram: João Victor Arcega Simino (I [am]azonia), Layla Gabriel de Oliveira (Como num truque de mágica) e Roberto Nicolato (Desejos). Além da premiação aos primeiros colocados, os demais
finalistas também terão seus poemas reunidos numa coletânea a ser lançada na
próxima Flip (Festa Literária de Parati), marcada para o final julho.
DESEJOS
Roberto Nicolato
O que
arde em brasa, desaquece
Esquece,
na fervura que as horas exalam.
Sê tudo,
pois que tudo passa:
O abraço
fortuito, o gesto inesperado,
O desejo
incontido numa noite enganosa.
Não se
prende o instante
A não ser
no sopro fatal da ternura,
Numa
oração ao vento
Do corpo
móvel na brancura dos dias.
É que não
existe estrada aos que se ajustam
Às metas,
ao objetivo final da sorte.
É só um
gozo alucinado para quem desperta.
Uma nuvem
trovejante a quem se dobra.
Trejeitos!
Sombra viva!
É o que
és caminhante.
A lua te
tem como única companhia,
Será
cúmplice e não te roubará a sorte.
O sol
aquece os teus pulmões.
Irrespiráveis,
dilata seus olhos a sombra lancinante.
Redemoinhos
lhe alcançam o corpo na orgia.
Esquece,
pois que nada restará.
A não ser
o suor de suas têmporas,
A vontade
desacreditada dos girassóis.
Viva o
tempo das andorinhas,
O cursar
dos antílopes em retirada,
A fome
dos lobos que sobrevivem no Saara.
O pouco
que lhe é concedido...
Absorva
como água na chuva.
Sobeja,
delira, enlouqueça!
Há espaço
no tempo que se move aflito.
Repare
como as nuvens estão arredias!
Como esse
coração pulsa sem que lhe dê cordas, desejos...
A vida do
inseto invalida a permanência, de tão curta?
Vale para
quem a executa.
Não tenha
medo da dúvida,
Dos
temporais, das formigas,
Do amor
que a tudo devora
Pois que
o instante não se fixa,
E Deus
não escreve sua história na lama funda.
Com
tintas escuras apenas lhe deu corpo e alma
E desejo
para que cumpra a sua absurda aventura.
quarta-feira, 4 de março de 2020
A CAPA JÁ ESTÁ PRONTA
Em breve, lançamento do novo livro de Roberto Nicolato "Pequeno tratado do amor e da natureza" (poesias), pela editora Kotter Editorial.
sexta-feira, 7 de junho de 2019
COPACABANA ME ENGANA
"E depois: “Que fim levou a Marcinha”, perguntou sem que os filhos ouvissem e a lembrança os levou ao Cine Drive In, nos anos 70, no Rio de Janeiro. “Lembra, passava Copacabana me Engana. Eu você, Elena e Marcinha, que era louquinha de tudo. Na volta, ela vinha imitando a Odete Lara, cantando "Baby" e “Try a little tenderness”, no fusquinha azul. Fiquei com a Marcinha naquela noite...”, disse Elias convencido e ciente de que agora era um homem de família, filiado
a um partido e artista cooptado pelo Estado".
Do romance "Havana me engana"
domingo, 2 de junho de 2019
DO OUTRO LADO DO CARIBE (André IV)
"Não havia mais o que perguntar. André deixou o local. Ela não o havia esperado o bastante, talvez nem o amasse tanto. Realmente, a vida naquela época não estava nada fácil para os cubanos.
Teria sido melhor assim, pois isentava-se do atroz sentimento de culpa. Chegou até o Malecon, observou o mar tranquilo, a vida que seguia sem pressa. Caminhou pela passarela, Havana era apenas uma cidade sem cor. Não havia mais o que buscar. Ela era outra, agora vivendo do outro lado do oceano. Se pelo menos, estiver feliz..."
Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato
terça-feira, 30 de abril de 2019
LEON NA SANTERIA (Leon IV)
Do livro "Havana me engana?"
Fotos: Roberto Nicolato
quarta-feira, 17 de abril de 2019
ENCONTRO MARCADO (León IV)
"Leon dirigiu-se à varanda do Hotel Comodoro. O sol declinava no mar do Caribe, lá embaixo um cocotáxi dividia espaço com uma carruagem levando turistas. O Malecon formigava no fim de tarde. Da sacada, ele podia avistar o Hotel Nacional, o Meliá e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos, tendo à frente as bandeirinhas negras tremulando. Observou os terraços dos prédios carcomidos na área central, pontuados por alguma parede esverdeada ou roupas estendidas nos varais. Um homem moveu-se rapidamente por um corredor e Leon se deu conta de que havia marcado de encontrar Anna e Giuliano. Antes, ia pegar Elias e André no Centro das Artes".
Fotos: Roberto Nicolato
HEMINGWAY, COLECIONADOR DE HISTÓRIAS (Giuliano IV)
"Giuliano se desvencilhou e lhe beijou suavemente a testa.
-- Temos que ir – apressou.
Dentro do táxi, Giuliano ainda vislumbrou o Pilar atracado num Galpão perto da piscina de Hemingway. Estava bem conservado e não era mais que uma relíquia de um colecionador de histórias e vidas. Dentro, o velho capitão dava repetidas baforadas no charuto. Percebeu Giuliano e, do convés, acenou, enquanto o Bel Air 1947 contornava as alamedas, deixando silenciosamente para traz a Finca Vigía".
Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato
sexta-feira, 22 de março de 2019
A ESSêNCIA DO TRÁGICO (Giuliano IV)
"Giuliano puxou uma das cadeiras, sentou, encostou o rosto na mesa e sonhou o mesmo sonho, recorrente, daqueles que um dia desertaram de sua terra, os chamados homens condenados ao desterro, e Hemingway era um deles, queria sim classificá-lo, ele que era um homem de poucas lidas, recolhido à sua mansarda, o designava como um macho sedutor, um homem de duas faces, num tempo em que só eram concebidas a perfeição e o desregramento; ele era a própria essência do trágico, Apolo e Dionísio. No fundo, um herói de si mesmo, um homem qualquer. Ou como gostaria Anna..."
Do livro "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato
quarta-feira, 20 de março de 2019
NA RESIDÊNCIA DE HEMINGWAY (Giuliano IV)
"Anna desceu do Chevy Bel Air e naquela tarde trajava um vestido florido, tinha belas pernas, notou Giuliano, e ela lhe sorriu, tomando-lhe os braços para que pudessem entrar juntos na casa do escritor. As entradas, no entanto, encontravam-se bloqueadas. A regra era observar tudo das amplas janelas do agora museu, administrado pelo governo cubano. Anna enfiou a cabeça para dentro da casa. “Aquele foi o maior que ele matou”, indicou a funcionária, orgulhosa. A garota perseguiu com os olhos nas paredes brancas os troféus de caça: um grande cabeça de bisão empalhada, e depois os cervos, animais do Quênia.
-- Que horror! – disparou."
Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato
quinta-feira, 14 de março de 2019
NA FLORIDITA (Giuliano IV)
"A moça roçou carinhosamente o rosto na estátua de Hemingway, ele sentado no balcão na pose de bebedor inveterado, e ela em pé num abraço, pedindo para que a fotografassem. Um daiquiri, por favor, diziam os turistas que iam tomando conta do grande balcão, ávidos por provarem o drinque celebrado pelo escritor. Uma pequena orquestra animava o ambiente e os garçons moviam-se frenéticos naquele ritual de todos os dias. Estavam ali reunidos grupos de turistas que não se conheciam, mas que pareciam muito próximos como se participassem de uma confraria, embora sem contágio e profunda interação.
Ah! A Floridita é aqui. Giuliano entrou de mansinho, vergonhoso, pois que estava só."
Do romance Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato
O CAMINHO DO MAR (André III)
"Mercedes se aproximou devagar, com gesto suave jogou os longos cabelos para trás e o beijou. Os lábios carnudos foram acompanhando o desenho do seu corpo e ela se aninhou entre as suas pernas. Sentiu a sua pele macia, as unhas afundando-lhe a carne, um corpo dentro do outro e naquela noite jurou amá-la para sempre. Quando acordou, a luz do sol entrava pela sacada do quarto e ouvia-se o barulho do trânsito na avenida muito próxima.
Pegou o caminho da praia. Era bom colocar os pés na areia branca, na água azul cristalina. Se acomodou na espreguiçadeira e pediu uma Bucaneros, aquilo sim era um vidão, far niente, uma pena estar sozinho, mas não seria por muito tempo..."
Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato
COMPLETA SOLIDÃO (André III)
"Sem Mercedes, sentia-se literalmente isolado do mundo, num prédio velho, único habitante, num universo desconhecido, socialista e achou aquilo engraçado. Abriu as páginas do Imoralista, de Gide. Era movido a paixão. Quanto mais próximo do prazer mais se tem um coração puro. Só ele entendia o que aquilo queria dizer. A noite pairava silenciosa, nem um sopro de vento, apenas o leve roncar das ondas. Observou a sacada, a porta quebrada, sem trinco, permaneceria aberta. Não tardou, ouviu um estrondo, as luzes do prédio se apagaram. Estava na mais completa solidão"".
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
terça-feira, 12 de março de 2019
A BUSCA CONTINUA (André III)
"Pararam num mirante para observar a paisagem; Caridad e Mirela pediram uma pina colada. Dançaram ao som de um mambo que animava os turistas e André lembrou da falta dos outdoors na estrada: “aqui os publicitários estariam desempregados”, achou engraçado; as meninas vieram ter com ele. Tentaram arrastá-lo para a dança, rebolando na sua cara. Era só uma curtição... até que chegaram em Guanabo.
Assim que o veículo estacionou, Mirela e Caridad saltaram correndo para a praia. Um partida de baseibol projetava-se num grande telão; na areia os jovens dançavam freneticamente. Corpos requebravam, todos queriam se divertir, namorar, fazer sexo. Compraram mais cervejas, André não sabia se beijava Caridad ou Mirela, até que se deu conta de que José havia falado que conhecia em Guanabo uma mulher de nome Mercedes".
Do romance Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato
domingo, 24 de fevereiro de 2019
E O CHE LHE SORRIU (Leon III)
"Leon observava os turistas, os quais jamais deixariam a ilha sem posar para a tradicional foto, tendo a enorme figura de Che Guevara estampada ao fundo, em estrutura de ferro, em toda a fachada de um prédio público. Quis chegar mais perto, o guarda diz que não era pra se aproximar demais, pois ali era uma área de segurança. Ele mesmo, Leon, também fez pose. “Elias venha um pouco mais pra cá com a máquina, pra que saia na foto ‘Hasta la vitória siempre’” e Che pareceu lhe sorrir, tendo embaixo um guarda carrancudo e impassível, já acostumado ao que há décadas se passava em frente ao local."
Foto: Roberto Nicolato
NO MEMORIAL JOSE MARTÌ (Leon III)
"Algum tempo depois, o táxi deixou os dois amigos na extensa Praça da Revolução e Elias convidou Leon para visitar o Memorial José Martí, poeta e herói da independência cubana. Lá dentro, estava sendo contada, numa exposição de cartazes, as conquistas dos socialismo nos 50 anos da revolução, comemorada naquele ano de 2009. Os amplos salões surgiam na arquitetura moderna e nas fotos via-se a Praça da Revolução tomada pelos cubanos no dia da vitória, o passo a passo da revolução, as poesias e a luta de José Martí, ainda no século XIX. E depois o quetzcoal, numa versão empalhada. Que pássaro lindo! O que estaria fazendo ali?"
Fotos: Roberto Nicolato
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
DE HERÓIS E SIMULACROS (Leon III)
"Leon observou o simulacro de Che e pensou: O que seria do destino da humanidade sem a figura do herói? De Ulisses, aos cavaleiros da Idade Média, dos capitães navegantes dos mares, dos heróis da queda da Bastilha, de Alexandre, o Grande... Che e Fidel foram heróis da revolução socialista, libertou Cuba do regime colonialista de Fulgêncio Batista, Martin Luter King, na libertação dos negros nos Estados Unidos; Cristo foi crucificado e no Brasil, o herói maior, Tiradentes, teve seu corpo esquartejado e exibido pelas ruas da então Vila Rica, onde sua voz ressoa aos menos avisados nas noites da cidade de Ouro Preto."
A ESPERA DO PESCADOR (Giuliano III)
"Um vento a sudeste soprava tranquilo. Depois de percorrer alguns quilômetros, mar a dentro, o velho lançou âncora e sentou-se perto de Giuliano. Uma nuvem de mergulhões cortou o céu em disparada. Num instante, viu que era o Papa quem comandava a pescaria, a corda do molinete lançada ao mar, esperava, e ali, à sua frente, observou um homem em camisa de brim e bermuda caqui, repletas de bolsos, agora numa luta surda contra um marlin exasperado. Era bonito de ver. “Venha pros meus braços”, ele dizia, puxava e esticava a cordoalha..."
Foto: Roberto Nicolato
Foto: Roberto Nicolato
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