A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
sábado, 27 de fevereiro de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Noite literária no Wonka Bar
Lançamento de "Do outro lado da rua"
movimenta cena literária no Wonka
movimenta cena literária no Wonka
O jornalista e professor Roberto Nicolato lançou, na última quarta-feira (17/02), o seu segundo livro de ficção, Do outro lado da rua (Kotter Editorial), no Wonka Bar, em Curitiba. A obra, inspirada no conto "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, tem como cenário a Curitiba dos anos 1950 e da atualidade.
O evento, que contou com a presença de amigos do escritor, jornalistas, e pessoas interessadas em literatura, fez parte do projeto Vox Urbe, capitaneado pelo escritor e fotógrafo, Ricardo Pozzo. Nicolato conversou com os participantes sobre a construção narrativa do seu segundo romance e de quando começou a se interessar por literatura. Logo após, fez a leitura de alguns trechos do livro "Do outro lado da rua" e a leitura de dois poemas de sua autoria.
A noite cultural no Wonka Bar continuou com uma sessão de declamação de poemas, como já é de tradição naquele espaço. O destaque ficou para a poeta e uma das finalistas da edição de 2015 do Prêmio Jabuti, a mineira Liria Porto.
Uma narrativa psicológica
Do outro lado da rua conta a história de Otaviano, um funcionário público aposentado que vive em companhia da empregada e de um gato, no centro da capital paranaense. Sem conseguir movimentar parte do corpo e preso a uma cadeira de rodas, ele contrata um digitador e, assim, tenta produzir a sua primeira ficção. Mas sua ficção parte de um fato que testemunhou em parte e que mudou sua vida: a misteriosa morte de um forasteiro na Curitiba da década de 50 e que irá mobilizar diferentes narrativas e modos de contá-la.
Esse segundo romance do escritor mineiro, radicado em Curitiba, revela em dois tempos narrativos contrastes da vida curitibana e as memórias vivenciadas pelo protagonista, um sujeito atormentado por um antigo sentimento de culpa. "Não tive a intenção de escrever um romance histórico ou policial, mas propor uma narrativa psicológica sobre a glamourosa Curitiba do passado e refletir sobre as relações humanas e os males que nos atordoam", observa Nicolato.
Trecho do livro
“O que importava é que contratando aquele rapaz estava sendo possível escrever a história do alienígena, do Ulysses moderno que viveu algum tempo naquela Curitiba de não mais, e também o como ele virou objeto de desejo dos maridos vouyers, das damas, das donzelas, das desafamadas e dos jornalistas. Não havia quem não soubesse, quem não tivesse acesso a ao menos um pequeno fragmento de prosa, nas mais das vezes fantasiosa, em conversas de bares, cafés e nos clubes requintados, sobre aquele lídimo Don Juan. Isso contribuiu para ajudar a criar o mito do homem que muitos julgavam conhecer, mas que pouco dele sabiam”.
http://kotter.com.br/publicacao/do-outro-lado-da-rua/
UMA VELA PARA DARIO
Dalton Trevisan
Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guardachuva na parede. Ma não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.
A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.
Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guardachuva na parede. Ma não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.
Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.
A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.
Foto: André Rodrigues
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
NO CALOR DO SANGUE DE IRENE NÉMIROVSKY


Eu encontrei a obra de Irène
Némirovsky, Calor do Sangue, meio que
por acaso, sem qualquer indicação de jornalista, escritor ou amigo. Estava na
Rodoviária do Rio quando deparei com um quiosque de livros ( daqueles também instalados
em shoppings de Curitiba), tudo a R$10,00 cada, e pensei: no meio de tantos será
que não acharia um que fosse do meu agrado?Na verdade, o que eu pretendia era um
título chamativo, com poucas palavras e múltiplos significados, envolvente; um
projeto gráfico bem cuidado e uma história bem contada. Por apenas R$ 10,00.

Quem tem o hábito de ler romances e, lógico, conhece um pouco do mercado nacional, acredito, sabe reconhecê-los. Digo, acredito. Assim gastei R$ 20,00 por dois livros e deixei para trás Rita, Ritinha, Ritona, de Dalton Trevisan, também ao custo de R$ 10,00, não pelo autor, de quem muito admiro, apenas porque não era a literatura apropriada para um trabalhador a caminho de alguns dias de férias em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.
Eu queria mesmo era ler bons romances. E sempre penso nisso quando encontro preciosidades em pequenas feiras. Literatura de qualidade e em promoção. Aí reside a glória... Mas se arrependimento matasse... Dalton, então, que me perdoe. Nessa vida não é apenas o dinheiro que conta. Ainda falta Rita, Ritinha, Ritona e muitos outros livros desse meu autor predileto para fechar a coleção. Acho que ainda tenho muitos anos de minha vida para comprá-los. Eu acredito.
Foi com o ônibus na estrada que encontrei novamente Irène Némirovsky, essa escritora de origem judia ucraniana, morta aos 39 anos de idade, numa câmera de gás, em Auschwitz, pelo regime nazista; não sem antes protagonizar uma carreira literária de sucesso, embora a experiência vivida como refugiada, ela e sua família, no interior da França, tenha sido preponderante no êxodo alcançado com sua obra mais prestigiada e transformada em filme: Suíte Francesa.
Mas o que eu tinha em mãos era um exemplar de Calor do Sangue, cujo enredo e estrutura tradicional do romance me chamou mais atenção do que o livro Carlota Faiberg, do escritor espanhol, Antonimo Muñoz Molina, pra mim também desconhecido. Achei que, de outro modo, a obra de Irène combinava mais com o clima "férias de verão", que a discussão proposta por Molina, conforme a orelha do livro( minha única referência até agora), de que não se deve levar ao extremo as proposições dos Estudos Culturais que tendem a nivelar a baixa e alta cultura... Só lendo pra saber...
O fato é que Calor do Sangue me acompanhou em boa parte da viagem e nos dias de temporada no litoral do Rio. E o mais interessante é que pude perceber que o livro dessa escritora, de origem judia, embora tendo sido escrito há muitos anos e apresentando um cenário diferente do meu universo, vejo-o com alguns pontos de correlação (e bastante significativos), com meu segundo romance, Do outro lado da rua. Pra ser mais prosaico, coisa mesmo de sincronia!
É lógico que meu livro traz algumas características que diferem da obra de Irène, uma vez que procuro misturar a forma tradicional do romance com uma estrutura temporal mais afeita às técnicas da literatura contemporânea. No mais, sou um escritor iniciante e não me julgo em condições de me comparar aos grandes nomes da literatura. Mas fiquei feliz por compreender que no meu romance há algo do livro de Irène, muito embora me fosse totalmente desconhecida. E estava lá, no ritmo da linguagem, no modo de caracterizar a psicologia das personagens e no enquadramento da voz do narrador para descrever as relações afetivas entre moradores no interior da França. E de como a autora expõe, com agudez e maestria, o universo das convenções, da hipocrisia e de infidelidades! Afinal, seus personagens como os meus, em Do outro lado da rua, se dobram ao calor das paixões.
Enfim, é mais gratificante compreender por si próprio a alma da linguagem e a natureza das personagens do que ser guiado, embora o poder da criação seja fruto do acúmulo de leituras. Descobrir essa semelhança -- mesmo que entre alguns aspectos nas duas obras -- me proporcionou um sentimento verdadeiro e autêntico. E mais: o livro dessa autora só me faz confirmar de que já dobrei a primeira curva e que agora é preciso atravessar pontes, rios e seguir uma extensa e apaixonante caminhada.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Conversa sobre "Do outro lado da rua"
Vídeo sobre o lançamento do meu livro "Do outro lado da rua" (Kotter Editorial), no auditório da Uninter, Campos Tiradentes, Centro, Curitiba. O material foi produzido pelos alunos do Curso de Jornalismo, Jorge Seidel e Karina Becker, para a série COMUNICA, que são reportagens postadas a cada semana no Portal da Comunicação.
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