A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
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sexta-feira, 5 de junho de 2015




RASTROS


Meus olhos choram. No azul da serra,
o mundo  curva-se, vai embora...
Amordaçado vivo essa insânia,
Rastejando o corpo desnudo nas ervas.
Levanto o meu grito, atingindo-o.
Fizeram-me da terra estrumada,
Conduzindo  boiadas,
Abrindo porteiras.
Ao carreto de latas d’água; o corpo torto.
Vivi a aurora como brisa,
toquei as folhas, os corpos, a fome.
Fizeram-me a tuas maneiras,  
Pescando nas represas – argila
No pensamento, barro na cabeça.
Fizeram-me menino trancado e risonho,
enrubescido em casos de gente grande.
Levando poeira dentro peito;
O coração ferido a ponta de faca.
Fizeram-me num mundo extenso,
quadrado, sem brinquedos;
Sentindo a chuva, meus monstros.
Fizeram-me sereno diante das coisas,
a observar a lua branca por estreitos
caminhos que hoje figuram na imaginação.
Fizeram-me com pés em espinhos, matas virgens.
Animal a farejar o sonho...
O trágico. A partir e seguir rastros...


domingo, 31 de agosto de 2014

IBITIPOCA




Esta paisagem singular
Deixou um rastro de vida
Flor que é saudade,
Cristais nos olhos,
Veredas que a tudo anima.

Ali, ao batismo da
                         água pura.
Na irmandade dos peixes
O corpo sereno na correnteza.
                           seguiu
A alma insaciável na
                        paz dos dias.

Nesta natureza que é templo.
Onde Narciso dá de comer
                        aos lobos.
Onde a flor dos manacás
                        se oferece.
Ali verti os ares como o
                   grande pássaro
A tudo que nascia.
Bromélias na árvore seca.
Amores imperfeitos em
                 trilhas infindas.
Eu que  aos mares viajei.
Que nas cidades vivi o
                 inferno dos dias.
Branca lua saudou-me,
E o rio como um vulto,
                 que insinua.

Na cachoeira, como turbilhão,
Lágrimas verteram,
Banharam as aves
Inclinadas ao vento.
A saudade abriu-se em flor.
O mundo em mistérios.
E, assim, atravessamos a
Branca estrada de quartzos.
Milhões de pequenas pedras.
Retangulares, redondas...
Em teus olhos refletiam
Só a lua, agora,
Em nossa companhia.
(Poema e foto de Roberto Nicolato)