A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
Mostrando postagens com marcador jornalista Roberto Nicolato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jornalista Roberto Nicolato. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de setembro de 2015

A ESCOLHA


Se esta bola que atravessa a rede pudesse parar se os olhares pudessem recuperar a atenção desviada a caminhada retroceder os passos talvez se pudesse enxergar que nada seguirá o próprio destino se o artilheiro amasse de verdade a bola sobre os pés se a criança tropeçasse no brinquedo que cativa o animal não farejasse mistérios talvez se pudesse amar mais e odiar menos a escolha incerta se o beijo fosse dado em paixões cinematográficas se a sala estivesse pronta para o tocar das valsas as sandálias amarradas para a conferência nas praças o tempo seria o das aves mágicas, libertárias, mas se a escolha é a palavra, a arte a invenção falsa, arbitrária, o que será do poeta nessa noite tempestuosa e calma?

 

Roberto Nicolato

sábado, 15 de março de 2014

SEMPRE UMA DESPEDIDA


“Por um instante, meu rosto espelhou-se na fonte. Era o de um adolescente quase adulto e tinha um ar de despedida. Esta tinha sido a minha sina. Sempre a despedida. E a imagem projetada, aos poucos, me levou novamente ao seminário, onde um rapaz solitário observava atônito, primeiro uma fina fumaça, e depois as labaredas tomarem conta do prédio imponente da biblioteca. Não podia imaginar a destruição de todo aquele patrimônio cultural e do local onde passara muitas horas perdido em reflexões filosóficas ou viajando nas histórias dos romancistas. Não havia mais o que fazer e já era tempo de tomar novos rumos na vida” (Trecho do meu livro "A caminhada ou O homem sem passado" - Foto: Roberto Nicolato)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

EM ESTILO GÓTICO


“Era Lídia quem eu mais queria naquele momento, diante do fogo, em meio ao ensaiar de passos e de uma cantoria sem fim. As valas profundas, abertas, recebiam comidas e bebidas, destinadas à deusa, para que assim ela pudesse atender aos pedidos. Chamei Lídia em voz alta, gritei o mais que pude, até que seu corpo surgiu à minha frente e maliciosamente me convidou a trilhar uma estrada estreita de boa terra, de onde avistei casas esparsas, rodeadas de bambuzais e bananeiras, e lá longe, mais à frente, uma montanha lilás, banhada pela luz do sol. As árvores foram aos poucos se afastando e, à medida em que avançávamos, o grande paredão de formas sinuosas trouxe aos pés uma igrejinha em estilo gótico, cercada por um casarão...” (Trecho do livro "A caminhada ou O homem sem passado" - Foto de Roberto Nicolato)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um poema para o blog teorias e prosas



OUTONAL
  
Quando no outono, a tristeza desse coração desfolha,
Lembre-se de cortejar o sol, o corpo nu,
para que se cumpra a promessa.

As abelhas mirins virão a nós, na preguiça dos dias.
“É tudo em vão”, dirá a flor ao bicho que se espreguiça.

“Que o universo desse amor
seja o caminho de árvores,
 veredas e buritizais”.

Dorme no outeiro o coração do homem que duvida.
É tempo de espera, de recolhidas adivinhações.
Na solidão da floresta, densa é a noite, 
melancólica a visão do dia.

Um jaboti assovia uma canção de ninar:
“Dorme nos meus braços
a flor violeta dos manacás”.

É tempo de resinas e caules nus, vidas secretas
Do caracol ensimesmado na carapuça.

As abelhas mirins fecham-se no tronco de uma palmeira.
Deixe que a lua projete a sombra dos mares.
Desenhe um arco-íris na Garganta do Diabo.
Essas são as águas com que fazes a prece.
O orvalho com o qual inauguras todas as manhãs.

Molhe-o com teu rosto, ensine o perdão.
Não há mais tempo para o amor tardio.
A encenação das aves, inclinadas ao vento.
Recolhe-se o lagarto, o camaleão nas tendas.
O coração que se resguarda na carapaça
Para que o tempo se cumpra, outonal.

                                         Poema de autoria de Roberto Nicolato - Curitiba/PR
                                         (Fotos: Roberto Nicolato)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O livro "A Caminhada..." será lançado na Livrarias Curitiba

O jornalista e escritor Roberto Nicolato lança, às 19h30, no próximo dia 20 (quarta-feira), o livro "A caminhada ou O homem sem passado" nas Livrarias Curitiba, no Shopping Estação. O primeiro romance do autor conta a história de um professor que vai em busca do seu passado ao percorrer as trilhas de civilizações pré-colombianas, no altiplano boliviano e nas cidades sagradas do Peru.  Essa volta no tempo, na medida em que o corpo avança pelo universo geográfico dos Andes, entre vales, montanhas e picos nevados, constitui-se num pleno exercício de memória, para que, assim, o personagem/narrador possa buscar o auto-conhecimento e a própria identidade.

Para saber mais:

http://www.entreverbos.com.br/?p=2909

sábado, 12 de outubro de 2013

Autoconhecimento e trabalho


“Nessa trilha,  juntam-se jornada de autoconhecimento e trabalho. A procura de uma compreensão mais profunda da existência e um mundo já dado como suportável. Calço sandálias confortáveis, seguindo o traçado do Rio Urubamba, entre cordilheiras e picos nevados. Talvez antes de mim, o Urubamba chegue por baixo, enredando-se aos pés das montanhas onde se encontra Machu Picchu — destino final desta viagem — até desaguar mais abaixo no Amazonas. Eu tomarei outro rumo, mais em direção ao alto das  montanhas, até alcançar a Porta do Sol, não sem antes beijar os céus numa altitude de 4,2 mil metros. Imagino que tudo não passe de um sonho”.                                             (Foto: Roberto Nicolato)


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Prefácio do livro "A caminhada ou O homem sem passado"







                               Um cara que sabe pouco de si




Às folhas tantas de A caminhada ou O homem sem passado, o narrador da história – cuja identidade custa a sair de dentro do bolo – avisa "não saber quem é". Conta isso com a maior pinta de desmemoriado, só que não. Pois é. Informação dada, impossível não roer as unhas e pedir trégua para tomar um ar. Dá nos nervos. Então é esse o pacto? – um protagonista que não podemos ter na palma da mão. Um baque.
Mas a canelada do autor faz um bem danado. O narrador nos priva do consolo das certezas, não sabe quem é, mas tampouco nós sabemos quem somos. Machuca um bocado ter de admitir isso, em especial para aqueles que já acumulam uns cabelos brancos nas têmporas, dor nas costas ocasionais e se acham na obrigação de arrotar alguma sabedoria.
Tudo fingimento. A vida é uma fantasia que a gente inventa, disse outro dia o poeta Ferreira Gullar. “De verdade” mesmo, só as joanetes. Somos ilustres estranhos e os anos vividos só fazem confirmar que somos uma tentativa frustrada de projeto positivista. Um mistério. E é para essa zona escura que Roberto Nicolato nos carrega, fazendo uso de uma das mais fascinantes formas de literatura – o romance de viagem. Ele nos oferece um passaporte – mas um passaporte para se perder, como no melhor das ficções de E.M. Forster e Paul Bowles.
Confesso que estranhei encontrar personagem tão etéreo – e entendo que a estranheza estava programada, feito taxa de luz que cai na conta corrente. Mas não estranhei que o autor Roberto Nicolato tenha criado alguém assim, ao vento. Para Nico, como é chamado pelos mais próximos, a tríade erotismo, exotismo, esoterismo é pura racionalidade. O extraordinário faz para ele o maior sentido. Quando viaja – nas palavras ou pelas estradas – nunca visita bocejantes cartões-postais. Antes, abre portas secretas, lê inscrições obtusas, puxa papo com seres chapados – essas figuras de Goya que passeiam pelas paisagens sem que prestemos atenção.
Nico jura que seu escrito não é autobiográfico, mas há tanto dele impresso em cada capítulo que já penso em convidá-lo em ser meu guia pela Bolívia – terreno da maior parte da trama. O problema vai ser voltar para casa impunemente. Impossível não passear por essas linhas sem deixar algum pedaço da gente enterrado nas margens do Titicaca.
“À guisa” de apresentação, o tal do protagonista é um homem atordoado pelas lembranças que lhe fogem. Segue pelo interior do Brasil, até chegar à Bolívia. Lá, embrenha-se pela mítica Tiahuanaco, um desses endereços da cultura Pré-Colombiana que, por pura preguiça, insistimos em ignorar. No caminho encontra figuras insólitas, cuja veracidade têm o status dos discos voadores. Não sabemos se são os deuses astronautas, holografias, partes de um sonho provocados por uma feijoada pesada demais. Tem-se a impressão de que lá pelas tantas o narrador vai acorda e se espreguiçar, comprar pão e revelar que caímos numa pegadinha.
Não é o que acontece, garanto. Roberto Nicolato está aqui não para enredar, mas para esgarçar o sentido da palavra viagem. Teve trabalho: cruza abismos da ficção e da imaginação, às vezes na pontinha dos pés. Nos mete medo. Por tabela, nos dá prazer. Não poderia fazer diferentes nesses anos do estranhíssimo século 21. Ao tratar de uma viagem, não teria como fazê-lo com tintas leves. Nem como nos levar a um lugar óbvio. Antes, a vertigem.
Nosso viajante não quer a Velha Europa e seus castelos, ou algum resort. Quer a Atlântida perdida. Quer o Centro da Terra. Quer ir a 1,5 mil anos antes de Cristo com uma passagem barata. Não procura a viagem tola do sexo casual, mas vai às últimas instâncias do afeto como ilusão, com folga o mais emocionante e o mais praticado. Tira de um roçar de mãos o big-bang. Mais. Não faz do inconsciente um conceito para o qual estamos adestrados, mas a maior e a mais perigosa das odisseias.
Com perdão ao uso de uma ideia amarelada à exaustão, como diria o formalista russo Victor Shklovsky – a vida é sonho, sem nata, sem valsa. Se não assumirmos essa contingência da natureza humana, não há milhagem que nos tire do lugar. Os sonhos nos ensinam que os personagens mais incríveis são aqueles que se impõem, sem que saibamos de onde vieram. Mostram que perdemos o passado a cada minuto, mas que vivemos às voltas com ele, atrás da chave que nos trará de volta ao ponto. Quanto aos fantasmas, quem não os vê? Viajamos atrás deles para conseguir voltar para casa. É disso que nos fala Nico e seu incrível narrador, um cara que por sorte sabe pouco de si.

José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário
(Fonte Tombomachay, no Peru - Foto: Roberto Nicolato)


sábado, 7 de setembro de 2013

Isla del Sol - Lago Titicaca (Bolívia)

"Do alto da montanha ficamos a contemplar a imensidão do lago, a pureza das águas no encontro com a areia das margens e seus múltiplos tons de azul. Na encosta, uma família de camponeses, mãe e filhos, estendiam-se sobre uma colcha colorida, enquanto uma lhama pastava na árida paisagem que circunda o Titicaca. O sol nesta região do altiplano é abrasador. Mas, quando se esconde, abre passagem para o ar frio que vem da cordilheira" (Trecho do livro "A caminhada ou O homem sem passado" - Foto: Roberto Nicolato)