A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 Trilogia do amor, do homem e da natureza



Com o lançamento da coleção de poesias “Poemas de Terra e Mar” (Caravana Editorial), o jornalista e escritor, Roberto Nicolato, afirma ter cumprido um ciclo poético, iniciado em 2020, com o lançamento de “Pequeno Tratado do Amor e da Natureza” e, na sequência com a obra, intitulada “A noite sem tempo”, escrita e publicada naqueles tempos pandêmicos. Com a conclusão dessa trilogia, um dos mais talentosos poetas da contemporaneidade, confessa a sensação de ter “limpado as gavetas”, navegando por um manancial poético do tempo de agora e do passado, agora recuperado.

“As minhas três obras abarcam tempos variados, da adolescência à idade adulta, aos tempos atuais, nas principais circunstâncias históricas e pessoais em que estive envolvido”, resume o poeta.   O tempo que nos atravessa, continua, e como reagimos a ele traduz-se na matéria prima necessária ao fazer literário e comigo isso acontece naturalmente. Acho que, assim, pretendo conseguir conceber um caráter de verdade aos meus escritos. Matérias-primas do meu sentimento e da minha razão. Contemplação mística para um poeta hedonista, anárquico e até mesmo romântico. Para quem, um bom entendedor, “um símbolo basta”.

O três livros aqui apresentados não são sucedâneos um ao outro, mas os vejo em uma linha linear crescente, balizados por um determinado ponto de vista, em perspectiva, buscando conceituar o vivido, torná-lo matéria de poesia, com o que há de singelo, crítico e até anárquico. O primeiro livro de poesias “Pequeno Tratado do Amor e da Natureza” já trazia essas preocupações, já apontava para essas clarividências, em poemas não muito longos, mas em pura revelação da irmandade natural entre homem e natureza, esse templo de amor e contemplação.

A segunda coleção de poemas “A noite sem tempo” traz uma peculiaridade e, mais do que isso, traz a marca de um tempo assombroso. Boa parte dos poemas foram escritos durante a pandemia, outros foram trazidos à tona, guardados de gaveta, que ganharam vida nova por meio de um trabalho incansável com as palavras e sobre o que significam, representam. Do primeiro trabalho poético, carrega essa relação intrínseca com os elementos da natureza, mas alcança a universalidade ao ampliar o horizonte de preocupações, em poemas longos, muito além dos temas que afetam o cotidiano de sua aldeia. No mais, o livro atenta para a ameaça antidemocrática e surgimento do fascismo.

Nesses três livros de poemas, consubstanciam vertentes, olhares específicos, temas muito caros para serem mencionados, sob o entendimento perspicaz e singular do poeta. “A natureza como um templo” diria Baudelaire, onde residem mistérios. E a compreensão desse templo requer apenas a nudez dos pensamentos e da alma. Irmandade, contemplação e devoção. Da natureza. Do amor. Do homem. Como um tratado. Da natureza que molda o homem, aos seus caprichos, mas que também o liberta no seu infinito olhar. Da natureza que se faz oculta, clandestina. A natureza exuberante da Terra Brasilis.

Em toda a trilogia, há diversos poemas sobre a natureza. Fauna e flora na abundância, em movimento, estacionadas como o navio no fundo do mar. A natureza como protagonista dessa célebre festa para o olhar do poeta, imagens sinestésicas capazes de alumbrar os sentidos, irromper a dança da chuva. A natureza que em meus passos traduz-se em orações cadenciadas, ao passo ligeiro, modulado. Paisagem impressionista, iluminada ao sol do começo do fim da tarde. Cada palavra, um som. Cada rito uma imagem.

Esses livros compreendem, quem diria, cerca de cinquenta anos de poesia. É também uma antologia do muito que não foi publicado. Uma parcela não desprezível de textos que se mantiveram intocáveis, outros que exigiram adereços e um novo sentido e até aqueles em que restaram o espírito vivo de uma percepção, sentimento ou compreensão do mundo. Era preciso preservar à sua época, a essência, seja até por uma nova forma. A poesia me chega em ondas. Reflete o tempo e o lugar onde vivi. Tenho por conta. As influências momentâneas. Nela, pode haver o clamor da juventude anárquica, daquele que imagina ser um sujeito tímido, rebelde, avesso às convenções.

Trata-se do relato poético de uma existência, não diria atrativa, mas que se coloca desnuda frente ao universo com que ele tem de mais belo e ameaçador. Poemas desenhados no passado foram resgatados nas obras “Pequeno Tratado da Natureza”, “A Noite sem Tempo” e “Poemas de Terra e Mar”. Eles não sobreviveriam por si sós. Faltavam-lhe musculatura. Por isso, muitos ganharam novas versões e, o melhor, passaram a integrar um corpo poético, substancial, ao lado de outros de agora e mais maduros. Enfim, nesses se fundiram, ganharam unidade e compreensão do leitor do tempo e do espaço em que foram moldados. Assim, espera-se.

O mar e a montanha traduzem-se na espinha dorsal do meu fazer poético, dessa trilogia em que estão em evidência o amor, o homem e a natureza. Não nego a importante contribuição a essa produção a minha quase permanência, por um período de dez anos, no litoral paranaense, mais especificamente no Pontal do Paraná, de onde se avistava em minhas caminhadas a exuberância da Ilha do Mel. Ali, pude conectar ao presente o que havia ficado no passado, alheio às exigências da vida urbana e repleta de compromissos. Como num caleidoscópio, tentei criar uma profusão de ritmos e cores. Um exagero do belo.

Posso ter exagerado sim, com tintas um tanto fortes e, quem sabe, apelativa, sim, mas era pura intenção. Arroubos românticos de quem leu na adolescência a coleção em miniatura dos poetas brasileiros, da geração perdida, melancólica, do século 19. Ou então, no curso da vida acadêmica, apreciador de um estudo mais atinado dos simbolistas franceses. A temática do amor e da morte encontra-se muito presente nas três coleções e, principalmente, como testemunho de um tempo, como o obscuro período da pandemia de covid. Da morte onipresente, na elaboração do livro não se buscou a tragédia por isso só, mas a leveza e o apaziguamento, diante do caos e do horror,

“A noite sem tempo” é o título de um poema que dá nome ao meu segundo livro de poesias; no fundo uma toada antifascista a ser declamada na cadência de murros sobre a mesa, como uma prece, um aviso, um alerta. No mais, segue no signo da leveza, na minha eterna contemplação do que é de mais belo. Por que essa preocupação? Não me queira mal meu caro leitor, se me estendo em muitas palavras. Há sim um compromisso com a realidade fugaz e a concepção de um universo ao mesmo tempo perto e distante. Passível de ser contemplado, analisado e, porque não, representado e fixado no aqui e agora, pela contingência das palavras.

Agora, nesse meu “Poemas de Terra e Mar”, o poeta ressurge como um artífice, capaz de moldar um palavrório do que restou após a turbulência, de um voo raso e bastante profundo, o enfrentamento da tempestade. Restaram não apenas destroços de um tempo pandêmico, mas também um caudal de versos compostos, desenhados ao som das ondas, nas madrugadas, do período em que dividi morada, por cerca de dez anos, no litoral do Paraná. A visão do mar aberto, se estendendo na imensidão ficará na memória e nas páginas desse livro, o corpo seguindo debaixo de um céu azul ou ameaçador de uma natureza intocável.

“Anárquico, solitário, sem pousada. Farta-se de terra e mar”. O último livro da trilogia poética, reconecta o poeta de um passado em terras mineiras, nas montanhas, com a vivência vasta de um universo sem porteiras. De uma universalidade que encontra ressonância nos pequenos barcos e navios ao largo. Dos pássaros que cantarolam ao amanhecer às imagens que sobreviveram nas gavetas, que o poeta carregou consigo nas suas andanças, de um tempo jovem, quando era preciso certa dose de rebeldia em face de um universo e que sempre nos quer atento e, por isso, em completa e leve imersão.

Curitiba, primavera de 2025.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

sexta-feira, 12 de março de 2021

A CAPA FICOU ASSIM!



Este é um romance de geração, que se passa no final da década de 70. Será lançado no próximo dia 28, aqui no Instagram. Em breve, download gratuito.

Sinopse:

O último ano da universidade chegou e os estudantes Júlio, Anna e Gabriel sentem o peso da despedida.  Estamos no final dos anos 70 e o país vive momentos difíceis, devido à repressão e à censura. Para piorar, os estudantes se deparam com o estranho e enigmático desaparecimento de um amigo ativista. É tempo de grandes paixões, transgressões e companheirismo. Num velho casarão, eles decidem fazer um pacto: se encontrarem 20 anos depois, na passagem do milênio, na Praia de Copacabana. O reencontro é marcado não apenas pelo sentimento de amizade, mas também por ressentimentos e novas descobertas...

Terceiro romance do escritor mineiro Roberto Nicolato, radicado em Curitiba, Pacto traça o retrato de uma geração de jovens aguerridos e constitui-se num libelo em favor dos ideais de liberdade e democracia”.

Apresentação: Luiz Ruffato

Ilustrações: Robson Vilalba

Projeto Gráfico: Thapcom

O projeto está sendo realizado com recursos do Programa de Incentivo à cultural da Fundação Cultural de Curitiba e Ministério do Turismo, com apoio da Lei Aldir Blanc.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

DOIS NOVOS LIVROS A CAMINHO


 Apesar dos percalços, enfim boas notícias nesse final ano de 2020. Fui premiado no Concurso Outras Palavras e serei contemplado com a publicação do meu mais recente livro de poesias "A noite sem tempo".

Segue o texto de apresentação: "A obra conta com 41 poesias, abordando temáticas diversas, como o amor, a crítica social, o sentido da existência e a relação do homem com a natureza. A exemplo do seu último livro de poesias, em "A noite sem tempo", Nicolato revela mais uma vez a sua visão poética como processo de artesania na composição da linguagem, da palavra carregada com o maior grau possível de significados, como ensina Ezra Pound. Valoriza com frequência os prazeres da melopeia, ritmos e sonoridades nos versos, nos poemas curtos e longos, dialogando com o passado e a contemporaneidade e com os grandes nomes da poética nacional e internacional, por meio da intertextualidade e com a cultura no seu sentido mais amplo(...). Parabenizo a todos os colegas premiados!
Outra boa notícia: Em 2021 também estarei publicando em e-book, com apoio da Lei Aldir Blanc, o meu pequeno romance "Pacto", que se passa entre os anos de 1976 e 1979, durante a ditadura militar no Brasil.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Kotter Editorial publica livro de poesias de Roberto Nicolato

O leitor e a leitora têm em mãos um livro de um poeta que é, antes de mais nada, um artífice da palavra. Os poemas de Pequeno tratado do amor e da natureza apresentam de fato várias facetas de Roberto Nicolato sob o escopo da artesania poética, ou seja, sua poesia é práxis vital.  Nicolato transita entre versos livres, sonetos (alexandrinos, heroicos, sáficos) e demonstra um domínio de estilo que o leitor e leitora perceberão desde a primeira seção do livro: Do amor. Na segunda seção, Da natureza, alguns poemas nos remetem um Manoel de Barros e toda aquela atmosfera telúrica. Na terceira e última seção, Do homem, é a mais sinestésica, na qual nos deparamos com versos como “rastejando o corpo desnudo nas ervas. Levanto o meu grito, atingindo-o” Os poemas que ora compõem este volume do vate Nicolato são cristalinos no melhor sentido da palavra, pois fogem de quaisquer armadilhas herméticas. O autor valoriza com frequência os prazeres da melopeia com toda a cadência e musicalidade das quais é feita a poesia.  
Leitores e leitoras, sem mais delongas, contemplem a poesia pensada deste poeta visceral. 
Evoé! 
Daniel Osiecki, poeta
Outono 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

Poema Desejos é finalista do Prêmio Flip Off

A produção poética de Curitiba anda de vento em popa. Pelo menos, quatro poetas da cidade foram escolhidos como finalistas do Prêmio Flip Off, na categoria poesia. Yuri Amaury Pires Molinari arrebatou o segundo lugar, com  Os homens da minha família.   Os outros finalistas foram: João Victor Arcega Simino (I [am]azonia), Layla Gabriel de Oliveira (Como num truque de mágica) e Roberto Nicolato (Desejos). Além da premiação aos primeiros colocados, os demais finalistas também terão seus poemas reunidos numa coletânea a ser lançada na próxima Flip (Festa Literária de Parati), marcada para o final julho.

DESEJOS

Roberto Nicolato

O que arde em brasa, desaquece
Esquece, na fervura que as horas exalam.
Sê tudo, pois que tudo passa:
O abraço fortuito, o gesto inesperado,
O desejo incontido numa noite enganosa.
Não se prende o instante
A não ser no sopro fatal da ternura,
Numa oração ao vento
Do corpo móvel na brancura dos dias.
É que não existe estrada aos que se ajustam
Às metas, ao objetivo final da sorte.
É só um gozo alucinado para quem desperta.
Uma nuvem trovejante a quem se dobra.
Trejeitos! Sombra viva!
É o que és caminhante.
A lua te tem como única companhia,
Será cúmplice e não te roubará a sorte.
O sol aquece os teus pulmões.
Irrespiráveis, dilata seus olhos a sombra lancinante.
Redemoinhos lhe alcançam o corpo na orgia.
Esquece, pois que nada restará.
A não ser o suor de suas têmporas,
A vontade desacreditada dos girassóis.
Viva o tempo das andorinhas,
O cursar dos antílopes em retirada,
A fome dos lobos que sobrevivem no Saara.
O pouco que lhe é concedido...
Absorva como água na chuva.
Sobeja, delira, enlouqueça!
Há espaço no tempo que se move aflito.
Repare como as nuvens estão arredias!
Como esse coração pulsa sem que lhe dê cordas, desejos...
A vida do inseto invalida a permanência, de tão curta?
Vale para quem a executa.
Não tenha medo da dúvida,
Dos temporais, das formigas,
Do amor que a tudo devora
Pois que o instante não se fixa,
E Deus não escreve sua história na lama funda.
Com tintas escuras apenas lhe deu corpo e alma
E desejo para que cumpra a sua absurda aventura.



quarta-feira, 4 de março de 2020

A CAPA JÁ ESTÁ PRONTA

Em breve, lançamento do novo livro de Roberto Nicolato "Pequeno tratado do amor e da natureza" (poesias), pela editora Kotter Editorial.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

sexta-feira, 7 de junho de 2019

COPACABANA ME ENGANA



"E depois: “Que fim levou a Marcinha”, perguntou sem que os filhos ouvissem e a lembrança os levou ao Cine Drive In, nos anos 70, no Rio de Janeiro. “Lembra, passava Copacabana me Engana. Eu você, Elena e Marcinha, que era louquinha de tudo. Na volta, ela vinha imitando a Odete Lara, cantando "Baby" e “Try a little tenderness”, no fusquinha azul. Fiquei com a Marcinha naquela noite...”, disse Elias convencido e ciente de que agora era um homem de família, filiado 
a um partido e artista cooptado pelo Estado". 

Do romance "Havana me engana"

domingo, 2 de junho de 2019

DO OUTRO LADO DO CARIBE (André IV)


"Não havia mais o que perguntar. André deixou o local. Ela não o havia esperado o bastante, talvez nem o amasse tanto. Realmente, a vida naquela época não estava nada fácil para os cubanos.
Teria sido melhor assim, pois isentava-se do atroz sentimento de culpa. Chegou até o Malecon, observou o mar tranquilo, a vida que seguia sem pressa. Caminhou pela passarela, Havana era apenas uma cidade sem cor. Não havia mais o que buscar. Ela era outra, agora vivendo do outro lado do oceano. Se pelo menos,  estiver feliz..."

Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

terça-feira, 30 de abril de 2019

LEON NA SANTERIA (Leon IV)




"Seu corpo ganhava velocidade no compasso das palmas, dos atabaques e giravava feito um pião. Ele via Elena lhe acenando nua, ao longe. Os cabelos negros, os grandes olhos pedindo que ele fosse ao encontro dela. “Aqui é diferente, o mundo é suportável”, ela dizia e ele não conseguindo ultrapassar o fio de silêncio, o fosso invisível que os separava. Ela apoiava o corpo desnudo no cavalinho de um carroussel, ia e voltava, chegava perto e ele tentava em vão alcançá-la. Mas via a imagem de Anna, sorrindo irônica. “Não há resposta alguma, em nada”.

Do livro "Havana me engana?"
Fotos: Roberto Nicolato

quarta-feira, 17 de abril de 2019

ENCONTRO MARCADO (León IV)






"Leon dirigiu-se à varanda do Hotel Comodoro. O sol declinava no mar do Caribe, lá embaixo um cocotáxi dividia espaço com uma carruagem levando turistas. O Malecon formigava no fim de tarde. Da sacada, ele podia avistar o Hotel Nacional, o Meliá e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos,  tendo à frente as bandeirinhas negras tremulando. Observou os terraços dos prédios carcomidos na área central, pontuados por alguma parede esverdeada ou roupas estendidas nos varais. Um homem moveu-se rapidamente por um corredor e Leon se deu conta de que havia marcado de encontrar Anna e Giuliano. Antes, ia pegar  Elias e André no Centro das Artes".

Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato

HEMINGWAY, COLECIONADOR DE HISTÓRIAS (Giuliano IV)









"Giuliano se desvencilhou e lhe beijou suavemente a testa.  
-- Temos que ir – apressou. 
Dentro do táxi, Giuliano ainda vislumbrou o Pilar atracado num Galpão perto da piscina de Hemingway. Estava bem conservado e não era mais que uma relíquia de um colecionador de histórias e vidas. Dentro, o velho capitão dava repetidas baforadas no charuto. Percebeu Giuliano e, do convés, acenou, enquanto o Bel Air 1947 contornava as alamedas, deixando silenciosamente para traz a Finca Vigía". 

Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato