A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

DOIS NOVOS LIVROS A CAMINHO


 Apesar dos percalços, enfim boas notícias nesse final ano de 2020. Fui premiado no Concurso Outras Palavras e serei contemplado com a publicação do meu mais recente livro de poesias "A noite sem tempo".

Segue o texto de apresentação: "A obra conta com 41 poesias, abordando temáticas diversas, como o amor, a crítica social, o sentido da existência e a relação do homem com a natureza. A exemplo do seu último livro de poesias, em "A noite sem tempo", Nicolato revela mais uma vez a sua visão poética como processo de artesania na composição da linguagem, da palavra carregada com o maior grau possível de significados, como ensina Ezra Pound. Valoriza com frequência os prazeres da melopeia, ritmos e sonoridades nos versos, nos poemas curtos e longos, dialogando com o passado e a contemporaneidade e com os grandes nomes da poética nacional e internacional, por meio da intertextualidade e com a cultura no seu sentido mais amplo(...). Parabenizo a todos os colegas premiados!
Outra boa notícia: Em 2021 também estarei publicando em e-book, com apoio da Lei Aldir Blanc, o meu pequeno romance "Pacto", que se passa entre os anos de 1976 e 1979, durante a ditadura militar no Brasil.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

NA MILITÂNCIA (Leon)



"-- Pelo que contam era um jovem um idealista, relaxadão, bem diferente da figura do militar sisudo e sério que se tornou, embora em algumas vezes retornasse o seu senso de humor. Naquele tempo, era famoso pelo jeito descontraído, usava um terno de lã azul marinho, sempre aberto e a gravata solta, aquele homem grande de passos largos buscava arrebanhar seguidores, contrários ao regime, à corrupção que tomava conta da própria Universidade de Havana, onde era estudante de direito, aqui ele fazia a sua militância, chamando cada um para uma conversa reservada, mas nem tanto,(...) Leon até imaginava a figura do jovem Fidel entrando no café, a agitação dos estudantes nas mesas, até se dar conta da presença de Anna, bem à sua frente..."

De "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

DE HERÓIS E DESTERRADOS (Leon)

"Pensou: A saga dos heróis é um contínuo voltar pra casa, encontrar uma mãe complacente, uma esposa zelosa e uma pátria pronta a servir, embora muitos não deem conta de que se tornaram
seres inadaptáveis, alienados em sua própria memória. Desterrados. Subiu a avenida até a Praça Central, onde deparou-se com uma imensa fila de trabalhadores cubanos".

Do romance "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

domingo, 3 de fevereiro de 2019

TRAVESSIA (André)

Mercedes contou que a irmã, Graziela, ia tentar a travessia com o namorado no dia seguinte. “O pior, André, é quando sua família vai se desintegrando, fugindo da vista da gente, pra um dia que você não sabe quando...”, disse naquela noite calorenta, sentada na amurada do Malecon e André beijou seus olhos, a abraçou num misto de amor e compaixão, e falou que era melhor mesmo que ela não se arriscasse na travessia, os barcos eram frágeis, muitos naufragavam, e ele logo percebeu que a moça, assim como tantas outras, sonhava em encontrar alguém que pudesse levá-las o mais depressa dali


De "Havana me engana"

Roberto Nicolato

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

REBELDIA (Leon)


-- Te quiero porque su boca sabe gritar rebeldia – sussurrou a frase de Benedetti. De repente, Anna retornou de seu mundo e Leon parecia feliz, embora constrangido. Ela teria ouvido? O táxi estacionou em frente ao Paladar e Leon sentiu que algo maior o ligava àquela moça simples, argentina, estudante de medicina em Havana. Ou seria mais uma de suas obsessões?
                                                                                             Havana me engana
                                                             

sábado, 15 de dezembro de 2018

BUSCA SOLITÁRIA (Leon)



"Por toda parte, o velho Fidel ainda estaria espreitando ou sendo espreitado, à caça ou sendo caçado; chegou mesmo a pensar num velho solitário sentado em sua mansarda, de uniforme da Adidas, sem muito o que fazer a não ser observar o movimento das árvores, o caminho do sol numa tarde de verão. Tinha força, mas não era mais o presidente cubano, revolucionário, capaz de proferir por quatro horas um discurso vigoroso e rasgado na Assembleia da ONU, em Nova Iorque...  O desejo de Leon era ver de perto a figura do comandante".                                                                                                                                                      Havana me engana

Foto: Roberto Nicolato

NA TROCADERO (Leon)



"-- Esse aqui muchacha -- E indicou um entre muitos quadros feitos com espátulas em cores vibrantes. O vermelho e o amarelo, o chevrolet se desintegrando naquele calor do mês de julho na Trocadero.  Era uma cena de rua, com um ciclotáxi ao fundo e gente encostada nos umbrais dos prédios coloniais. Coisa de cubano. Singular. O mesmo escolhido por Leon.-- Representativo. Uma arte pura entre as demais – Leon aplaudiu a escolha do amigo, se dirigindo a  Anna, agora aceitando sem muita convicção."

                                                                                                 
                                                                                                                                       Havana me engana

A arte imita a vida (Giuliano)



"...e Giuliano deparou-se com o quadro na parede, uma gravura, mera ilustração ou charge, e no centro o gentil e mimado Mickey Mouse, num traje de bolinhas; o coitadinho acossado por uma multidão de pequenos ratos furiosos e vingativos. Puro descompasso se comparado ao requinte das mesas, o lustroso chão de mármore, enfim, o estilo neoclássico do Inglaterra. A vida em Cuba era mesmo engraçada!"

                                                                                 Do livro Havana me engana
                                             

domingo, 25 de novembro de 2018

DO PESCADOR (Giuliano)


"O tempo quente, um barco movimentava lento no infinito e, na lente, Giuliano focou o velho e sua rede de pesca. Foi quando se deu conta: “sou um homem nos quarenta, com mais perguntas que respostas, andando por uma estrada de terra... Queria ter o coração apaziguado de um pescador. De todos os homens, o pescador é o que mais se adequa ao tempo da espera. A espera do peixe invisível a morder a isca e ser capturado como um prêmio à paciência"
                                                                              Do livro "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

NO MALECON (Giuliano)


"O Caribe, pensou Giuliano, era o mar de Hemingway. Ele viveu em Cuba entre os anos de 1939 e 1960. Queria entender, de verdade, o que o levou à ilha, depois de deixar o seu país natal, os Estados Unidos, e a Europa, sobretudo a glamourosa Paris. Há algo nas biografias que foge ao nosso entendimento sobre o autor. Os seus silêncios, os medos, as prisões... Hemingway havia embarcado na ilusão dos trópicos, no hedonismo de uma ilha paradisíaca, cruzando o Caribe, a bordo do Pilar. Vivendo na companhia de intelectuais e pescadores, homens do mar".
                                                                                    Do livro "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

DESFAÇATEZ



A desfaçatez acontece até mesmo na natureza.
Plantas que se travestem de outras mais exuberantes e bem quistas.
E vão tomando o lugar de outras e, quando arrancadas, deixam para trás seus miudinhos para que possam germinar, crescer até que serão arrancados novamente.
Tiveram tempo e lugar é o que lhes importa, para tecer o seu fio de existência, nem que seja para os seus e para o desagrado dos belos olhos dos homens.
Foto: Museu de Arte de Cuba
Roberto Nicolato

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Prosa Paranaense



REPORTAGEM:
DNA DA PROSA PARANAENSE NO 
SÉCULO 20  







Consanguinidade nada aparente


   






Prosa paranaense traduz no realismo ou linguagem algumas das contradições do século 20
   
Roberto Nicolato

     A prosa paranaense pertence a uma árvore geneológica de muitos frutos, mas com raízes que saltam à terra. Para o bem ou para o mal, carece do peso e dos fortes lastros da tradição e do passado. Sendo uma produção mais recente do que a de outros estados brasileiros, está ancorada no novo, como produto da modernidade. E assim traduz, na sua timidez, algumas das contradições do século 20. Seus representantes mais ilustres poderiam descender diretamente da vertente simbolista, que encontrou terreno fértil para se alastrar em Curitiba. Um exemplo típico dessa experiência é o único romance simbolista brasileiro, No Hospício, escrito por Rocha Pombo em 1905, e considerado como o único que pode levar este nome na história da literatura brasileira, segundo o crítico Moisés Massaud. No Hospício é o que se poderia chamar de romance-ensaio, com justaposição de outras linguagens fazendo parte da estrutura narrativa. Sem muita ação, se passa num hospício para onde o personagem Fileto se refugia, como numa torre de marfim, se utilizando do monólogo interior para falar de religião, filosofia, história e literatura.
   

 Se para Massaud é o romance simbolista brasileiro por natureza que antecipa alguns elementos da narrativa moderna, para o crítico Wilson Martins seu valor resume-se ao fato de apenas ser representativo de um movimento. Não mais que isso. "Mais modernamente, a prosa paranaense começa com Newton Sampaio, no final da década de 30. Ele era um moderno entre aspas, preocupado com a temática urbana, família da qual descende Dalton Trevisan", observa. Na verdade, não se pode pensar o projeto literário de Dalton Trevisan sem a revista Joaquim e a influência do escritor paranaense Newton Sampaio, que faleceu em 1938, com apenas 24 anos de idade, vítima de tuberculose. Sampaio morreu antes de ver publicadas as suas obras: Irmandade (1938), que foi premiada pela Academia Brasileira de Letras e Contos do Sertão Paranaense (1939). Dalton Trevisan o elegeu como o maior contista do Paraná. Em artigo da Joaquim, de número 11, diz que Newton Sampaio deixou uma obra talentosa, mas inacabada, e por isso mesmo irregular, alternando contos medíocres – como quase todos os que compõem Contos do Sertão Paranaense – e narrativas exemplares, de grande valor literário, presentes em Irmandade. Essa literatura mais voltada para os dramas humanos, para a gente comum ou da baixa clase média que circula pelas ruas e bairros da cidade também será em Dalton Trevisan um contraponto à literatura ufanista e da estética vazia dos simbolistas paranaenses (Leia-se Emiliano Perneta). Wilson Martins observa um certo ar de família entre os autores paranaenses contemporâneos, mas, assim como os integrantes de um mesmo clã, cada um com uma personalidade muito própria. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva: "Essa similaridade não deve ser levada muito a fundo, pois estou oferecendo uma visão impressionista", explica Martins, para quem nestas famílias há muita bastardia. Contigüidade, influências recíprocas e involuntárias, uma vez que a maioria vive numa mesma contemporaneidade. Assim, a temática urbana (como diria Wilson Martins, aquele interesse pela Praça Tiradentes, às 16 horas da tarde) aproxima Dalton Trevisan, Jamil Snege, Leminski e Cristóvão Tezza, da mesma forma que o experimentalismo literário se projeta nas obras de Wilson Bueno, Valêncio Xavier e Leminski. "O que existe hoje são heranças já diluídas do modernismo dos anos 20 e 30 e não da vertente simbolista", arremata. O crítico Miguel Sanches Neto também não acredita em qualquer influência direta do romance simbolista na literatura contemporânea do Paraná. "Talvez possa haver alguma conexão entre Catatau, de Leminski, e No Hospício, de Rocha Pombo...", arrisca. Na realidade, Sanches prefere colocar os autores paranaenses em dois campos, embora não muito delimitados: aqueles que buscam valorizar mais a linguagem que o enredo e os que apresentam uma dicção mais ligada ao conceito modernista de percepção da realidade. No primeira caso, se filiaria a prosa neobarroca de Wilson Bueno em Mar Paraguaio; o experimentalismo de Leminski, em Catatau, a valorização da estrutura narrativa em Manoel Carlos Karan ou o vanguardismo de Sossélla, em Nova Holanda, sem falar na prosa imagética de Valêncio Xavier. Numa vertente mais realista (sem desprezar, no entanto, o apuro no trato da linguaguem), se situaria Dalton Trevisan, Cristovão Tezza, Roberto Gomes, Domingos Pellegrini, Jamil Snege e o próprio Miguel Sanches Neto, cada um com suas características e dicções muito próprias.

     Para a professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná, Marilene Wanhardt, quando se fala em DNA da literatura paranaense o primeiro nome que surge é do contista Dalton Trevisan. "Ele encarna por excelência na sua ficção esse estereótipo do curitibano contido, que fala pouco, e crítico da província. Uma curitibanidade que também se revela no modo de expressão da maioria dos autores que vivem na capital paranaense, numa província que mitifica as suas manifestações menores ou não deixa aflorar suas expressões mais significativas". Se a urbanidade tem certa prevalência como tema na prosa paranaense, por outro lado são poucas as obras que se dedicam à ficção histórica, rural ou sobre a imigração. Um levantamento feito pela professora Marilene na Região Sul, no período de 1955 a 1990, revelou que dos 30 romances históricos publicados no período apenas quatro eram paranaenses, com destaque para O Mez da Grippe, de Valêncio Xavier e Casa Verde, de Noel Nascimento. "Talvez o fato de sermos pobres na ficção histórica tenha a ver com a questão identitária, já que nosso perfil cultural não é muito divisado. O que não é exatamente ruim, uma vez que não tenhamos de ir atrás desta tradição", observa a professora da UFPR. Marilene diz ainda que não se pode dizer que exista uma literatura paranaense na mesma acepção, por exemplo, da praticada no Rio Grande do Sul. "Embora tenhamos nomes significativos, a produção não traduz esse perfil do estado. O que temos é uma literatura no Paraná", afirma. Neste entrecruzar de influências ou consangüinidade, talvez a expressão do escritor Wilson Bueno possa resumir o assunto: "Somos herdeiros dos simbolistas, das vanguardas, das retaguardas e não podemos fugir do nosso passado. De Homero, passando por Rocha Pombo". Legenda: Capa do livro “Remorso”, da Coleção Brasil Diferente de Newton Sampaio, editado pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002. Linha do tempo 1907 – É publicado o romance No Hospício, do historiador Rocha Pombo. O crítico Moisés Massaud o considera como o principal romance do movimento simbolista. Sem muita ação, livro traz diálogo com a história, filosofia, religião e literatura. Antes outros romances simbolistas haviam sido publicados no Paraná, mas de pouca expressão comoMocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque, e Amigos (1900), de Nestor Vitor. 1939 – Newton Sampaio publica Irmandade, livro de contos marcado pelo tom pungente e pela sátira ao modo de vida da província. É considerado como a primeira voz moderna na literatura paranaense e precursor da geração de Dalton Trevisan.
    
      Em  1946, a Revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan, surge com a proposta de homenagear todos os Joaquins e propor uma arte de caráter cosmopolita e inovadora. Publicação vai servir como o veículo onde Dalton Trevisan dará visibilidade a sua produção literária. 1959 – Dalton Trevisan publica seu primeiro livro Novelas Nada Exemplares, que já o revela um escritor amadurecido. 1968 – Primeiro livro de Jamil Snege, Tempo Sujo revela uma espécie de narrativa-depoimento da geração que freqüentava a "Velha Adega", em Curitiba, na década 60. Nas décadas de 80 e 90, se destacou no cenário literário local com as obras Como Se Fiz Por Mim Mesmo, Viver É Prejudicial à Saúde e Grande Verão da Leitoa Branca. 1975 – Publicação de Catatau, de Paulo Leminski. Romance experimental que traz um extenso monológo em que se projeta a figura do filósofo René Descartes que supostamente teria vindo ao Brasil junto com Maurício de Nassau. Posteriormente, Leminski acabará se tornando o principal nome da poesia brasileira nos anos 80. 1977 – O Homem Vermelho, de Domingos Pellegrini, ganha o prêmio Jabuti. Com uma prosa ligada à temática social e ao desbravamento do norte do Paraná, Pellegrini vai escrever ainda Terra Vermelha, O Caso da Chácara Chão, entre outros livros, sendo considerado com um dos maiores contistas nacionais. 1981 – Valêncio Xavier começa a ter projeção literária com o lançamento de Mez da Grippe, livro que foge da narrativa tradicional e que tem suscitado polêmicas entre os críticos. Livro é produzido a partir da montagem de recortes de jornais, depoimentos, poemas e cartões postais, numa valorização da imagem, seguindo uma característica própria na produção do autor. É fundada a editora Criar Edições, de Roberto Gomes, ˆria Zanoni e do recém- revelado Cristovao Tezza, que viria se tornar um dos grandes romancistas da geração 80/90. Década de 90 - Destaque para Mar Paraguayo, considerado um dos livros mais importantes da década. Manoel Carlos Karam ganha o Prêmio Cruz e Souza, com o livro Cebola; Miguel Sanches Neto lança Chove sobre Minha Infância, Roberto Gomes retoma a prosa com Solidão em Curitiba e Valêncio Xavier tem sua obra reconhecida nacionalmente. Em paralelo, a produção londrinense revela a prosa de Mário Bortolotto.

Matéria publicada no Caderno G, do extinto jornal impresso, Gazeta do Povo – Curitiba




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

TRATADO DA NATUREZA



1 – Os bem-ti-vis usam os ninhos apenas para a reprodução.  Depois do amor o abandono, onde agora saíras multicores fazem deles o local preferido para o seu amor tardio.

2 – Elas, as formigas, carregam as flores e folhas aos pedaços. É de partir o coração!

3 – Um casal de bem-te-vi inseparável. No mesmo fio de alta tensão, próximos ainda ao ninho.

4 – As bananeiras crescem com urgência desmedida no verão. Nutrem de muita água das chuvas. Vergam em direção ao céu.

5 – Elas, as formigas, cortam as avenidas atrás de folhas tenras. Uma passarela de muita riqueza, e tristeza.

6 – Todas as árvores crescem de uma urgência desmedida no verão. Agora meu olhar acredita.

7 – Vou moldando a natureza. Não posso deixá-la sozinha seguir, seu próprio instinto. É muito confuso!

8 – É no pequeno detalhe que estão as grandes significâncias. Um exagero do belo!

9 – A fêmea do Teiú dá luz na primavera. No verão, os filhotes se erram das matas e acabam revelando suas cores em outras moradas.

10 – Onde estarão as corujas que um dia povoaram meu inverno? Recolhidas no buraco da minha memória já contei umas três...

11- No começo do outono as árvores crescem e se embebedem com as águas da  chuva. Só não as vejo crescer porque adormeço.

12 – O fruto da bananeira rompeu o ventre noutro dia. Na calçada de azulejos restaram flores coloridas de paixão.

13 – O roxo da bananeira é da flor ou do fruto? Para os insetos não existem cores na satisfação.

14 – O pássaro vermelho pousou ao lado da casa. Era tão lindo de ver que as folhas juntaram-se, desavergonhosas, para me escondê-lo da vista.


15 – Espatifam-se na água, os pássaros brancos de minha paixão. Não muito longe, sob um olhar duvidoso.

Foto: Roberto Nicolato

sábado, 27 de fevereiro de 2016

UMA BREVE ANÁLISE DO CONTO "UMA VELA PARA DARIO"

Roberto Nicolato
#robertonicolato
#nicolatoroberto



As noções de lar e província no conto "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, estão muito próximas. A casa é o espaço onde há uma suposta relação de afinidade e intimidade entre as pessoas, que carregam certo grau de parentesco. No caso da província, se não há um parentesco, há uma afinidade pelo próprio fato de ocupar o mesmo território, onde são estabelecidos laços de identidade, e, de alguma maneira, participação na produção simbólica da cidade.

No conto do escritor curitibano,  é justamente o espaço da província que se transforma em metrópole, o que irá contribuir para a degradação do personagem Dario, um sujeito desconhecido, anônimo, estranho ao meio, numa cidade em que as redes de sociabilidades vão se dissolvendo em função do crescimento urbano e populacional na década de 50. O texto, republicado na obra Em busca de Curitiba perdida, integra o livro Cemitério de elefantes, lançado em 1964.

O conto começa com Dario dobrando uma esquina do centro de Curitiba, apressado, sendo
obrigado, logo em seguida, a se sentar na calçada ainda úmida de chuva, ao sofrer um ataque cardíaco. As pessoas acorrem até o local em que ele se encontra, mas o que parece ser uma relação de fraternidade, de ajuda, se mostrará, posteriormente, como apenas uma simulação e a negação do indivíduo enquanto sujeito e cidadão.

Cabe ressaltar que no conjunto da obra de Dalton Trevisan o espaço público tal como é dimensionado em "Uma vela para Dario" é muito mais exceção do que regra. E que mesmo o trânsito dos personagens pelo universo da rua, como nas investidas de Nelsinho e no conto "Noites de Curitiba", acaba sendo mediado, em última instância, por relações geralmente restritas, não incluindo, por exemplo, a população da cidade. Malcolm Silverman observa, inclusive, que há uma prevalência, nas narrativas de DT, dos conflitos de natureza íntima que se configuram, na maioria das vezes, no interior de uma casa ou de um quarto.

Na narrativa de "Uma vela para Dario", o espaço vai cumprir uma função importante como o elemento constitutivo da trama, permitindo compreender as teias de relações interpessoais que nele se formam, e como ocorrem a perda da identidade individual e a noção de não-pertencimento na passagem da província para a metrópole. Dalton, na verdade, vai antever o esfacelamento da rede de sociabilidades no espaço público e a reificação do indivíduo numa província em mutação.

A perda da identidade de Dario vai ocorrer tanto no plano material — pois terá todos os seus pertences roubados —, quanto no campo social, na medida em que é um indivíduo estrangeiro, não pertencente à cidade. Por conta desse anonimato, o protagonista não será devidamente socorrido pela população, assim como pelos órgãos públicos. A primeira atitude contrária à remoção do personagem para um hospital virá de um motorista de táxi. "Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?"

Na seqüência, os transeuntes chamam a ambulância, que nunca aparece, pensam em levá-lo até à farmácia, mas não o fazem por causa do peso de Dario. Sem os documentos, o protagonista não pode mais ser identificado pela polícia, que, por sua vez, chama o rabecão. Até o final da narrativa ninguém aparece para levar o corpo.

A carteira retirada de seu bolso apenas confirma o seu anonimato, pois não o identifica como uma pessoa nascida na cidade: "Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados (...). Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade". As noções de não-pertencimento e da perda da identidade se acham entrelaçadas e uma é decorrente da outra. Assim, o personagem Dario vai sendo desnudado, aos poucos, nos seus bens materiais, perante uma sociedade que perdeu o sentido da solidariedade e do amor ao próximo: "O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado".

A cada deslocamento de um local para outro, os pertences do Dario vão sendo furtados: sapatos, o alfinete de pérola na gravata e o relógio de pulso. Não sobrará nem mesmo o paletó e a aliança de ouro que só era destacada molhando o dedo com sabonete, conforme revela o narrador: "O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo — os bolsos vazios".

A noção do não-pertencimento também estabelece uma relação paradoxal dos habitantes da cidade para com o forasteiro. Em primeiro lugar, porque sugere a resistência dos habitantes da província em relação ao indivíduo que é estranho ao seu convívio, em que pese ser o aumento do processo migratório um processo natural nas sociedades em rápida transformação urbana.

Em segundo lugar, o ato de desnudar Dario, um estrangeiro que desperta a atenção de todos, e levar os seus pertences poderia ainda representar, simbolicamente, um conhecimento à distância dos moradores para com o protagonista, sem, no entanto, introduzi-lo no universo de cidade. Em suma, o processo narrativo encaminha-se para a transformação do personagem, de sujeito a objeto, na imagem de um corpo sem identidade, uma vez que até o final da narrativa, continuará esquecido na calçada, despertando, por ironia, apenas a compaixão de um menino de cor, descalço, que vai acender uma vela ao lado do cadáver.

O processo de reificação é gradativo na narrativa de Dalton e atinge seu ápice no momento em que Dario é "pisoteado dezessete vezes" e, no final, quando o corpo do protagonista passa a integrar o próprio espaço, assim como o personagem Chico, de "Pensão Nápoles". Assim, Dario será apenas mais objeto na calçada: "Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva". 

(Ver post do conto neste blog) e o romance "Do outro lado da rua", inspirado nesse conto de Dalton Trevisan.

ENTREVISTA CONCEDIDA A IRIA BRAGA DO PROGRAMA E-CULTURA - 16/02/16


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Noite literária no Wonka Bar




 Lançamento  de "Do outro lado da rua"
movimenta cena literária no Wonka

 O jornalista e professor Roberto Nicolato lançou, na última quarta-feira (17/02), o seu segundo livro de ficção, Do outro lado da rua (Kotter Editorial), no Wonka Bar, em Curitiba. A obra,  inspirada  no conto "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, tem como cenário a Curitiba dos anos 1950 e da atualidade.
           O evento, que contou com a presença de amigos do escritor, jornalistas, e pessoas interessadas em literatura, fez parte do projeto Vox Urbe, capitaneado pelo escritor e fotógrafo, Ricardo Pozzo. Nicolato conversou com os participantes sobre a construção narrativa do seu segundo romance e de quando começou a se interessar por literatura. Logo após, fez a leitura de alguns trechos do livro "Do outro lado da rua" e a leitura de dois poemas de sua autoria.

           A noite cultural no Wonka Bar continuou com uma sessão de declamação de poemas, como já é de tradição naquele espaço. O destaque ficou para a poeta e uma das finalistas da edição de 2015 do  Prêmio Jabuti, a mineira Liria Porto.

Uma narrativa psicológica
 

         Do outro lado da rua conta a história de Otaviano, um funcionário público aposentado que vive em companhia da empregada e de um gato, no centro da capital paranaense. Sem  conseguir movimentar parte do corpo e preso a uma cadeira de rodas, ele contrata um digitador e, assim, tenta produzir a sua primeira ficção. Mas sua ficção parte de um fato que testemunhou em parte e que mudou sua vida: a misteriosa morte de um forasteiro na Curitiba da década de 50 e que  irá mobilizar diferentes narrativas e modos de contá-la.
            Esse segundo romance do escritor mineiro, radicado em Curitiba, revela em dois tempos narrativos contrastes da vida curitibana e as memórias vivenciadas pelo protagonista, um sujeito atormentado por um antigo sentimento de culpa. "Não tive a intenção de escrever um romance histórico ou policial, mas propor uma narrativa psicológica sobre a glamourosa Curitiba do passado e refletir sobre as relações humanas e os males que nos atordoam", observa Nicolato.

Trecho do livro
            “O que importava é que contratando aquele rapaz estava sendo possível escrever a história do alienígena, do Ulysses moderno que viveu algum tempo naquela Curitiba de não mais, e também o como ele virou objeto de desejo dos maridos vouyers, das damas, das donzelas, das desafamadas e dos jornalistas. Não havia quem não soubesse, quem não tivesse acesso a ao menos um pequeno fragmento de prosa, nas mais das vezes fantasiosa, em conversas de bares, cafés e nos clubes requintados, sobre aquele lídimo Don Juan. Isso contribuiu para ajudar a criar o mito do homem que muitos julgavam conhecer, mas que pouco dele sabiam”.


http://kotter.com.br/publicacao/do-outro-lado-da-rua/












segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Doce ilusão


 










Não se iluda

Não há vida

Sem morte

Felicidade

Sem remorso.
 

O que assopra

Fere. O que se

Alisa.
 

Não há sermão

Sem palavras.

Verdade

Sem dor.

 
O que alivia

Vacila.

O que alimenta

Mata.


É tudo uma questão

De cor, odor

Ou pirraça!
    
    Roberto Nicolato

domingo, 13 de setembro de 2015

A ESCOLHA


Se esta bola que atravessa a rede pudesse parar se os olhares pudessem recuperar a atenção desviada a caminhada retroceder os passos talvez se pudesse enxergar que nada seguirá o próprio destino se o artilheiro amasse de verdade a bola sobre os pés se a criança tropeçasse no brinquedo que cativa o animal não farejasse mistérios talvez se pudesse amar mais e odiar menos a escolha incerta se o beijo fosse dado em paixões cinematográficas se a sala estivesse pronta para o tocar das valsas as sandálias amarradas para a conferência nas praças o tempo seria o das aves mágicas, libertárias, mas se a escolha é a palavra, a arte a invenção falsa, arbitrária, o que será do poeta nessa noite tempestuosa e calma?

 

Roberto Nicolato