A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

UM ROSTO APENAS



Na rua trafegam:
Ônibus resoluto,
Máscaras bêbadas,
Em rostos pueris.

A viagem ensaia
uma cantiga
no cimento fosco.

Olho no teu olho
sorriso fácil
Apagando imagens:
Recordações vis

Danço solto
No pó do asfalto.
Entre raps, rocks
E bolhas de sabão.
Viagem que não faço
Na condução em
Que  trafega, um aceno,
Que eu sei, não verei mais.

Desconheço teu endereço
Deixo nas engrenagens
Amarguras, lassidão.

Estou a esperar-te
Em direções opostas.
Enquanto cruzam
artérias,
esse ônibus
vermelho
aflito.


Na memória
Restou  um olhar, 
fotografado,
um rosto,
esquecido.

A condução contorce,
E o mundo se revela,
como tudo em volta.
O ar gélido
Reproduz formas
na janela.
O silêncio reina.
E Curitiba se faz real,
Aos meus olhos,
nessa tarde molhada.

(Roberto Nicolato)
          


sábado, 4 de outubro de 2014

MURILO MENDES, UM POETA TRANSGRESSOR

         
          Recentemente visitei, em Juiz de Fora (MG), o Museu de Arte Murilo Mendes, que abriga obras do poeta mineiro, em diferentes edições, objetos pessoais, estudos críticos sobre o autor e a coleção de arte valiosa que a ele pertenceu . O prédio, onde funcionava a Reitoria da Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição onde cursei Jornalismo, já algum tempo está sendo utilizado,  para guardar e divulgar o  legado do escritor. Um espaço digno da grandiosidade da obra de Murilo Mendes,  considerado um dos maiores poetas brasileiros. Da outra vez que fui ao Museu, ele ficava num a casa histórica, mas acanhada e sem condições para continuar abrigando o acervo.
        No ano em que se comemora 20 anos de criação do museu,  uma série de eventos está sendo realizada para homenagear o escritor mineiro. Confesso que conheci a poesia de Murilo tardiamente. Se Drummond foi meu poeta da juventude, o poeta de Juiz de Fora foi o da maturidade, com um dicção mais cosmopolita e visionária. Portanto, não pestanejei quando tive a oportunidade de escrever um artigo sobre meu poeta conterrâneo, um dos meus favoritos, num das disciplinas do mestrado em Estudos Literárias na UFPR. Uma cópia eu deixei no Museu, numa pasta onde há outros textos não publicados sobre o autor. Mas ele pode ser visto na internet. É só acessar link abaixo:
http://pt.slideshare.net/nicolato77/murilo-mendes-25362064
(Foto: acervo MAMM)

sábado, 20 de setembro de 2014


INSIGHTS

I
Assim meu coração deu
Asas à razão.
Só para confundir…
Só para amolar.
Amores. Vagas estações
No brilho dos olhos
De ressaca de Capitu.

      II
Paisagem interiorana:
Homens na calçada.
Mulheres dançam
Ao redor do fogo...
É noite!
Estrelas caem do céu
Clara noite no sertão.
Guimarães trouxe a viola,
Zé Beto, os causos,
Diadorim amor pra mim.
Riobaldo, meu brother,
Companheiro de quarto.
   
      III
Quem, com teus olhos,
desenhou o vôo do pássaro,
o passo lento, a despedida?

      IV
Hoje toquei teu ser
ávido de ternura.
Serra de límpido azul.
Porque do coração é esta
A mais  pura natureza:
Seus olhos ingênuos,
Flor do pântano
De múltiplas incertezas.
E que guardo,
Como o anjo bom,
da serpente da dúvida.
     
      V
A verdade nos sonhos
é o que procuro.
Em ritmos velozes,
coração que se atrapalha.
Beleza que se fez
ninho para o pássaro
da mais pura alegria.

domingo, 31 de agosto de 2014

IBITIPOCA




Esta paisagem singular
Deixou um rastro de vida
Flor que é saudade,
Cristais nos olhos,
Veredas que a tudo anima.

Ali, ao batismo da
                         água pura.
Na irmandade dos peixes
O corpo sereno na correnteza.
                           seguiu
A alma insaciável na
                        paz dos dias.

Nesta natureza que é templo.
Onde Narciso dá de comer
                        aos lobos.
Onde a flor dos manacás
                        se oferece.
Ali verti os ares como o
                   grande pássaro
A tudo que nascia.
Bromélias na árvore seca.
Amores imperfeitos em
                 trilhas infindas.
Eu que  aos mares viajei.
Que nas cidades vivi o
                 inferno dos dias.
Branca lua saudou-me,
E o rio como um vulto,
                 que insinua.

Na cachoeira, como turbilhão,
Lágrimas verteram,
Banharam as aves
Inclinadas ao vento.
A saudade abriu-se em flor.
O mundo em mistérios.
E, assim, atravessamos a
Branca estrada de quartzos.
Milhões de pequenas pedras.
Retangulares, redondas...
Em teus olhos refletiam
Só a lua, agora,
Em nossa companhia.
(Poema e foto de Roberto Nicolato)

DESPEDIDA



Desvio agora o olhar, e vejo que uma pequena legião desce os degraus das escadarias da velha igreja, guiada por um vulto de veste negra, acima dos demais na altura; de sorte que me certifico logo se tratar do pároco da aldeia, de feições um tanto sérias e princípios não menos conservadores. Lá de cima, o badalar do sino ganha uma nova melodia e um ritmo mais lento. A missa já havia acabado, e teria de encontrar uma desculpa aos meus pais para justificar a minha ausência. Mas naquele dia tudo era permitido, pois que era um dia de despedidas.
           Desço a montanha em disparada, voando para o abismo, as pernas destrambelhadas até parar lá embaixo, com o coração cuspido pela boca. Se era para enfrentar o pior, do que temer? Como disse, tinha por ocasião 12 anos de idade e estava para entrar na adolescência que, por sorte ou azar, seria vivida em grande parte no seminário, recluso junto com outros garotos, numa grande construção cercada por uma extensa mata. Devia dar graças a Deus pela possibilidade de estudar na companhia de filhos de famílias dotadas de um bom poder aquisitivo. Eles eram mandados para lá para ajudar na sua formação e eu para salvar a mim e a minha família de maiores desgraças.
(Do livro "A Caminhada ou O homem sem passado")

quinta-feira, 28 de agosto de 2014



DISTÂNCIA

Há um canto do quarto
para onde convergem
angústias e pegadas
do que não fomos.

Um fio de lã das
cobertas vermelhas;
resto de batom
no chão negro.

É como se nesse
espaço habitassem
todos os beijos e
carícias não dados:
Gemidos de uma
noite perdida.

Esquecido neste
canto esconde-se
velha garrafa,
licor ardente,
de bruxa,
quente como língua
-- agora e sempre
       longe dos olhos.

(Poema de autoria 
de Roberto Nicolato)

sábado, 9 de agosto de 2014

UM CONTO


                  Suzy

    Roberto Nicolato

Suzy deixou a caixa de papelão num canto do passeio, caminhou lentamente, esperou, um carro zuniu em disparada, olhou para os dois lados da rua e, cambaleante das pernas, tentou a travessia. Parte dos pelos havia caído, as manchas escuras abriam-se em feridas, as orelhinhas murchas. Estava acostumada a transpor a rua larga e movimentada. Mas agora era diferente. O outro lado parecia mais distante, quase indefinido. Sentia o respirar ofegante e a vista tomada pela catarata.
 Velha já ficara e cheia de doenças. Ninguém a olhar por ela, sempre tendo que vencer sozinha na vida. Mais um carro passou como um raio, outros vieram em seguida, ainda bem que Suzy ouvia direito e, assim, pôde esperar o momento certo para atravessar. Vislumbrava do outro lado algo apetitoso, colorido e com cheiro bom. Tinha que atravessar para pegar a comida, antes que outro cão a farejasse.
Com esforço, Suzy levantou uma das orelhas murchas, o rabo alongou-se e foi decidida, confiante; esboçou um zigue-zague atrapalhado, um automóvel freou em cima, deu um gemido, apenas um susto, e, com esforço e sorte, conseguiu atingir o outro lado da rua; em pouco tempo carregava, tentando esconder entre os dentes, o merecido  objeto de desejo.
O velho a observava da janela de seu apartamento. Vivia solitário. Julgou-se igual a ela. Acompanhava o drama de Suzy e sabia que ela não se contentava em permanecer em apenas uma das margens. Ainda mais que o mundo era vasto, vastíssimo, sem paredes.
Testemunhou as fases da vida de Suzy, desde que ela nascera; um filhote muito vivo, a saltitar pela grama,. Os dentes fininhos mordiam em tudo. Ninguém quis adotá-la. Assim foi criada na rua. Com as sobras. Só água à vontade. Além de um abrigo improvisado, feito com caixa de papelão, e o velho cobertor na calçada para se defender do frio. Suzy, no fundo, sabia se virar, pois que a ela foi dada a inteligência dos vira-latas.
 O velho agora a observá-la debaixo da marquise, deitada, lambendo as feridas. O tempo havia passado rápido demais. A cadela chegara aos quinze, ele de tudo lembrara, ainda mais agora, quando os dias se resumiam aos cômodos do apartamento, com o pijama de sempre, sem uma companheira que fosse para cobrir-lhe as pernas no frio, dar os remédios na hora certa, fazer o café.
Tinha casado sim. Tivera por muito tempo uma vida normal. Diria feliz. Até que a esposa caiu doente e foi primeiro. Não esperava. Os filhos já haviam saído de casa, cada um morando numa cidade diferente e ele preferiu ficar ali, se dizendo forte, dono do seu próprio nariz porque não queria viver na dependência de ninguém. Enfim, as visitas eram bem vindas no período das férias.
Vivia o tempo todo trancado dentro de casa e ainda bem que podia pagar a empregada. De tal maneira que lhe sobrava muito tempo para se assuntar do nada, para observar o movimento da rua, as mudanças de estação e o ser vivente que com ele comungava. Suzi atravessando o asfalto a desviar dos carros, de sem-vergonhice com os cachorros do bairro, pedindo comida aos transeuntes, acompanhando um rapaz até o ponto de ônibus, atrás dos passarinhos.
Notou, no entanto, que ultimamente Suzy andava sem rumo, o rabo entre as pernas, fazendo um esforço danado para não permanecer no mesmo lugar. Do mesmo modo, ele também sem ter para onde ir, confinado com um boi a espera do desfecho final, sentindo frio nos ossos, as pernas doídas pelo reumatismo.
Melhor se a cadela morresse logo, do que viver naquela agonia, condoeu-se o velho ao avistar Suzy, do outro lado da rua, agora tremendo de frio, encolhendo-se toda no seu mundo de dor. Sentiu piedade. Lembrou de tomar os remédios. Escolheu uma das caixinha, dentro de uma caixa maior. E enfiou na boca três comprimidos. Tudo rápido demais, sem qualquer pensar.
A tarde caiu, o nevoeiro tomou conta de tudo. O velho voltou à janela, de frente pra rua. Suzy apareceu, como uma mancha escura, não se via mais a caixa de papelão e, aos poucos, foi-lhe sumindo da vista. Na rua, tomada pela cerração, reinava a luz dos faróis, impressionistas, dos postes de iluminação pública.  Pensou: ela deve estar no mesmo lugar, desvalida, pedindo socorro. Não esboçou qualquer reação, pois que era tarde para enfrentar o frio cortante lá fora.  No fundo, achou que fosse melhor assim.  A empregada já tinha se despedido  e não tardou pra que ele pegasse no sono.
Num só instante, Suzy corria desvairada pelo apartamento; dona de tudo subia nos móveis da sala, lambia-lhe os braços, afoita.  Com o fôlego de atleta, as mãos ágeis, ele afagou a cabeça, as orelhinhas marrons. Olhou pela janela, uma estrela desceu em disparada. Duas pequenas esferas brilharam. E sonhou com caçadas na mata, brincadeiras na praia, Suzy agora feliz, o pelo sedoso contra o vento.