A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
domingo, 13 de setembro de 2015
A ESCOLHA
Se esta bola que atravessa a rede pudesse parar se os olhares pudessem recuperar a atenção desviada a caminhada retroceder os passos talvez se pudesse enxergar que nada seguirá o próprio destino se o artilheiro amasse de verdade a bola sobre os pés se a criança tropeçasse no brinquedo que cativa o animal não farejasse mistérios talvez se pudesse amar mais e odiar menos a escolha incerta se o beijo fosse dado em paixões cinematográficas se a sala estivesse pronta para o tocar das valsas as sandálias amarradas para a conferência nas praças o tempo seria o das aves mágicas, libertárias, mas se a escolha é a palavra, a arte a invenção falsa, arbitrária, o que será do poeta nessa noite tempestuosa e calma?
Roberto Nicolato
domingo, 2 de agosto de 2015
Novo romance de Roberto Nicolato
Em fase final o meu segundo romance, "Do outro lado da rua", a ser lançado em breve pela Kotter Editorial, sob o comandado do editor Sálvio Nienkotter. A capa do livro já está pronta e ficou bem sugestiva, como podem ver abaixo.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
ALUMBRAMENTO
Revelo esta paisagem,
a cachoeira de topázios imperiais,
onde se instala coração animal
que visita. Dono de trilhas.
A lua que mostro é uma rede
fiada de finos fios,
como um véu de noiva.
Revelo palmeiras, buritis.
Aqui, o Deus da Mata…
Ali, uma pequena cascata de
diamantes. Amantes, eu revelo
este sol (guia dos passos),
esta formação de carbonato.
Esta água, em que
desenhas - pedras primitivas.
O velho rio que renova.
E agiganta no teu corpo, ao banhar.
Eu revelo a cor marrom, amarela,
pedras que não medram.
Esse reino antigo.
O ouro que habita,
este chão de vespas.
Estes pássaros são seus
E estas nuvens arredias.
Eu revelo a natureza,
revolta deste rio…
para mergulharem, amantes,
teus corpos aderirem ao sal,
empedrarem.
Poema e foto: Roberto Nicolato
RASTROS
Meus
olhos choram. No azul da serra,
o
mundo curva-se, vai embora...
Amordaçado
vivo essa insânia,
Rastejando
o corpo desnudo nas ervas.
Levanto
o meu grito, atingindo-o.
Fizeram-me
da terra estrumada,
Conduzindo boiadas,
Abrindo
porteiras.
Ao
carreto de latas d’água; o corpo torto.
Vivi
a aurora como brisa,
toquei
as folhas, os corpos, a fome.
Fizeram-me
a tuas maneiras,
Pescando
nas represas – argila
No
pensamento, barro na cabeça.
Fizeram-me
menino trancado e risonho,
enrubescido
em casos de gente grande.
Levando
poeira dentro peito;
O coração
ferido a ponta de faca.
Fizeram-me
num mundo extenso,
quadrado,
sem brinquedos;
Sentindo
a chuva, meus monstros.
Fizeram-me
sereno diante das coisas,
a
observar a lua branca por estreitos
caminhos
que hoje figuram na imaginação.
Fizeram-me
com pés em espinhos, matas virgens.
Animal
a farejar o sonho...
O
trágico. A partir e seguir rastros...
sexta-feira, 10 de abril de 2015
MÍNIMAS
A poesia me ensina:
Amar alucina
essa assaz sina
Longa noite esperei
para lançar feitiços
com dedos de piche
Gaiola vazia. Pássaro voa
sem direção para comer
migalhas de pão.
O que me arruina em silêncio?
A ilusão desse
corpo solto
ao sabor dos ventos?
Úmidos quintais.
Construção de fumaça
É natural...
Que o dia se faça!
Quem, com teus olhos,
desenhaste o vôo do pássaro,
o passo lento,
a despedida?
(Poema e foto: Roberto Nicolato)
sábado, 14 de março de 2015
CANTOS DO
MAR
Eu que me abstraio
Água forte, derradeira,
Apressa e retorna
Agora esperada,
Para os meus pés
Acordarem.
O mar é o limite
Do que observo
Sei, há mais pra lá
Um vasto caminho
Que me esqueço
Que de cá posso
Pedir socorro e
Por todos não
Ser ouvido.
Se bem-te-vi
Teve a sonhar
Peixes voadores
Cortaram o céu.
Repousava olhos
No mar. Depois
A escuridão,
Centelhas de vidas
Tudo, inteiro ao
Seu dispor,
Antes que fosse
Tarde demais.
Pelo prazer de voar que sigo nos céus por uma
temporada e que em seus olhos parece pura eternidade.
Pelo prazer das correntes que navego em busca do peixe
que voa pela noite em que seu brilho traça caminhos no mar.
(Roberto Nicolato: Poema e foto (Litoral do Paraná)
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