A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

NA MILITÂNCIA (Leon)



"-- Pelo que contam era um jovem um idealista, relaxadão, bem diferente da figura do militar sisudo e sério que se tornou, embora em algumas vezes retornasse o seu senso de humor. Naquele tempo, era famoso pelo jeito descontraído, usava um terno de lã azul marinho, sempre aberto e a gravata solta, aquele homem grande de passos largos buscava arrebanhar seguidores, contrários ao regime, à corrupção que tomava conta da própria Universidade de Havana, onde era estudante de direito, aqui ele fazia a sua militância, chamando cada um para uma conversa reservada, mas nem tanto,(...) Leon até imaginava a figura do jovem Fidel entrando no café, a agitação dos estudantes nas mesas, até se dar conta da presença de Anna, bem à sua frente..."

De "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

domingo, 3 de fevereiro de 2019

TRAVESSIA (André)

Mercedes contou que a irmã, Graziela, ia tentar a travessia com o namorado no dia seguinte. “O pior, André, é quando sua família vai se desintegrando, fugindo da vista da gente, pra um dia que você não sabe quando...”, disse naquela noite calorenta, sentada na amurada do Malecon e André beijou seus olhos, a abraçou num misto de amor e compaixão, e falou que era melhor mesmo que ela não se arriscasse na travessia, os barcos eram frágeis, muitos naufragavam, e ele logo percebeu que a moça, assim como tantas outras, sonhava em encontrar alguém que pudesse levá-las o mais depressa dali


De "Havana me engana"

Roberto Nicolato

domingo, 25 de novembro de 2018

DO PESCADOR (Giuliano)


"O tempo quente, um barco movimentava lento no infinito e, na lente, Giuliano focou o velho e sua rede de pesca. Foi quando se deu conta: “sou um homem nos quarenta, com mais perguntas que respostas, andando por uma estrada de terra... Queria ter o coração apaziguado de um pescador. De todos os homens, o pescador é o que mais se adequa ao tempo da espera. A espera do peixe invisível a morder a isca e ser capturado como um prêmio à paciência"
                                                                              Do livro "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Doce ilusão


 










Não se iluda

Não há vida

Sem morte

Felicidade

Sem remorso.
 

O que assopra

Fere. O que se

Alisa.
 

Não há sermão

Sem palavras.

Verdade

Sem dor.

 
O que alivia

Vacila.

O que alimenta

Mata.


É tudo uma questão

De cor, odor

Ou pirraça!
    
    Roberto Nicolato

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Este amor maduro

Eu, deste amor, me invado
porque desconheço teu modo,
nele, que habito como
um pássaro, de vôo incerto.

É como  nuvem que
no céu destoa,
chuva próxima que chega e
desaba, lavando sortilégios,
rusgas e outras advinhações.

É um amor sem juízo, antigo,
tronco de figueira que
atravessa as margens
de um rio cristalino, com seus
peixes multicores, desavisados.

Eu que deste amor sempre
perco a razão de vivê-lo,
e nele retrocedo com um
sentimento puro 
das aves de arribação.

Um amor feito de ondas,
que se repete, mas
se reinventa, arrastando
até a areia  restos de natureza e
outros seres do além-mar.

É um  amor que nunca
me apercebo porque é de
mim já companheiro, irmão
de alma, fruto que do pé se
desprende,  na florescência.

É como se nele habitasse,
embora me veja distante e
desapegado. É um amor
sem promessas, futuro,
porque nele já se faz passado.

Eu, neste amor me calo,
porque tudo foi dito sem palavras;
 só olhares que antecipam
o gesto, primeiro,
embalando sonhos.

É dele um sentimento maduro,
cristal de quartzo,
 vinho de delicado sabor,
que ao tempo resiste; água de chuva
que se recolhe, sem pressa.

É um amor que resiste
ao vento, às tempestades;
névoa de outono, calor dos
trópicos , frio, lã das cobertas
que me aquece o corpo.

Este é o amor que me revela
nas noites solitárias e tristes;
que me contenta, enternece,
para sempre vivido.
Um amor que não se pensa.
E assim se faz, necessário, inocente
e impuro. Este amor maduro.

Poema de Roberto Nicolato


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um poema para o blog teorias e prosas



OUTONAL
  
Quando no outono, a tristeza desse coração desfolha,
Lembre-se de cortejar o sol, o corpo nu,
para que se cumpra a promessa.

As abelhas mirins virão a nós, na preguiça dos dias.
“É tudo em vão”, dirá a flor ao bicho que se espreguiça.

“Que o universo desse amor
seja o caminho de árvores,
 veredas e buritizais”.

Dorme no outeiro o coração do homem que duvida.
É tempo de espera, de recolhidas adivinhações.
Na solidão da floresta, densa é a noite, 
melancólica a visão do dia.

Um jaboti assovia uma canção de ninar:
“Dorme nos meus braços
a flor violeta dos manacás”.

É tempo de resinas e caules nus, vidas secretas
Do caracol ensimesmado na carapuça.

As abelhas mirins fecham-se no tronco de uma palmeira.
Deixe que a lua projete a sombra dos mares.
Desenhe um arco-íris na Garganta do Diabo.
Essas são as águas com que fazes a prece.
O orvalho com o qual inauguras todas as manhãs.

Molhe-o com teu rosto, ensine o perdão.
Não há mais tempo para o amor tardio.
A encenação das aves, inclinadas ao vento.
Recolhe-se o lagarto, o camaleão nas tendas.
O coração que se resguarda na carapaça
Para que o tempo se cumpra, outonal.

                                         Poema de autoria de Roberto Nicolato - Curitiba/PR
                                         (Fotos: Roberto Nicolato)