Trilogia do amor, do homem e da natureza
Com o lançamento da coleção de poesias “Poemas de Terra e Mar” (Caravana Editorial), o jornalista e escritor, Roberto Nicolato, afirma ter cumprido um ciclo poético, iniciado em 2020, com o lançamento de “Pequeno Tratado do Amor e da Natureza” e, na sequência com a obra, intitulada “A noite sem tempo”, escrita e publicada naqueles tempos pandêmicos. Com a conclusão dessa trilogia, um dos mais talentosos poetas da contemporaneidade, confessa a sensação de ter “limpado as gavetas”, navegando por um manancial poético do tempo de agora e do passado, agora recuperado.
“As minhas três obras
abarcam tempos variados, da adolescência à idade adulta, aos tempos atuais, nas
principais circunstâncias históricas e pessoais em que estive envolvido”,
resume o poeta. O tempo que nos atravessa, continua, e como
reagimos a ele traduz-se na matéria prima necessária ao fazer literário e
comigo isso acontece naturalmente. Acho que, assim, pretendo conseguir conceber
um caráter de verdade aos meus escritos. Matérias-primas do meu sentimento e da
minha razão. Contemplação mística para um poeta hedonista, anárquico e até
mesmo romântico. Para quem, um bom entendedor, “um símbolo basta”.
O três livros aqui
apresentados não são sucedâneos um ao outro, mas os vejo em uma linha linear
crescente, balizados por um determinado ponto de vista, em perspectiva,
buscando conceituar o vivido, torná-lo matéria de poesia, com o que há de
singelo, crítico e até anárquico. O primeiro livro de poesias “Pequeno Tratado
do Amor e da Natureza” já trazia essas preocupações, já apontava para essas
clarividências, em poemas não muito longos, mas em pura revelação da irmandade
natural entre homem e natureza, esse templo de amor e contemplação.
A segunda coleção de
poemas “A noite sem tempo” traz uma peculiaridade e, mais do que isso, traz a
marca de um tempo assombroso. Boa parte dos poemas foram escritos durante a
pandemia, outros foram trazidos à tona, guardados de gaveta, que ganharam vida
nova por meio de um trabalho incansável com as palavras e sobre o que significam,
representam. Do primeiro trabalho poético, carrega essa relação intrínseca com
os elementos da natureza, mas alcança a universalidade ao ampliar o horizonte
de preocupações, em poemas longos, muito além dos temas que afetam o cotidiano
de sua aldeia. No mais, o livro atenta para a ameaça antidemocrática e
surgimento do fascismo.
Nesses três livros de
poemas, consubstanciam vertentes, olhares específicos, temas muito caros para
serem mencionados, sob o entendimento perspicaz e singular do poeta. “A
natureza como um templo” diria Baudelaire, onde residem mistérios. E a
compreensão desse templo requer apenas a nudez dos pensamentos e da alma.
Irmandade, contemplação e devoção. Da natureza. Do amor. Do homem. Como um
tratado. Da natureza que molda o homem, aos seus caprichos, mas que também o
liberta no seu infinito olhar. Da natureza que se faz oculta, clandestina. A
natureza exuberante da Terra Brasilis.
Em toda a trilogia, há
diversos poemas sobre a natureza. Fauna e flora na abundância, em movimento,
estacionadas como o navio no fundo do mar. A natureza como protagonista dessa
célebre festa para o olhar do poeta, imagens sinestésicas capazes de alumbrar
os sentidos, irromper a dança da chuva. A natureza que em meus passos traduz-se
em orações cadenciadas, ao passo ligeiro, modulado. Paisagem impressionista,
iluminada ao sol do começo do fim da tarde. Cada palavra, um som. Cada rito uma
imagem.
Esses livros compreendem,
quem diria, cerca de cinquenta anos de poesia. É também uma antologia do muito
que não foi publicado. Uma parcela não desprezível de textos que se mantiveram
intocáveis, outros que exigiram adereços e um novo sentido e até aqueles em que
restaram o espírito vivo de uma percepção, sentimento ou compreensão do mundo.
Era preciso preservar à sua época, a essência, seja até por uma nova forma. A
poesia me chega em ondas. Reflete o tempo e o lugar onde vivi. Tenho por conta.
As influências momentâneas. Nela, pode haver o clamor da juventude anárquica, daquele
que imagina ser um sujeito tímido, rebelde, avesso às convenções.
Trata-se do relato
poético de uma existência, não diria atrativa, mas que se coloca desnuda frente
ao universo com que ele tem de mais belo e ameaçador. Poemas desenhados no
passado foram resgatados nas obras “Pequeno Tratado da Natureza”, “A Noite sem Tempo”
e “Poemas de Terra e Mar”. Eles não sobreviveriam por si sós. Faltavam-lhe
musculatura. Por isso, muitos ganharam novas versões e, o melhor, passaram a
integrar um corpo poético, substancial, ao lado de outros de agora e mais
maduros. Enfim, nesses se fundiram, ganharam unidade e compreensão do leitor do
tempo e do espaço em que foram moldados. Assim, espera-se.
O mar e a montanha
traduzem-se na espinha dorsal do meu fazer poético, dessa trilogia em que estão
em evidência o amor, o homem e a natureza. Não nego a importante contribuição a
essa produção a minha quase permanência, por um período de dez anos, no litoral
paranaense, mais especificamente no Pontal do Paraná, de onde se avistava em
minhas caminhadas a exuberância da Ilha do Mel. Ali, pude conectar ao presente
o que havia ficado no passado, alheio às exigências da vida urbana e repleta de
compromissos. Como num caleidoscópio, tentei criar uma profusão de ritmos e
cores. Um exagero do belo.
Posso ter exagerado sim,
com tintas um tanto fortes e, quem sabe, apelativa, sim, mas era pura intenção.
Arroubos românticos de quem leu na adolescência a coleção em miniatura dos
poetas brasileiros, da geração perdida, melancólica, do século 19. Ou então, no
curso da vida acadêmica, apreciador de um estudo mais atinado dos simbolistas
franceses. A temática do amor e da morte encontra-se muito presente nas três
coleções e, principalmente, como testemunho de um tempo, como o obscuro período
da pandemia de covid. Da morte onipresente, na elaboração do livro não se
buscou a tragédia por isso só, mas a leveza e o apaziguamento, diante do caos e
do horror,
“A noite sem tempo” é o
título de um poema que dá nome ao meu segundo livro de poesias; no fundo uma
toada antifascista a ser declamada na cadência de murros sobre a mesa, como uma
prece, um aviso, um alerta. No mais, segue no signo da leveza, na minha eterna
contemplação do que é de mais belo. Por que essa preocupação? Não me queira mal
meu caro leitor, se me estendo em muitas palavras. Há sim um compromisso com a
realidade fugaz e a concepção de um universo ao mesmo tempo perto e distante.
Passível de ser contemplado, analisado e, porque não, representado e fixado no
aqui e agora, pela contingência das palavras.
Agora, nesse meu “Poemas
de Terra e Mar”, o poeta ressurge como um artífice, capaz de moldar um
palavrório do que restou após a turbulência, de um voo raso e bastante profundo,
o enfrentamento da tempestade. Restaram não apenas destroços de um tempo
pandêmico, mas também um caudal de versos compostos, desenhados ao som das
ondas, nas madrugadas, do período em que dividi morada, por cerca de dez anos,
no litoral do Paraná. A visão do mar aberto, se estendendo na imensidão ficará
na memória e nas páginas desse livro, o corpo seguindo debaixo de um céu azul
ou ameaçador de uma natureza intocável.
“Anárquico, solitário,
sem pousada. Farta-se de terra e mar”. O último livro da trilogia poética,
reconecta o poeta de um passado em terras mineiras, nas montanhas, com a
vivência vasta de um universo sem porteiras. De uma universalidade que encontra
ressonância nos pequenos barcos e navios ao largo. Dos pássaros que cantarolam
ao amanhecer às imagens que sobreviveram nas gavetas, que o poeta carregou
consigo nas suas andanças, de um tempo jovem, quando era preciso certa dose de
rebeldia em face de um universo e que sempre nos quer atento e, por isso, em
completa e leve imersão.
Curitiba, primavera de
2025.
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