| Pontal do Paraná - 2016 - Foto: /Roberto Nicolato |
A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
sábado, 4 de março de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
ÁGUAS DE VERÃO
Águas de verão,
pra que tantas?
Se o solo já se encharcou,
os rios transbordaram
e as ondas, sob
invadiram
a restinga.
E quem assim a fez,
desordem natural,
de um tempo tardio,
que se esparge e
invade meu cérebro:
sonoras intenções.
Água cantando, chuva,
intermitente,
No coração, que
ouso escutar...
E me atormentam
Mais que tempestades.
Chuvas que molham
minha alma. Doçura
do mito, embriaguez.
Águas de pura letargia
Nesse dia movediço.
São águas de um
verão tardio.
Que encharcam
meus poros,
Canais irrigados
de lembranças...
Presente que
se faz passado...
Chuva que o
outono prenuncia.
O mar é seu instante,
último caminho.
Águas pra
Que tantas?
Se os muros
ruíram...
Se os muros
ruíram...
Se meus olhos
Inundaram-se
nessa torrente
de desejos
e dúvidas.
Poema e foto (Pontal do Paraná): Roberto Nicolato
Poema e foto (Pontal do Paraná): Roberto Nicolato
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
TRATADO DA NATUREZA
1 – Os bem-ti-vis usam os ninhos apenas para a
reprodução. Depois do amor o abandono,
onde agora saíras multicores fazem deles o local preferido para o seu amor
tardio.
2 – Elas, as formigas, carregam as flores e folhas aos
pedaços. É de partir o coração!
3 – Um casal de bem-te-vi inseparável. No mesmo fio de
alta tensão, próximos ainda ao ninho.
4 – As bananeiras crescem com urgência desmedida no
verão. Nutrem de muita água das chuvas. Vergam em direção ao céu.
5 – Elas, as formigas, cortam as avenidas atrás de
folhas tenras. Uma passarela de muita riqueza, e tristeza.
6 – Todas as árvores crescem de uma urgência desmedida
no verão. Agora meu olhar acredita.
7 – Vou moldando a natureza. Não posso deixá-la
sozinha seguir, seu próprio instinto. É muito confuso!
8 – É no pequeno detalhe que estão as grandes
significâncias. Um exagero do belo!
9 – A fêmea do Teiú dá luz na primavera. No verão, os
filhotes se erram das matas e acabam revelando suas cores em outras moradas.
10 – Onde estarão as corujas que um dia povoaram meu
inverno? Recolhidas no buraco da minha memória já contei umas três...
11- No começo do outono as árvores crescem e se
embebedem com as águas da chuva. Só não
as vejo crescer porque adormeço.
12 – O fruto da bananeira rompeu o ventre noutro dia.
Na calçada de azulejos restaram flores coloridas de paixão.
13 – O roxo da bananeira é da flor ou do fruto? Para
os insetos não existem cores na satisfação.
14 – O pássaro vermelho pousou ao lado da casa. Era
tão lindo de ver que as folhas juntaram-se, desavergonhosas, para me escondê-lo
da vista.
15 – Espatifam-se na água, os pássaros
brancos de minha paixão. Não muito longe, sob um olhar duvidoso.
Foto: Roberto Nicolato
sábado, 30 de abril de 2016
sábado, 12 de março de 2016
TIRO CERTEIRO
Da árvore
Que chovia
Assovios,
De vez em
Quando
Caía
Um pássaro.
Em desaviso.
O velho de
Espingarda
Grosso calibre
Disparava no ar
O tiro certeiro.
Asas
Partidas
Cobriam
O chão.
O vermelho
Me atirava
bem no fundo
dos olhos:
a sempre
mesma
tempestade
de sangue.
Poema e desenho: Roberto Nicolato
Poema e desenho: Roberto Nicolato
sábado, 27 de fevereiro de 2016
UMA BREVE ANÁLISE DO CONTO "UMA VELA PARA DARIO"
Roberto Nicolato
As noções de lar e província no conto "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, estão muito próximas. A casa é o espaço onde há uma suposta relação de afinidade e intimidade entre as pessoas, que carregam certo grau de parentesco. No caso da província, se não há um parentesco, há uma afinidade pelo próprio fato de ocupar o mesmo território, onde são estabelecidos laços de identidade, e, de alguma maneira, participação na produção simbólica da cidade.
No conto do escritor curitibano, é justamente o espaço da província que se transforma em metrópole, o que irá contribuir para a degradação do personagem Dario, um sujeito desconhecido, anônimo, estranho ao meio, numa cidade em que as redes de sociabilidades vão se dissolvendo em função do crescimento urbano e populacional na década de 50. O texto, republicado na obra Em busca de Curitiba perdida, integra o livro Cemitério de elefantes, lançado em 1964.
O conto começa com Dario dobrando uma esquina do centro de Curitiba, apressado, sendo
obrigado, logo em seguida, a se sentar na calçada ainda úmida de chuva, ao sofrer um ataque cardíaco. As pessoas acorrem até o local em que ele se encontra, mas o que parece ser uma relação de fraternidade, de ajuda, se mostrará, posteriormente, como apenas uma simulação e a negação do indivíduo enquanto sujeito e cidadão.
Cabe ressaltar que no conjunto da obra de Dalton Trevisan o espaço público tal como é dimensionado em "Uma vela para Dario" é muito mais exceção do que regra. E que mesmo o trânsito dos personagens pelo universo da rua, como nas investidas de Nelsinho e no conto "Noites de Curitiba", acaba sendo mediado, em última instância, por relações geralmente restritas, não incluindo, por exemplo, a população da cidade. Malcolm Silverman observa, inclusive, que há uma prevalência, nas narrativas de DT, dos conflitos de natureza íntima que se configuram, na maioria das vezes, no interior de uma casa ou de um quarto.
Na narrativa de "Uma vela para Dario", o espaço vai cumprir uma função importante como o elemento constitutivo da trama, permitindo compreender as teias de relações interpessoais que nele se formam, e como ocorrem a perda da identidade individual e a noção de não-pertencimento na passagem da província para a metrópole. Dalton, na verdade, vai antever o esfacelamento da rede de sociabilidades no espaço público e a reificação do indivíduo numa província em mutação.
A perda da identidade de Dario vai ocorrer tanto no plano material — pois terá todos os seus pertences roubados —, quanto no campo social, na medida em que é um indivíduo estrangeiro, não pertencente à cidade. Por conta desse anonimato, o protagonista não será devidamente socorrido pela população, assim como pelos órgãos públicos. A primeira atitude contrária à remoção do personagem para um hospital virá de um motorista de táxi. "Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?"
Na seqüência, os transeuntes chamam a ambulância, que nunca aparece, pensam em levá-lo até à farmácia, mas não o fazem por causa do peso de Dario. Sem os documentos, o protagonista não pode mais ser identificado pela polícia, que, por sua vez, chama o rabecão. Até o final da narrativa ninguém aparece para levar o corpo.
A carteira retirada de seu bolso apenas confirma o seu anonimato, pois não o identifica como uma pessoa nascida na cidade: "Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados (...). Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade". As noções de não-pertencimento e da perda da identidade se acham entrelaçadas e uma é decorrente da outra. Assim, o personagem Dario vai sendo desnudado, aos poucos, nos seus bens materiais, perante uma sociedade que perdeu o sentido da solidariedade e do amor ao próximo: "O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado".
A cada deslocamento de um local para outro, os pertences do Dario vão sendo furtados: sapatos, o alfinete de pérola na gravata e o relógio de pulso. Não sobrará nem mesmo o paletó e a aliança de ouro que só era destacada molhando o dedo com sabonete, conforme revela o narrador: "O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo — os bolsos vazios".
A noção do não-pertencimento também estabelece uma relação paradoxal dos habitantes da cidade para com o forasteiro. Em primeiro lugar, porque sugere a resistência dos habitantes da província em relação ao indivíduo que é estranho ao seu convívio, em que pese ser o aumento do processo migratório um processo natural nas sociedades em rápida transformação urbana.
Em segundo lugar, o ato de desnudar Dario, um estrangeiro que desperta a atenção de todos, e levar os seus pertences poderia ainda representar, simbolicamente, um conhecimento à distância dos moradores para com o protagonista, sem, no entanto, introduzi-lo no universo de cidade. Em suma, o processo narrativo encaminha-se para a transformação do personagem, de sujeito a objeto, na imagem de um corpo sem identidade, uma vez que até o final da narrativa, continuará esquecido na calçada, despertando, por ironia, apenas a compaixão de um menino de cor, descalço, que vai acender uma vela ao lado do cadáver.
O processo de reificação é gradativo na narrativa de Dalton e atinge seu ápice no momento em que Dario é "pisoteado dezessete vezes" e, no final, quando o corpo do protagonista passa a integrar o próprio espaço, assim como o personagem Chico, de "Pensão Nápoles". Assim, Dario será apenas mais objeto na calçada: "Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva".
(Ver post do conto neste blog) e o romance "Do outro lado da rua", inspirado nesse conto de Dalton Trevisan.
#robertonicolato
#nicolatoroberto
As noções de lar e província no conto "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, estão muito próximas. A casa é o espaço onde há uma suposta relação de afinidade e intimidade entre as pessoas, que carregam certo grau de parentesco. No caso da província, se não há um parentesco, há uma afinidade pelo próprio fato de ocupar o mesmo território, onde são estabelecidos laços de identidade, e, de alguma maneira, participação na produção simbólica da cidade.
No conto do escritor curitibano, é justamente o espaço da província que se transforma em metrópole, o que irá contribuir para a degradação do personagem Dario, um sujeito desconhecido, anônimo, estranho ao meio, numa cidade em que as redes de sociabilidades vão se dissolvendo em função do crescimento urbano e populacional na década de 50. O texto, republicado na obra Em busca de Curitiba perdida, integra o livro Cemitério de elefantes, lançado em 1964.
O conto começa com Dario dobrando uma esquina do centro de Curitiba, apressado, sendo
obrigado, logo em seguida, a se sentar na calçada ainda úmida de chuva, ao sofrer um ataque cardíaco. As pessoas acorrem até o local em que ele se encontra, mas o que parece ser uma relação de fraternidade, de ajuda, se mostrará, posteriormente, como apenas uma simulação e a negação do indivíduo enquanto sujeito e cidadão.
Cabe ressaltar que no conjunto da obra de Dalton Trevisan o espaço público tal como é dimensionado em "Uma vela para Dario" é muito mais exceção do que regra. E que mesmo o trânsito dos personagens pelo universo da rua, como nas investidas de Nelsinho e no conto "Noites de Curitiba", acaba sendo mediado, em última instância, por relações geralmente restritas, não incluindo, por exemplo, a população da cidade. Malcolm Silverman observa, inclusive, que há uma prevalência, nas narrativas de DT, dos conflitos de natureza íntima que se configuram, na maioria das vezes, no interior de uma casa ou de um quarto.
Na narrativa de "Uma vela para Dario", o espaço vai cumprir uma função importante como o elemento constitutivo da trama, permitindo compreender as teias de relações interpessoais que nele se formam, e como ocorrem a perda da identidade individual e a noção de não-pertencimento na passagem da província para a metrópole. Dalton, na verdade, vai antever o esfacelamento da rede de sociabilidades no espaço público e a reificação do indivíduo numa província em mutação.
A perda da identidade de Dario vai ocorrer tanto no plano material — pois terá todos os seus pertences roubados —, quanto no campo social, na medida em que é um indivíduo estrangeiro, não pertencente à cidade. Por conta desse anonimato, o protagonista não será devidamente socorrido pela população, assim como pelos órgãos públicos. A primeira atitude contrária à remoção do personagem para um hospital virá de um motorista de táxi. "Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida?"
Na seqüência, os transeuntes chamam a ambulância, que nunca aparece, pensam em levá-lo até à farmácia, mas não o fazem por causa do peso de Dario. Sem os documentos, o protagonista não pode mais ser identificado pela polícia, que, por sua vez, chama o rabecão. Até o final da narrativa ninguém aparece para levar o corpo.
A carteira retirada de seu bolso apenas confirma o seu anonimato, pois não o identifica como uma pessoa nascida na cidade: "Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados (...). Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade". As noções de não-pertencimento e da perda da identidade se acham entrelaçadas e uma é decorrente da outra. Assim, o personagem Dario vai sendo desnudado, aos poucos, nos seus bens materiais, perante uma sociedade que perdeu o sentido da solidariedade e do amor ao próximo: "O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado".
A cada deslocamento de um local para outro, os pertences do Dario vão sendo furtados: sapatos, o alfinete de pérola na gravata e o relógio de pulso. Não sobrará nem mesmo o paletó e a aliança de ouro que só era destacada molhando o dedo com sabonete, conforme revela o narrador: "O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo — os bolsos vazios".
A noção do não-pertencimento também estabelece uma relação paradoxal dos habitantes da cidade para com o forasteiro. Em primeiro lugar, porque sugere a resistência dos habitantes da província em relação ao indivíduo que é estranho ao seu convívio, em que pese ser o aumento do processo migratório um processo natural nas sociedades em rápida transformação urbana.
Em segundo lugar, o ato de desnudar Dario, um estrangeiro que desperta a atenção de todos, e levar os seus pertences poderia ainda representar, simbolicamente, um conhecimento à distância dos moradores para com o protagonista, sem, no entanto, introduzi-lo no universo de cidade. Em suma, o processo narrativo encaminha-se para a transformação do personagem, de sujeito a objeto, na imagem de um corpo sem identidade, uma vez que até o final da narrativa, continuará esquecido na calçada, despertando, por ironia, apenas a compaixão de um menino de cor, descalço, que vai acender uma vela ao lado do cadáver.
O processo de reificação é gradativo na narrativa de Dalton e atinge seu ápice no momento em que Dario é "pisoteado dezessete vezes" e, no final, quando o corpo do protagonista passa a integrar o próprio espaço, assim como o personagem Chico, de "Pensão Nápoles". Assim, Dario será apenas mais objeto na calçada: "Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva".
(Ver post do conto neste blog) e o romance "Do outro lado da rua", inspirado nesse conto de Dalton Trevisan.
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