A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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sexta-feira, 7 de junho de 2019

COPACABANA ME ENGANA



"E depois: “Que fim levou a Marcinha”, perguntou sem que os filhos ouvissem e a lembrança os levou ao Cine Drive In, nos anos 70, no Rio de Janeiro. “Lembra, passava Copacabana me Engana. Eu você, Elena e Marcinha, que era louquinha de tudo. Na volta, ela vinha imitando a Odete Lara, cantando "Baby" e “Try a little tenderness”, no fusquinha azul. Fiquei com a Marcinha naquela noite...”, disse Elias convencido e ciente de que agora era um homem de família, filiado 
a um partido e artista cooptado pelo Estado". 

Do romance "Havana me engana"

terça-feira, 30 de abril de 2019

LEON NA SANTERIA (Leon IV)




"Seu corpo ganhava velocidade no compasso das palmas, dos atabaques e giravava feito um pião. Ele via Elena lhe acenando nua, ao longe. Os cabelos negros, os grandes olhos pedindo que ele fosse ao encontro dela. “Aqui é diferente, o mundo é suportável”, ela dizia e ele não conseguindo ultrapassar o fio de silêncio, o fosso invisível que os separava. Ela apoiava o corpo desnudo no cavalinho de um carroussel, ia e voltava, chegava perto e ele tentava em vão alcançá-la. Mas via a imagem de Anna, sorrindo irônica. “Não há resposta alguma, em nada”.

Do livro "Havana me engana?"
Fotos: Roberto Nicolato

quarta-feira, 17 de abril de 2019

HEMINGWAY, COLECIONADOR DE HISTÓRIAS (Giuliano IV)









"Giuliano se desvencilhou e lhe beijou suavemente a testa.  
-- Temos que ir – apressou. 
Dentro do táxi, Giuliano ainda vislumbrou o Pilar atracado num Galpão perto da piscina de Hemingway. Estava bem conservado e não era mais que uma relíquia de um colecionador de histórias e vidas. Dentro, o velho capitão dava repetidas baforadas no charuto. Percebeu Giuliano e, do convés, acenou, enquanto o Bel Air 1947 contornava as alamedas, deixando silenciosamente para traz a Finca Vigía". 

Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato

sexta-feira, 22 de março de 2019

A ESSêNCIA DO TRÁGICO (Giuliano IV)




 (
"Giuliano puxou uma das cadeiras, sentou, encostou o rosto na mesa e sonhou o mesmo sonho, recorrente, daqueles que um dia desertaram de sua terra, os chamados homens condenados ao desterro, e Hemingway era um deles,  queria sim classificá-lo, ele que era um homem de poucas lidas, recolhido à sua mansarda, o designava como um macho sedutor, um homem de duas faces, num tempo em que só eram concebidas a perfeição e o desregramento; ele era a própria essência do trágico, Apolo e Dionísio. No fundo, um herói de si mesmo, um homem qualquer. Ou como gostaria Anna..."

Do livro "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

quarta-feira, 20 de março de 2019

NA RESIDÊNCIA DE HEMINGWAY (Giuliano IV)








"Anna desceu do Chevy Bel Air e naquela tarde trajava um vestido florido, tinha belas pernas, notou Giuliano, e ela lhe sorriu, tomando-lhe os braços para que pudessem entrar juntos na casa do escritor. As entradas, no entanto, encontravam-se bloqueadas. A regra era observar tudo das amplas janelas do agora museu, administrado pelo governo cubano. Anna enfiou a cabeça para dentro da casa. “Aquele foi o maior que ele matou”, indicou a funcionária, orgulhosa. A garota perseguiu com os olhos nas paredes brancas os troféus de caça: um grande cabeça de bisão empalhada, e depois  os cervos, animais do Quênia.  

-- Que horror! – disparou."

Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

quinta-feira, 14 de março de 2019

O CAMINHO DO MAR (André III)

"Mercedes se aproximou devagar, com gesto suave jogou os longos cabelos para trás e o beijou.  Os lábios carnudos foram acompanhando o desenho do seu corpo e ela se aninhou entre as suas pernas. Sentiu a sua pele macia, as unhas afundando-lhe a carne, um corpo dentro do outro e naquela noite jurou amá-la para sempre.  Quando acordou,  a luz do sol entrava  pela sacada do quarto e ouvia-se o barulho do trânsito na avenida muito próxima. 
Pegou o caminho da praia. Era bom colocar os pés na areia branca, na água azul cristalina. Se acomodou na espreguiçadeira e pediu uma Bucaneros, aquilo sim era um vidão, far niente, uma pena estar sozinho, mas não seria por muito tempo..."

Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato

terça-feira, 12 de março de 2019

A BUSCA CONTINUA (André III)

"Pararam num mirante para observar a paisagem; Caridad e Mirela pediram uma pina colada. Dançaram ao som de um mambo que animava os turistas e André lembrou da falta dos outdoors na estrada: “aqui os publicitários estariam desempregados”, achou engraçado; as meninas vieram ter com ele. Tentaram arrastá-lo para a dança, rebolando na sua cara. Era só uma curtição... até que chegaram em Guanabo. 
Assim que o veículo estacionou, Mirela e Caridad saltaram correndo para a praia. Um partida de baseibol projetava-se num grande telão; na areia os jovens dançavam freneticamente. Corpos requebravam, todos queriam se divertir, namorar, fazer sexo. Compraram mais cervejas, André não sabia se beijava Caridad ou Mirela, até que se deu conta de que José havia falado que conhecia em Guanabo uma mulher de nome Mercedes".

Do romance Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

NA TRILHA DE HEMINGWAY (Giuliano III)




"Que tal uma paella, a preferida de Hemingway? – convidou o garçon e apontou, vejam naquela parede estão fotos do único encontro com o comandante Fidel, em 1959. “O comandante venceu o concurso de pesca aqui, em Cojimar, e o troféu foi entregue por Hemingway; e ali a mesa onde sentavam-se o escritor, Gregorio Fuentes e Marta Gellhorn”, mostrou, enquanto as janelas do casarão abriam-se para um retrato nítido e fragmentado da baía".

Fotos: Roberto Nicolato

DA ARTE DE ANDAR PELA CIDADE (Giuliano III)


"Giuliano gostava de caminhar sem rumo. Anotou no moleskine: “A cidade permite muitas leituras, é preciso ler os códigos da cidade, decifrá-los, aprender a arte de andar por suas ruas, onde o caminhante tanto pode se perder quanto se achar. Mas antes de tudo, a cidade deve ser entendida como o espaço humano, da convivência. A verdade é o seu instante”. Lembrou que sempre esteve à procura de algo fugaz; se alcançasse, logo o temor de voltar pra casa de mãos vazias."

Foto: Roberto Nicolato

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

REBELDIA (Leon)


-- Te quiero porque su boca sabe gritar rebeldia – sussurrou a frase de Benedetti. De repente, Anna retornou de seu mundo e Leon parecia feliz, embora constrangido. Ela teria ouvido? O táxi estacionou em frente ao Paladar e Leon sentiu que algo maior o ligava àquela moça simples, argentina, estudante de medicina em Havana. Ou seria mais uma de suas obsessões?
                                                                                             Havana me engana
                                                             

sábado, 15 de dezembro de 2018

BUSCA SOLITÁRIA (Leon)



"Por toda parte, o velho Fidel ainda estaria espreitando ou sendo espreitado, à caça ou sendo caçado; chegou mesmo a pensar num velho solitário sentado em sua mansarda, de uniforme da Adidas, sem muito o que fazer a não ser observar o movimento das árvores, o caminho do sol numa tarde de verão. Tinha força, mas não era mais o presidente cubano, revolucionário, capaz de proferir por quatro horas um discurso vigoroso e rasgado na Assembleia da ONU, em Nova Iorque...  O desejo de Leon era ver de perto a figura do comandante".                                                                                                                                                      Havana me engana

Foto: Roberto Nicolato

NA TROCADERO (Leon)



"-- Esse aqui muchacha -- E indicou um entre muitos quadros feitos com espátulas em cores vibrantes. O vermelho e o amarelo, o chevrolet se desintegrando naquele calor do mês de julho na Trocadero.  Era uma cena de rua, com um ciclotáxi ao fundo e gente encostada nos umbrais dos prédios coloniais. Coisa de cubano. Singular. O mesmo escolhido por Leon.-- Representativo. Uma arte pura entre as demais – Leon aplaudiu a escolha do amigo, se dirigindo a  Anna, agora aceitando sem muita convicção."

                                                                                                 
                                                                                                                                       Havana me engana

A arte imita a vida (Giuliano)



"...e Giuliano deparou-se com o quadro na parede, uma gravura, mera ilustração ou charge, e no centro o gentil e mimado Mickey Mouse, num traje de bolinhas; o coitadinho acossado por uma multidão de pequenos ratos furiosos e vingativos. Puro descompasso se comparado ao requinte das mesas, o lustroso chão de mármore, enfim, o estilo neoclássico do Inglaterra. A vida em Cuba era mesmo engraçada!"

                                                                                 Do livro Havana me engana
                                             

domingo, 25 de novembro de 2018

DO PESCADOR (Giuliano)


"O tempo quente, um barco movimentava lento no infinito e, na lente, Giuliano focou o velho e sua rede de pesca. Foi quando se deu conta: “sou um homem nos quarenta, com mais perguntas que respostas, andando por uma estrada de terra... Queria ter o coração apaziguado de um pescador. De todos os homens, o pescador é o que mais se adequa ao tempo da espera. A espera do peixe invisível a morder a isca e ser capturado como um prêmio à paciência"
                                                                              Do livro "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

NO MALECON (Giuliano)


"O Caribe, pensou Giuliano, era o mar de Hemingway. Ele viveu em Cuba entre os anos de 1939 e 1960. Queria entender, de verdade, o que o levou à ilha, depois de deixar o seu país natal, os Estados Unidos, e a Europa, sobretudo a glamourosa Paris. Há algo nas biografias que foge ao nosso entendimento sobre o autor. Os seus silêncios, os medos, as prisões... Hemingway havia embarcado na ilusão dos trópicos, no hedonismo de uma ilha paradisíaca, cruzando o Caribe, a bordo do Pilar. Vivendo na companhia de intelectuais e pescadores, homens do mar".
                                                                                    Do livro "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato