A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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domingo, 31 de agosto de 2014

DESPEDIDA



Desvio agora o olhar, e vejo que uma pequena legião desce os degraus das escadarias da velha igreja, guiada por um vulto de veste negra, acima dos demais na altura; de sorte que me certifico logo se tratar do pároco da aldeia, de feições um tanto sérias e princípios não menos conservadores. Lá de cima, o badalar do sino ganha uma nova melodia e um ritmo mais lento. A missa já havia acabado, e teria de encontrar uma desculpa aos meus pais para justificar a minha ausência. Mas naquele dia tudo era permitido, pois que era um dia de despedidas.
           Desço a montanha em disparada, voando para o abismo, as pernas destrambelhadas até parar lá embaixo, com o coração cuspido pela boca. Se era para enfrentar o pior, do que temer? Como disse, tinha por ocasião 12 anos de idade e estava para entrar na adolescência que, por sorte ou azar, seria vivida em grande parte no seminário, recluso junto com outros garotos, numa grande construção cercada por uma extensa mata. Devia dar graças a Deus pela possibilidade de estudar na companhia de filhos de famílias dotadas de um bom poder aquisitivo. Eles eram mandados para lá para ajudar na sua formação e eu para salvar a mim e a minha família de maiores desgraças.
(Do livro "A Caminhada ou O homem sem passado")

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Um poema para o blog teorias e prosas


OROBORO


“É preciso que se
Cumpra um círculo.
Que aberto vá  se fechar,
Que ao frio ao fogo aquece
Essa caminhada para
O fim do começo
Até o infinito.

É preciso que se liguem
 os pontos negros,
preencha o vazio.
Que ao sol se queima
Essa jornada ao deus
Ante o indefinido.

Um círculo que abre e fecha,
Como fases fugidias
De ondas que deixam e levam
Marfins, jóias falsas,
Arlequins flutuantes.
Que faz entrever o horizonte
O passado em brancas
Nuvens, como na fotografia.

Um círculo que se alastra.
Do tamanho apenas
Desta história,
No pretérito passado dos
Olhos vidrados.
Ao céu do Equador,
As luas de Orizon
Fervilham nas galáxias.
Em sinuosa alegoria,
Passam os pássaros de fogo.

É preciso que se cumpra,
Um  círculo que se abre
À memória do réptil ancestral.
Deixe entrevê-lo nas entranhas.
E se fechar ao mundo,
Que é seu próprio universo,
Como o oroboro,  para que
Nada chegue ao fim.

Um círculo que arde em fogo.
É preciso que se cumpra
Um círculo, que aberto
  se fechar,
Que frio ao fogo será lançado,
Para que queime e eternize,
Nas vagas refletidas,
A memória do tempo.
-- Um rosto apenas".

Poema inédito de Roberto Nicolato

sábado, 12 de outubro de 2013

Autoconhecimento e trabalho


“Nessa trilha,  juntam-se jornada de autoconhecimento e trabalho. A procura de uma compreensão mais profunda da existência e um mundo já dado como suportável. Calço sandálias confortáveis, seguindo o traçado do Rio Urubamba, entre cordilheiras e picos nevados. Talvez antes de mim, o Urubamba chegue por baixo, enredando-se aos pés das montanhas onde se encontra Machu Picchu — destino final desta viagem — até desaguar mais abaixo no Amazonas. Eu tomarei outro rumo, mais em direção ao alto das  montanhas, até alcançar a Porta do Sol, não sem antes beijar os céus numa altitude de 4,2 mil metros. Imagino que tudo não passe de um sonho”.                                             (Foto: Roberto Nicolato)


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Prefácio do livro "A caminhada ou O homem sem passado"







                               Um cara que sabe pouco de si




Às folhas tantas de A caminhada ou O homem sem passado, o narrador da história – cuja identidade custa a sair de dentro do bolo – avisa "não saber quem é". Conta isso com a maior pinta de desmemoriado, só que não. Pois é. Informação dada, impossível não roer as unhas e pedir trégua para tomar um ar. Dá nos nervos. Então é esse o pacto? – um protagonista que não podemos ter na palma da mão. Um baque.
Mas a canelada do autor faz um bem danado. O narrador nos priva do consolo das certezas, não sabe quem é, mas tampouco nós sabemos quem somos. Machuca um bocado ter de admitir isso, em especial para aqueles que já acumulam uns cabelos brancos nas têmporas, dor nas costas ocasionais e se acham na obrigação de arrotar alguma sabedoria.
Tudo fingimento. A vida é uma fantasia que a gente inventa, disse outro dia o poeta Ferreira Gullar. “De verdade” mesmo, só as joanetes. Somos ilustres estranhos e os anos vividos só fazem confirmar que somos uma tentativa frustrada de projeto positivista. Um mistério. E é para essa zona escura que Roberto Nicolato nos carrega, fazendo uso de uma das mais fascinantes formas de literatura – o romance de viagem. Ele nos oferece um passaporte – mas um passaporte para se perder, como no melhor das ficções de E.M. Forster e Paul Bowles.
Confesso que estranhei encontrar personagem tão etéreo – e entendo que a estranheza estava programada, feito taxa de luz que cai na conta corrente. Mas não estranhei que o autor Roberto Nicolato tenha criado alguém assim, ao vento. Para Nico, como é chamado pelos mais próximos, a tríade erotismo, exotismo, esoterismo é pura racionalidade. O extraordinário faz para ele o maior sentido. Quando viaja – nas palavras ou pelas estradas – nunca visita bocejantes cartões-postais. Antes, abre portas secretas, lê inscrições obtusas, puxa papo com seres chapados – essas figuras de Goya que passeiam pelas paisagens sem que prestemos atenção.
Nico jura que seu escrito não é autobiográfico, mas há tanto dele impresso em cada capítulo que já penso em convidá-lo em ser meu guia pela Bolívia – terreno da maior parte da trama. O problema vai ser voltar para casa impunemente. Impossível não passear por essas linhas sem deixar algum pedaço da gente enterrado nas margens do Titicaca.
“À guisa” de apresentação, o tal do protagonista é um homem atordoado pelas lembranças que lhe fogem. Segue pelo interior do Brasil, até chegar à Bolívia. Lá, embrenha-se pela mítica Tiahuanaco, um desses endereços da cultura Pré-Colombiana que, por pura preguiça, insistimos em ignorar. No caminho encontra figuras insólitas, cuja veracidade têm o status dos discos voadores. Não sabemos se são os deuses astronautas, holografias, partes de um sonho provocados por uma feijoada pesada demais. Tem-se a impressão de que lá pelas tantas o narrador vai acorda e se espreguiçar, comprar pão e revelar que caímos numa pegadinha.
Não é o que acontece, garanto. Roberto Nicolato está aqui não para enredar, mas para esgarçar o sentido da palavra viagem. Teve trabalho: cruza abismos da ficção e da imaginação, às vezes na pontinha dos pés. Nos mete medo. Por tabela, nos dá prazer. Não poderia fazer diferentes nesses anos do estranhíssimo século 21. Ao tratar de uma viagem, não teria como fazê-lo com tintas leves. Nem como nos levar a um lugar óbvio. Antes, a vertigem.
Nosso viajante não quer a Velha Europa e seus castelos, ou algum resort. Quer a Atlântida perdida. Quer o Centro da Terra. Quer ir a 1,5 mil anos antes de Cristo com uma passagem barata. Não procura a viagem tola do sexo casual, mas vai às últimas instâncias do afeto como ilusão, com folga o mais emocionante e o mais praticado. Tira de um roçar de mãos o big-bang. Mais. Não faz do inconsciente um conceito para o qual estamos adestrados, mas a maior e a mais perigosa das odisseias.
Com perdão ao uso de uma ideia amarelada à exaustão, como diria o formalista russo Victor Shklovsky – a vida é sonho, sem nata, sem valsa. Se não assumirmos essa contingência da natureza humana, não há milhagem que nos tire do lugar. Os sonhos nos ensinam que os personagens mais incríveis são aqueles que se impõem, sem que saibamos de onde vieram. Mostram que perdemos o passado a cada minuto, mas que vivemos às voltas com ele, atrás da chave que nos trará de volta ao ponto. Quanto aos fantasmas, quem não os vê? Viajamos atrás deles para conseguir voltar para casa. É disso que nos fala Nico e seu incrível narrador, um cara que por sorte sabe pouco de si.

José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário
(Fonte Tombomachay, no Peru - Foto: Roberto Nicolato)