A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

quinta-feira, 14 de março de 2019

O CAMINHO DO MAR (André III)

"Mercedes se aproximou devagar, com gesto suave jogou os longos cabelos para trás e o beijou.  Os lábios carnudos foram acompanhando o desenho do seu corpo e ela se aninhou entre as suas pernas. Sentiu a sua pele macia, as unhas afundando-lhe a carne, um corpo dentro do outro e naquela noite jurou amá-la para sempre.  Quando acordou,  a luz do sol entrava  pela sacada do quarto e ouvia-se o barulho do trânsito na avenida muito próxima. 
Pegou o caminho da praia. Era bom colocar os pés na areia branca, na água azul cristalina. Se acomodou na espreguiçadeira e pediu uma Bucaneros, aquilo sim era um vidão, far niente, uma pena estar sozinho, mas não seria por muito tempo..."

Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato

COMPLETA SOLIDÃO (André III)

"Sem Mercedes, sentia-se literalmente isolado do mundo, num prédio velho, único habitante, num universo desconhecido, socialista e achou aquilo engraçado. Abriu as páginas do  Imoralista, de Gide. Era movido a paixão. Quanto mais próximo do prazer mais se tem um coração puro. Só ele entendia o que aquilo queria dizer. A noite  pairava silenciosa, nem um sopro de vento, apenas o leve roncar das ondas. Observou a sacada, a porta quebrada, sem trinco, permaneceria aberta. Não tardou, ouviu um estrondo, as luzes do prédio se apagaram. Estava na mais completa solidão"".

Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

terça-feira, 12 de março de 2019

A BUSCA CONTINUA (André III)

"Pararam num mirante para observar a paisagem; Caridad e Mirela pediram uma pina colada. Dançaram ao som de um mambo que animava os turistas e André lembrou da falta dos outdoors na estrada: “aqui os publicitários estariam desempregados”, achou engraçado; as meninas vieram ter com ele. Tentaram arrastá-lo para a dança, rebolando na sua cara. Era só uma curtição... até que chegaram em Guanabo. 
Assim que o veículo estacionou, Mirela e Caridad saltaram correndo para a praia. Um partida de baseibol projetava-se num grande telão; na areia os jovens dançavam freneticamente. Corpos requebravam, todos queriam se divertir, namorar, fazer sexo. Compraram mais cervejas, André não sabia se beijava Caridad ou Mirela, até que se deu conta de que José havia falado que conhecia em Guanabo uma mulher de nome Mercedes".

Do romance Havana me engana
Foto: Roberto Nicolato

OFÍCIO, SONHO E OBSTINAÇÃO (Leon III)

"O táxi estacionou numa rua pouco movimentada, guardada por soldados. Ao longe um homem velho, de barba, de uniforme Adidas, caminhava com seguranças ao lado. Não tinha mais o sorriso e alegria dos tempos revolucionários. Caminhava encurvado como por ofício, fizera tudo por ofício, sonho e obstinação. Erros e acertos. A vida toda dedicada a um ideal, custasse o que custasse, o herói abatido pelo curso da vida, incólume ao inimigo, seria preciso se sacrificar para manter viva uma chama, e era justamente o que aquele homem pensava. Nem todos estiveram dispostos a acompanhá-lo na empreitada. E assim girava a máquina do mundo, essa máquina social azeitada e, para Leon, a felicidade lhe pareceu novamente como uma simples questão de referências".  

Do romance "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

domingo, 24 de fevereiro de 2019

E O CHE LHE SORRIU (Leon III)

"Leon observava os turistas, os quais jamais deixariam a ilha sem posar para a tradicional foto, tendo a enorme figura de Che Guevara estampada ao fundo, em estrutura de ferro, em toda a fachada de um prédio público. Quis chegar mais perto, o guarda diz que não era pra se aproximar demais, pois ali era uma área de segurança. Ele mesmo, Leon, também fez pose. “Elias venha um pouco mais pra cá com a máquina, pra que saia na foto ‘Hasta la vitória siempre’” e Che pareceu lhe sorrir, tendo embaixo um guarda carrancudo e impassível, já acostumado ao que há décadas se passava em frente ao local."

Foto: Roberto Nicolato

NO MEMORIAL JOSE MARTÌ (Leon III)






"Algum tempo depois, o táxi deixou os dois amigos na extensa Praça da Revolução e Elias convidou Leon para visitar o Memorial José Martí, poeta e herói da independência cubana. Lá dentro, estava sendo contada, numa exposição de cartazes, as conquistas dos socialismo nos 50 anos da revolução, comemorada naquele ano de 2009. Os amplos salões surgiam na arquitetura moderna e nas fotos via-se a Praça da Revolução tomada pelos cubanos no dia da vitória, o passo a passo da revolução, as poesias e a luta de José Martí, ainda no século XIX. E depois o quetzcoal, numa versão empalhada. Que pássaro lindo! O que estaria fazendo ali?"

Fotos: Roberto Nicolato

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DE HERÓIS E SIMULACROS (Leon III)

"Leon observou o simulacro de Che e pensou: O que seria do destino da humanidade sem a figura do herói? De Ulisses, aos cavaleiros da Idade Média, dos capitães navegantes dos mares, dos heróis da queda da Bastilha, de Alexandre, o Grande... Che e Fidel foram heróis da revolução socialista, libertou Cuba do regime colonialista de Fulgêncio Batista, Martin Luter King, na libertação dos negros nos Estados Unidos; Cristo foi crucificado e no Brasil, o herói maior, Tiradentes, teve seu corpo esquartejado e exibido pelas ruas da então Vila Rica, onde sua voz ressoa aos menos avisados nas noites da cidade de Ouro Preto."