A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A ESPERA DO PESCADOR (Giuliano III)

"Um vento a sudeste soprava tranquilo. Depois de percorrer alguns quilômetros, mar a dentro, o velho lançou âncora e sentou-se perto de Giuliano. Uma nuvem de mergulhões cortou o céu em disparada. Num instante, viu que era o Papa quem comandava a pescaria, a corda do molinete lançada ao mar, esperava, e ali, à sua frente, observou um homem em camisa de brim e bermuda caqui, repletas de bolsos, agora numa luta surda contra um marlin exasperado. Era bonito de ver. “Venha pros meus braços”, ele dizia, puxava e esticava a cordoalha..."

Foto: Roberto Nicolato

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

NA TRILHA DE HEMINGWAY (Giuliano III)




"Que tal uma paella, a preferida de Hemingway? – convidou o garçon e apontou, vejam naquela parede estão fotos do único encontro com o comandante Fidel, em 1959. “O comandante venceu o concurso de pesca aqui, em Cojimar, e o troféu foi entregue por Hemingway; e ali a mesa onde sentavam-se o escritor, Gregorio Fuentes e Marta Gellhorn”, mostrou, enquanto as janelas do casarão abriam-se para um retrato nítido e fragmentado da baía".

Fotos: Roberto Nicolato

DA ARTE DE ANDAR PELA CIDADE (Giuliano III)


"Giuliano gostava de caminhar sem rumo. Anotou no moleskine: “A cidade permite muitas leituras, é preciso ler os códigos da cidade, decifrá-los, aprender a arte de andar por suas ruas, onde o caminhante tanto pode se perder quanto se achar. Mas antes de tudo, a cidade deve ser entendida como o espaço humano, da convivência. A verdade é o seu instante”. Lembrou que sempre esteve à procura de algo fugaz; se alcançasse, logo o temor de voltar pra casa de mãos vazias."

Foto: Roberto Nicolato

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

CAMINHANDO PELA OBISPO (Giuliano III)


"Era uma manhã de sol, o calçadão da Obispo fervilhava, com o intenso trânsito de pedestres, o comércio não tão clandestino assim de charutos, venda de comidas de rua, bebidas coloridas, artesanais, bugingagas e lojas onde se emparedavam jovens com celulares tendo ao fundo as marcas Adidas e Via Uno. Era inacreditável: formavam pequenas células capitalistas de consumo, fora ainda do alcance financeiro da grande maioria dos nativos da ilha... Eram, sim, ícones, pequenas recordações do mundo do capital para instantes de deleite dos turistas. Um registro para a sua inseparável Canon".

Do livro "Havana me engana"
Fotos: Roberto Nicolato

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

HAVANA ME ENGANA (André)

"André também se despediu dos amigos e foi em busca de sua Mercedes entre os frequentadores do Dos Gardenias. Vagou bêbado entre as mulheres, os corpos marcados por colants se exibindo... Esbarrou com uma morena, era Mercedes, enfim estava ali, bem perto, e ele a levou para um hotel no Vedado. “Dança pra mim?”, pediu. Uma fresta de luz se enfiou pela janela, incidindo sobre o corpo sinuoso, convidativo, e André percebeu o olhar feroz, dominador de fêmea no cio, ela veio por cima, sexo voraz, e ele era um animal dócil, deixando-se levar pelos seus encantos, violência e docura... “Veio me buscar”, não cansava de repetir a morena, cobrindo André de beijos."

De  "Havana me engana"

O IDEAL DO BELO (André)

"-- Ele é um exímio guitarrista, contou Leon e todos olharam para André, que mantinha-se completamente alheio, e o que Giuliano sentia por aquele cara ao lado não era atração sexual mas algo simbólico, como representação ideal do belo, pois a ele não cabia afirmar ou negar o seu querer, vivia na contemplação, como se a vida fosse um completo estágio de arte. No fundo, estava acostumado a sempre vivenciar um amor platônico e era o que bastava. Melhor, sempre tinha em mente, se apaziguar no que era possível antes de incorrer em sofrimentos fatais".

De "Havana me engana"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

NAS RUAS, SEM DIREÇÃO (André)


"Já era noite quando André e os dois jovens deixaram o restaurante. Pegaram a San Lázaro, às escuras, vultos caminhavam sem direção, André nunca havia se visto num universo tão distante do seu. “Você vai na frente, certa distância da gente. Vamos pegar um taxi”, instruiu Juan e os dois jovens se separaram de André, que caminhou sem muita segurança no breu, pelas ruas sujas, esburacadas, até que o táxi parou ao seu lado e ele entrou no banco traseiro de um Chevrolet anos 50, se acomodando ao lado de Juan. Miguel ia na frente com o motorista.

-- Pra onde estamos indo? – quis saber
-- Você vai ver, é uma surpresa – respondeu Juan."

De "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato