A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

domingo, 2 de junho de 2019

DO OUTRO LADO DO CARIBE (André IV)


"Não havia mais o que perguntar. André deixou o local. Ela não o havia esperado o bastante, talvez nem o amasse tanto. Realmente, a vida naquela época não estava nada fácil para os cubanos.
Teria sido melhor assim, pois isentava-se do atroz sentimento de culpa. Chegou até o Malecon, observou o mar tranquilo, a vida que seguia sem pressa. Caminhou pela passarela, Havana era apenas uma cidade sem cor. Não havia mais o que buscar. Ela era outra, agora vivendo do outro lado do oceano. Se pelo menos,  estiver feliz..."

Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

terça-feira, 30 de abril de 2019

LEON NA SANTERIA (Leon IV)




"Seu corpo ganhava velocidade no compasso das palmas, dos atabaques e giravava feito um pião. Ele via Elena lhe acenando nua, ao longe. Os cabelos negros, os grandes olhos pedindo que ele fosse ao encontro dela. “Aqui é diferente, o mundo é suportável”, ela dizia e ele não conseguindo ultrapassar o fio de silêncio, o fosso invisível que os separava. Ela apoiava o corpo desnudo no cavalinho de um carroussel, ia e voltava, chegava perto e ele tentava em vão alcançá-la. Mas via a imagem de Anna, sorrindo irônica. “Não há resposta alguma, em nada”.

Do livro "Havana me engana?"
Fotos: Roberto Nicolato

quarta-feira, 17 de abril de 2019

ENCONTRO MARCADO (León IV)






"Leon dirigiu-se à varanda do Hotel Comodoro. O sol declinava no mar do Caribe, lá embaixo um cocotáxi dividia espaço com uma carruagem levando turistas. O Malecon formigava no fim de tarde. Da sacada, ele podia avistar o Hotel Nacional, o Meliá e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos,  tendo à frente as bandeirinhas negras tremulando. Observou os terraços dos prédios carcomidos na área central, pontuados por alguma parede esverdeada ou roupas estendidas nos varais. Um homem moveu-se rapidamente por um corredor e Leon se deu conta de que havia marcado de encontrar Anna e Giuliano. Antes, ia pegar  Elias e André no Centro das Artes".

Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato

HEMINGWAY, COLECIONADOR DE HISTÓRIAS (Giuliano IV)









"Giuliano se desvencilhou e lhe beijou suavemente a testa.  
-- Temos que ir – apressou. 
Dentro do táxi, Giuliano ainda vislumbrou o Pilar atracado num Galpão perto da piscina de Hemingway. Estava bem conservado e não era mais que uma relíquia de um colecionador de histórias e vidas. Dentro, o velho capitão dava repetidas baforadas no charuto. Percebeu Giuliano e, do convés, acenou, enquanto o Bel Air 1947 contornava as alamedas, deixando silenciosamente para traz a Finca Vigía". 

Do romance Havana me Engana
Fotos: Roberto Nicolato

sexta-feira, 22 de março de 2019

A ESSêNCIA DO TRÁGICO (Giuliano IV)




 (
"Giuliano puxou uma das cadeiras, sentou, encostou o rosto na mesa e sonhou o mesmo sonho, recorrente, daqueles que um dia desertaram de sua terra, os chamados homens condenados ao desterro, e Hemingway era um deles,  queria sim classificá-lo, ele que era um homem de poucas lidas, recolhido à sua mansarda, o designava como um macho sedutor, um homem de duas faces, num tempo em que só eram concebidas a perfeição e o desregramento; ele era a própria essência do trágico, Apolo e Dionísio. No fundo, um herói de si mesmo, um homem qualquer. Ou como gostaria Anna..."

Do livro "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

quarta-feira, 20 de março de 2019

NA RESIDÊNCIA DE HEMINGWAY (Giuliano IV)








"Anna desceu do Chevy Bel Air e naquela tarde trajava um vestido florido, tinha belas pernas, notou Giuliano, e ela lhe sorriu, tomando-lhe os braços para que pudessem entrar juntos na casa do escritor. As entradas, no entanto, encontravam-se bloqueadas. A regra era observar tudo das amplas janelas do agora museu, administrado pelo governo cubano. Anna enfiou a cabeça para dentro da casa. “Aquele foi o maior que ele matou”, indicou a funcionária, orgulhosa. A garota perseguiu com os olhos nas paredes brancas os troféus de caça: um grande cabeça de bisão empalhada, e depois  os cervos, animais do Quênia.  

-- Que horror! – disparou."

Do romance "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

quinta-feira, 14 de março de 2019

NA FLORIDITA (Giuliano IV)

"A moça roçou carinhosamente o rosto na estátua de Hemingway, ele sentado no balcão na pose de bebedor inveterado, e ela em pé num abraço, pedindo para que a fotografassem. Um daiquiri, por favor, diziam os turistas que iam tomando conta do grande balcão, ávidos por provarem o drinque celebrado pelo escritor.  Uma pequena orquestra animava o ambiente e os garçons moviam-se frenéticos naquele ritual de todos os dias. Estavam ali reunidos grupos de turistas que não se conheciam, mas que pareciam muito próximos como se participassem de uma confraria, embora sem contágio e profunda interação. 
Ah! A Floridita é aqui. Giuliano entrou de mansinho, vergonhoso, pois que estava só."

Do romance Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato