A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Kotter Editorial publica livro de poesias de Roberto Nicolato

O leitor e a leitora têm em mãos um livro de um poeta que é, antes de mais nada, um artífice da palavra. Os poemas de Pequeno tratado do amor e da natureza apresentam de fato várias facetas de Roberto Nicolato sob o escopo da artesania poética, ou seja, sua poesia é práxis vital.  Nicolato transita entre versos livres, sonetos (alexandrinos, heroicos, sáficos) e demonstra um domínio de estilo que o leitor e leitora perceberão desde a primeira seção do livro: Do amor. Na segunda seção, Da natureza, alguns poemas nos remetem um Manoel de Barros e toda aquela atmosfera telúrica. Na terceira e última seção, Do homem, é a mais sinestésica, na qual nos deparamos com versos como “rastejando o corpo desnudo nas ervas. Levanto o meu grito, atingindo-o” Os poemas que ora compõem este volume do vate Nicolato são cristalinos no melhor sentido da palavra, pois fogem de quaisquer armadilhas herméticas. O autor valoriza com frequência os prazeres da melopeia com toda a cadência e musicalidade das quais é feita a poesia.  
Leitores e leitoras, sem mais delongas, contemplem a poesia pensada deste poeta visceral. 
Evoé! 
Daniel Osiecki, poeta
Outono 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

Poema Desejos é finalista do Prêmio Flip Off

A produção poética de Curitiba anda de vento em popa. Pelo menos, quatro poetas da cidade foram escolhidos como finalistas do Prêmio Flip Off, na categoria poesia. Yuri Amaury Pires Molinari arrebatou o segundo lugar, com  Os homens da minha família.   Os outros finalistas foram: João Victor Arcega Simino (I [am]azonia), Layla Gabriel de Oliveira (Como num truque de mágica) e Roberto Nicolato (Desejos). Além da premiação aos primeiros colocados, os demais finalistas também terão seus poemas reunidos numa coletânea a ser lançada na próxima Flip (Festa Literária de Parati), marcada para o final julho.

DESEJOS

Roberto Nicolato

O que arde em brasa, desaquece
Esquece, na fervura que as horas exalam.
Sê tudo, pois que tudo passa:
O abraço fortuito, o gesto inesperado,
O desejo incontido numa noite enganosa.
Não se prende o instante
A não ser no sopro fatal da ternura,
Numa oração ao vento
Do corpo móvel na brancura dos dias.
É que não existe estrada aos que se ajustam
Às metas, ao objetivo final da sorte.
É só um gozo alucinado para quem desperta.
Uma nuvem trovejante a quem se dobra.
Trejeitos! Sombra viva!
É o que és caminhante.
A lua te tem como única companhia,
Será cúmplice e não te roubará a sorte.
O sol aquece os teus pulmões.
Irrespiráveis, dilata seus olhos a sombra lancinante.
Redemoinhos lhe alcançam o corpo na orgia.
Esquece, pois que nada restará.
A não ser o suor de suas têmporas,
A vontade desacreditada dos girassóis.
Viva o tempo das andorinhas,
O cursar dos antílopes em retirada,
A fome dos lobos que sobrevivem no Saara.
O pouco que lhe é concedido...
Absorva como água na chuva.
Sobeja, delira, enlouqueça!
Há espaço no tempo que se move aflito.
Repare como as nuvens estão arredias!
Como esse coração pulsa sem que lhe dê cordas, desejos...
A vida do inseto invalida a permanência, de tão curta?
Vale para quem a executa.
Não tenha medo da dúvida,
Dos temporais, das formigas,
Do amor que a tudo devora
Pois que o instante não se fixa,
E Deus não escreve sua história na lama funda.
Com tintas escuras apenas lhe deu corpo e alma
E desejo para que cumpra a sua absurda aventura.



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

DESFAÇATEZ



A desfaçatez acontece até mesmo na natureza.
Plantas que se travestem de outras mais exuberantes e bem quistas.
E vão tomando o lugar de outras e, quando arrancadas, deixam para trás seus miudinhos para que possam germinar, crescer até que serão arrancados novamente.
Tiveram tempo e lugar é o que lhes importa, para tecer o seu fio de existência, nem que seja para os seus e para o desagrado dos belos olhos dos homens.
Foto: Museu de Arte de Cuba
Roberto Nicolato

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

TRATADO DA NATUREZA



1 – Os bem-ti-vis usam os ninhos apenas para a reprodução.  Depois do amor o abandono, onde agora saíras multicores fazem deles o local preferido para o seu amor tardio.

2 – Elas, as formigas, carregam as flores e folhas aos pedaços. É de partir o coração!

3 – Um casal de bem-te-vi inseparável. No mesmo fio de alta tensão, próximos ainda ao ninho.

4 – As bananeiras crescem com urgência desmedida no verão. Nutrem de muita água das chuvas. Vergam em direção ao céu.

5 – Elas, as formigas, cortam as avenidas atrás de folhas tenras. Uma passarela de muita riqueza, e tristeza.

6 – Todas as árvores crescem de uma urgência desmedida no verão. Agora meu olhar acredita.

7 – Vou moldando a natureza. Não posso deixá-la sozinha seguir, seu próprio instinto. É muito confuso!

8 – É no pequeno detalhe que estão as grandes significâncias. Um exagero do belo!

9 – A fêmea do Teiú dá luz na primavera. No verão, os filhotes se erram das matas e acabam revelando suas cores em outras moradas.

10 – Onde estarão as corujas que um dia povoaram meu inverno? Recolhidas no buraco da minha memória já contei umas três...

11- No começo do outono as árvores crescem e se embebedem com as águas da  chuva. Só não as vejo crescer porque adormeço.

12 – O fruto da bananeira rompeu o ventre noutro dia. Na calçada de azulejos restaram flores coloridas de paixão.

13 – O roxo da bananeira é da flor ou do fruto? Para os insetos não existem cores na satisfação.

14 – O pássaro vermelho pousou ao lado da casa. Era tão lindo de ver que as folhas juntaram-se, desavergonhosas, para me escondê-lo da vista.


15 – Espatifam-se na água, os pássaros brancos de minha paixão. Não muito longe, sob um olhar duvidoso.

Foto: Roberto Nicolato

sábado, 12 de março de 2016

TIRO CERTEIRO










Da árvore

Que chovia

Assovios,

De vez em

Quando

Caía

Um pássaro.

Em desaviso.


O velho de

Espingarda

Grosso calibre

Disparava no ar

O tiro certeiro.

Asas

Partidas

Cobriam

O chão.

O vermelho

Me atirava

bem no fundo

dos olhos:

a sempre

mesma

tempestade

de  sangue.


Poema e desenho: Roberto Nicolato


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Doce ilusão


 










Não se iluda

Não há vida

Sem morte

Felicidade

Sem remorso.
 

O que assopra

Fere. O que se

Alisa.
 

Não há sermão

Sem palavras.

Verdade

Sem dor.

 
O que alivia

Vacila.

O que alimenta

Mata.


É tudo uma questão

De cor, odor

Ou pirraça!
    
    Roberto Nicolato

sábado, 26 de setembro de 2015

SOLIDÃO















 
A noite dorme
O sono das
Andorinhas.
 
Rimbaud
Dança o
Sabá na
Abissínia.
 
Murilo
Instaura
Um piano
No caos
 
Ouço na
Primavera
O canto
Do sabiá.
 
Estrangeiro
Nessa terra.
Nem Pessoa
vem me
visitar.
 
Corruíra
Morreu de
Inanição.
O leão,
De frio,
No Passeio
Público.
 
Os Invernos
Invadem os
Dias, noites,
O sol dos amores
Degela
Os corações.
 
De pedra
A estátua eterniza.
Na praça
o  homem está nu.
Rins pulsantes...
 
Na cara
Do Nosferatu
Venta a noite
Densa e fria.
 
Da janela
Abstraio
Absinto
Toda forma
de existir.
 
Quisera-me
Agora
 reunir
Os sinos.
Tocar a sorte,
 Um raio
De esperança
E, assim,
adiando
 planos
de morte.
Algum desejo...
 
É quando
Me entupo
De solidão.
Poema e foto: Roberto Nicolato

domingo, 13 de setembro de 2015

A ESCOLHA


Se esta bola que atravessa a rede pudesse parar se os olhares pudessem recuperar a atenção desviada a caminhada retroceder os passos talvez se pudesse enxergar que nada seguirá o próprio destino se o artilheiro amasse de verdade a bola sobre os pés se a criança tropeçasse no brinquedo que cativa o animal não farejasse mistérios talvez se pudesse amar mais e odiar menos a escolha incerta se o beijo fosse dado em paixões cinematográficas se a sala estivesse pronta para o tocar das valsas as sandálias amarradas para a conferência nas praças o tempo seria o das aves mágicas, libertárias, mas se a escolha é a palavra, a arte a invenção falsa, arbitrária, o que será do poeta nessa noite tempestuosa e calma?

 

Roberto Nicolato

sexta-feira, 5 de junho de 2015

ALUMBRAMENTO




Revelo esta paisagem,
a cachoeira de topázios imperiais,
onde se instala coração animal
que visita. Dono de trilhas.
A lua que mostro é uma rede
fiada de finos fios,
como um véu de noiva.
Revelo palmeiras, buritis.
Aqui, o Deus da Mata…
Ali, uma pequena cascata de
diamantes. Amantes, eu revelo
este sol (guia dos passos),
esta formação de carbonato.
Esta água, em que
desenhas - pedras primitivas.
O velho rio que renova.
E agiganta no teu corpo, ao banhar.
Eu revelo a cor marrom, amarela,
pedras que não medram.
Esse reino antigo.
O ouro que habita,
este chão de vespas.
Estes pássaros são seus
E estas nuvens arredias.
Eu revelo a natureza,
revolta deste rio…
para mergulharem, amantes,
teus corpos aderirem ao sal,
                 empedrarem.


Poema e foto: Roberto Nicolato