A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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domingo, 2 de junho de 2019
DO OUTRO LADO DO CARIBE (André IV)
"Não havia mais o que perguntar. André deixou o local. Ela não o havia esperado o bastante, talvez nem o amasse tanto. Realmente, a vida naquela época não estava nada fácil para os cubanos.
Teria sido melhor assim, pois isentava-se do atroz sentimento de culpa. Chegou até o Malecon, observou o mar tranquilo, a vida que seguia sem pressa. Caminhou pela passarela, Havana era apenas uma cidade sem cor. Não havia mais o que buscar. Ela era outra, agora vivendo do outro lado do oceano. Se pelo menos, estiver feliz..."
Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato
quinta-feira, 14 de março de 2019
COMPLETA SOLIDÃO (André III)
"Sem Mercedes, sentia-se literalmente isolado do mundo, num prédio velho, único habitante, num universo desconhecido, socialista e achou aquilo engraçado. Abriu as páginas do Imoralista, de Gide. Era movido a paixão. Quanto mais próximo do prazer mais se tem um coração puro. Só ele entendia o que aquilo queria dizer. A noite pairava silenciosa, nem um sopro de vento, apenas o leve roncar das ondas. Observou a sacada, a porta quebrada, sem trinco, permaneceria aberta. Não tardou, ouviu um estrondo, as luzes do prédio se apagaram. Estava na mais completa solidão"".
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
DE HERÓIS E SIMULACROS (Leon III)
"Leon observou o simulacro de Che e pensou: O que seria do destino da humanidade sem a figura do herói? De Ulisses, aos cavaleiros da Idade Média, dos capitães navegantes dos mares, dos heróis da queda da Bastilha, de Alexandre, o Grande... Che e Fidel foram heróis da revolução socialista, libertou Cuba do regime colonialista de Fulgêncio Batista, Martin Luter King, na libertação dos negros nos Estados Unidos; Cristo foi crucificado e no Brasil, o herói maior, Tiradentes, teve seu corpo esquartejado e exibido pelas ruas da então Vila Rica, onde sua voz ressoa aos menos avisados nas noites da cidade de Ouro Preto."
A ESPERA DO PESCADOR (Giuliano III)
"Um vento a sudeste soprava tranquilo. Depois de percorrer alguns quilômetros, mar a dentro, o velho lançou âncora e sentou-se perto de Giuliano. Uma nuvem de mergulhões cortou o céu em disparada. Num instante, viu que era o Papa quem comandava a pescaria, a corda do molinete lançada ao mar, esperava, e ali, à sua frente, observou um homem em camisa de brim e bermuda caqui, repletas de bolsos, agora numa luta surda contra um marlin exasperado. Era bonito de ver. “Venha pros meus braços”, ele dizia, puxava e esticava a cordoalha..."
Foto: Roberto Nicolato
Foto: Roberto Nicolato
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
HAVANA ME ENGANA (André)
"André também se despediu dos amigos e foi em busca de sua Mercedes entre os frequentadores do Dos Gardenias. Vagou bêbado entre as mulheres, os corpos marcados por colants se exibindo... Esbarrou com uma morena, era Mercedes, enfim estava ali, bem perto, e ele a levou para um hotel no Vedado. “Dança pra mim?”, pediu. Uma fresta de luz se enfiou pela janela, incidindo sobre o corpo sinuoso, convidativo, e André percebeu o olhar feroz, dominador de fêmea no cio, ela veio por cima, sexo voraz, e ele era um animal dócil, deixando-se levar pelos seus encantos, violência e docura... “Veio me buscar”, não cansava de repetir a morena, cobrindo André de beijos."
De "Havana me engana"
De "Havana me engana"
O IDEAL DO BELO (André)
"-- Ele é um exímio guitarrista, contou Leon e todos olharam para André, que mantinha-se completamente alheio, e o que Giuliano sentia por aquele cara ao lado não era atração sexual mas algo simbólico, como representação ideal do belo, pois a ele não cabia afirmar ou negar o seu querer, vivia na contemplação, como se a vida fosse um completo estágio de arte. No fundo, estava acostumado a sempre vivenciar um amor platônico e era o que bastava. Melhor, sempre tinha em mente, se apaziguar no que era possível antes de incorrer em sofrimentos fatais".
De "Havana me engana"
De "Havana me engana"
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
NA MILITÂNCIA (Leon)
"-- Pelo que contam era um jovem um idealista, relaxadão, bem diferente da figura do militar sisudo e sério que se tornou, embora em algumas vezes retornasse o seu senso de humor. Naquele tempo, era famoso pelo jeito descontraído, usava um terno de lã azul marinho, sempre aberto e a gravata solta, aquele homem grande de passos largos buscava arrebanhar seguidores, contrários ao regime, à corrupção que tomava conta da própria Universidade de Havana, onde era estudante de direito, aqui ele fazia a sua militância, chamando cada um para uma conversa reservada, mas nem tanto,(...) Leon até imaginava a figura do jovem Fidel entrando no café, a agitação dos estudantes nas mesas, até se dar conta da presença de Anna, bem à sua frente..."
Foto: Roberto Nicolato
DEUS E O DIABO (Leon)
"Ao deixarem o Paladar, Leon, Elias e Anna tomaram a direção da Universidade de Havana; a escadaria os levou ao ápice, aos pés da imponente deusa Minerva, a Alma Mater de braços abertos para a cidade, templo do conhecimento e da sabedoria, de onde Leon avistou uma Havana, branca, ensolarada e em ruínas.
-- Olá – um jovem investiu mansamente na direção de Leon.
-- Sabia que naquele salão o papa se encontrou com o comandante? Deus e o diabo juntos..."
De "Havana me engana"
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
DE HERÓIS E DESTERRADOS (Leon)
"Pensou: A saga dos heróis é um contínuo voltar pra casa, encontrar uma mãe complacente, uma esposa zelosa e uma pátria pronta a servir, embora muitos não deem conta de que se tornaram
seres inadaptáveis, alienados em sua própria memória. Desterrados. Subiu a avenida até a Praça Central, onde deparou-se com uma imensa fila de trabalhadores cubanos".
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
seres inadaptáveis, alienados em sua própria memória. Desterrados. Subiu a avenida até a Praça Central, onde deparou-se com uma imensa fila de trabalhadores cubanos".
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
NA TELA DO CINEMA (Giuliano)
''Sem se dar conta já ocupava uma cadeira na fila de trás do cinema, assistindo Ceguera; uma imensa luz projetou na tela, sobre um rosto desfigurado, as cidades de São Paulo, Toronto, Montevideu devastadas pela cegueira física e moral... E Giuliano se viu perdido numa cidade anônima, sem presente ou passado, e suas ruas eram labirintos por onde tentava achar uma saída, queria chegar até a rodoviária, voltar pra casa... Que cidade é essa?..''
Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
CASA DE LAS AMÉRICAS (Giuliano)
"Quando viu Giuliano, Estelita abriu um sorriso e veio rápida em sua direção.
-- Prazer em conhecê-lo, pessoalmente! Os brasileiros são sempre bem vindos em Cuba.
Isso ele já sabia, que a relação cultural entre os dois países tinha se fortalecido no período da ditadura nas décadas de 70 e 80, especialmente nas áreas da música e da literatura. Isso pra não falar das novelas brasileiras, que emocionavam as famílias cubanas durante o horário nobre da televisão estatal, antes do pronunciamento de Fidel Castro.
-- Eu sei – respondeu com simpatia e Estelita o convidou para conhecer a Casa de las Américas.
Giuliano foi conduzido pelas dependências do prédio, de estilo art déco, amplos salões, construído logo após a revolução para aproximar os povos e isso estava patente no mapa das duas américas, estampado numa das fachadas da catedral da cultura socialista''.
De "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
domingo, 3 de fevereiro de 2019
NO UNIVERSO DA RUMBA (André)
Um homem negro também entrou na roda de colar e guias no peio nu, atiçando os que acompanhavam, jogando os braços pra cima e pra baixo, as pernas tremulando num gingado, deslizando no cimento fosco... Como um galo afoito e sedutor, ele se aproximou da morena de short branco e bustiê, ela provocando num jogo de conquistas, e ele enfiou rapidamente uma das pernas por trás da moça e ela numa fuga zombeteira, adiantou alguns passos, colocando e tirando o lenço das partes íntimas, na defensiva, ao mesmo tempo em que se entregava ao universo da rumba e da lascívia, lembrando o ritual da fertilidade que caracteriza o guaguancó.
De "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato
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