“Era Lídia quem eu mais
queria naquele momento, diante do fogo, em meio ao ensaiar de passos e de uma
cantoria sem fim. As valas profundas, abertas, recebiam comidas e bebidas,
destinadas à deusa, para que assim ela pudesse atender aos pedidos. Chamei
Lídia em voz alta, gritei o mais que pude, até que seu corpo surgiu à minha
frente e maliciosamente me convidou a trilhar uma estrada estreita de boa
terra, de onde avistei casas esparsas, rodeadas de bambuzais e bananeiras, e lá
longe, mais à frente, uma montanha lilás, banhada pela luz do sol. As árvores
foram aos poucos se afastando e, à medida em que avançávamos, o grande paredão
de formas sinuosas trouxe aos pés uma igrejinha em estilo gótico, cercada por
um casarão...” (Trecho do livro "A caminhada ou O homem sem passado" - Foto de Roberto Nicolato)
A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
DESPEDIDA
Adeus ilusões perdidas,
dores desavisadas,
abrigos imemoriais.
Capim de ribanceiras.
Beijos roubados.
Minha sorte viaja de trem.
Adeus estações veladas
à distância, construções
de fumaça. Muros e bananeiras.
Destino incerto à beira
da estrada. Dormentes marrons.
Adeus canções do mato, louva-a-deus.
Sol de todos os amores,
Cachoeiras que guardam segredos.
Arroubos de sonhos.
Meus passos seguirão ocultos,
na obscuridade dos mundos.
Estarei vagando por caminhos,
Como um lobo solitário.
Adeus bando de tanajuras,
mariposas, libélulas.
Benção dos rios, para sempre
minha sorte estará perdida.
Meus sonhos me ultrapassarão.
Trem dos desejos imediatos,
velha construção que balança.
Adeus bancos da praça,
Políticos desavergonhados,
alcoviteiras de plantão,
amores que não provei.
Dores que não amei.
Adeus querubins do mato,
tronco de angico, peixe desavisado.
Muros que não fecharam a vida,
estendida para a aventura, doce
morada de frutas suculentas, amadas.
Adeus fantasmas de beira de estrada,
segredos que a noite esconde
e finge que os mostra nas crendices.
Adeus imagens perdidas na memória
Coração desnudado, de outros sonhos,
Trem que parte lento na imaginação...
Poema e foto de Roberto Nicolato
domingo, 26 de janeiro de 2014
DOIS POEMAS
TEIA
Nesse espaço,
um facho de luz
se
instaura
e para sempre
revela:
Loxosceles
teia rendida
espaço em
que miras:
vespas noturnas,
coração de
náufrago.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
RESENHA
Jack London, um caçador
de aventuras
Roberto Nicolato
O escritor norte-americano Jack London é um
narrador de aventuras, um explorador da alma humana e das relações sociais. Ler
o Lobo do Mar, publicado
originalmente em 1904 e lançado
recentemente pela Zahar Editora, é
embarcar numa viagem a um mundo insólito e cruel, capitaneado pelo poderoso e
inescrupuloso Wolf Larsen, personagem que leva a cabo, e à sua maneira, as
teorias darwinianas da evolução das espécies para justificar as suas atitudes
amorais e cruéis no comando de uma embarcação rumo à caça de focas no mar do
Japão.
A história começa em São Francisco, nos Estados
Unidos, quando o narrador da história, o crítico de literatura, Humphrey van
Weyden, sofre um naufrágio no barco em que utilizava para visitar o seu amigo
do outro lado da baía. Após o
incidente, Weyden é salvo pelo
capitão Larsen, e, ao contrário do que imaginava - a esperança de que seria deixado em terra firme -, logo se
vê forçado a integrar a tripulação
do navio.
De intelectual e cavalheiro almofadinha, sem
nunca ter tido contato com qualquer esforço físico, o narrador é nomeado por
Larsen na modesta função de camaroteiro do veleiro Ghost. Um pesadelo para Weyden, a começar pelas constantes
humilhações que tem que enfrentar, vindas do cozinheiro rabugento e mesquinho
Mugridge, das tempestades em alto mar e das atrocidades cometidas por Larsen
contra aqueles que ousassem descumprir suas ordens.
Com o passar do tempo, Weyden chega à funcão de
imediato e toma consciência de que
não há como fugir do julgo do capitão, com o qual passa a discutir filosofias,
pois que os instintos primitivos daquele não o impediam de estar na constante
presença dos livros. Na realidade, Larsen é tido como um darwnista de
carteirinha e acredita que, independente da moral e da civilidade, a exemplo do
mundo animal, o que deve prevalecer nas relações humanas é sempre a lei do mais
forte.
O universo opressor em alto mar e a ascendência
de Larsen sobre a tripulação do Ghost
acaba, aos poucos, por enfraquecer os desejos de revolta de Weyden que vê no
capitão a imagem do homem forte, belo e destemido, embora não menos cruel e
ameaçador. Essa resignação, no entanto, toma outro rumo na medida em que London
insere na narrativa a delicada Maud Brewster, escritora que também é salva de
um naufrágio. A figura feminina, em contraste com o primitivo Larsen, será
responsável pela guinada de rumo na narrativa de Jack e na própria disposição
do narrador, por quem se apaixona.
Como bom jornalista, London pesquisou muito
antes de escrever O lobo do Mar. Sabe-se que Larsen foi
inspirado na lenda criada em torno do capitão Alexander MacLean, que também
caçava focas. O próprio London fizera uma viagem ao Japão em 1893, no Sophie Sutherland, onde alternava o
trabalho pesado com as leituras de Moby
Dick, de Melville, obra que está na fundação do romance moderno. Na
verdade, muitos de seus livros são pautados pela experiência pessoal e para
quem a vida tinha sido marcada por intensas aventuras.
Logo de saída, O Lobo do mar tornou-se grande sucesso comercial: em dez dias
esgotou-se a tiragem de 40 mil exemplares. Antes dessa obra-prima, o autor
havia publicado O chamado selvagem,
retratando o inesquecível cão Buck, e cuja obra também colocava em discussão os
binômios natureza e cultura e civilização e barbárie, enfim de como é
necessário o refreamento dos instintos humanos para que prevaleça o devido e
harmonioso convívio social. Nesse sentido, Freud estava coberto de razão.
O Lobo do Mar, de Jack London
Tradução de Daniel Galera
Zahar Editora – 367 págs.
domingo, 12 de janeiro de 2014
MEMÓRIA LITERÁRIA
Uma voz do modernismo
paranaense
O escritor paranaense Newton Sampaio, que morreu aos
24 anos, influenciou obra de Dalton Trevisan
Roberto Nicolato
A chegada do modernismo às letras paranaenses tem como
marco a geração de escritores e críticos da Revista
Joaquim, editada por Dalton Trevisan, na década de 40. Poucos sabem, no
entanto, que antes mesmo dessa revolução ainda que tardia na pasmaceira local,
um jovem contista já mexia com os ânimos da província.
Tratava-se de Newton Sampaio, tido como o primeiro
contista de vocação modernista do estado, mas que apesar do talento não teve
tempo de amadurecer seu projeto literário. Morreu em 1938, com apenas 24 anos
de idade e sua história foi mantida em absoluto silêncio.
Parte da obra de Newton Sampaio ressurgiu já algum
tempo numa edição lançada pela Imprensa Oficial do Paraná. Contos Reunidos traziam os dois livros de contos do autor
publicados pelos amigos após a sua morte: Irmandade
(1938) e Contos do Sertão Paranaense (1939).
Outro livro também lançado pela Imprensa Oficial foi
Remorso, em 2002.
Apesar do primeiro ter sido reeditado em 1978 pela
Fundação Cultural de Curitiba, a obra e nome de Newton Sampaio estão
injustamente esquecidos e fora do alcance dos leitores.
Newton Sampaio nasceu e viveu na cidade de Tomazina,
interior do estado, até completar 13 anos, momento em que se muda para
Curitiba. Na capital, inicia o curso de Medicina e passa a escrever em jornais,
principalmente no extinto O Dia.
Em 1934, vai ao Rio de Janeiro, onde dá prosseguimento
aos estudos e ganha a vida lecionando, além de publicar contos, crônicas,
ensaios e críticas na imprensa fluminense, sobretudo em O Diário de Notícias. 1937
é o ano em que se formaria médico, retornando a Curitiba devido a problemas de saúde.
No ano seguinte, iria morrer tuberculoso.
Newton Sampaio foi influenciado pela linguagem ágil e
contida do modernista Antônio de Alcântara Machado. Avesso ao lirismo, o escritor vai se utilizar da ironia para
retratar o universo provinciano, o que o torna, tanto pela temática quanto pela
contenção, uma espécie de precurssor do contista Dalton Trevisan.
Em sua obra, a palavra surge como potência, carregada
de significados no mais alto grau possível, conforme a definição de literatura
dada poeta Ezra Pound. Exímio contador de histórias, Sampaio oferece um
discurso convincente e faz das pequenas cenas e mazelas do cotidiano um farto
material para um tipo de literatura que seria propositalmente relegada a várias
décadas de esquecimento.
A vida pequena da província, os desejos sexuais
reprimidos e a solidão aparecem sem disfarces num discurso convincente e
desprovido de qualquer transbordamento retórico. Em "Castigo" é o pai
que num pesadelo sente desejos pela filha; já em "Tragédia das Mãos"
o clima opressivo se traduz nos delírios de uma moça mau comportada num colégio
de freiras.
À semelhança das gravuras noturnas de Osvaldo Goeldi,
em "Tríptico" a melancolia é um grito de morte "do homem mais
triste, mais miúdo e abandonado do mundo", que tem como única companhia a
luz do cais que vai se apagando lentamente.
Sobre a obra de Newton Sampaio escreveu Dalton
Trevisan em 1947 um breve comentário que está na orelha de Contos Reunidos. Começa assim: "O maior contista do Paraná foi
um moço chamado Newton Sampaio. Morreu aos 24 anos, num sanatório de
tuberculose, em 1938 e contra ninguém, neste Paraná, se fez tão grande guerra
em silêncio. É que teve, em vida, a coragem de rir dos tabus da província e
isso eles não perdoam quando o infiel cai...morto".
"A tormenta
se declarou como nunca, o mar invadiu o cais, a cerração domina a cidade, todos
os seres se recolheram ao abrigo mais próximo. Por isso não se apague,
lampadazinha, não se apague não. A montanha já desapareceu, a água também
perdeu a compostura, não sabe o que faz, sobe na terra, volta pro mar,
gesticula no ar, doidamente. Só a luzinha da fronteira não fugiu aos olhos do
homem. O homem não quer que ela apague, porque então seu desespero não terá
remédio. Luzinha, luzinha do poste carcomido! Vá resistindo, vá resistindo
sempre, sempre, sempre.(...)"
Reportagem publicada no
Jornal Gazeta do Povo em 2002
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
A AVE
(Para Baudelaire)
Atravessa o nevoeiro, estira-se ao sol
Para se aquecer aquela que um dia
Perdeu o dom de voar e, desajeitada,
Bate pesadas asas, aflita.
Repousa nas cordas da embarcação,
Flexionando o dorso nu, num rompante
De mistério, de tão apaixonada
Ela que ao léu estava, triste amante!
Voz fúnebre da noite fria
Agora contorce, volta-se ao mar
Se ergue, aflita, do açoite.
As ondas vão, voltam. Balanço das velas.
Esperou esse dia para mergulhar, a ave
Que agora brilha, e era o sonho do mal.
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