A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

NA MILITÂNCIA (Leon)



"-- Pelo que contam era um jovem um idealista, relaxadão, bem diferente da figura do militar sisudo e sério que se tornou, embora em algumas vezes retornasse o seu senso de humor. Naquele tempo, era famoso pelo jeito descontraído, usava um terno de lã azul marinho, sempre aberto e a gravata solta, aquele homem grande de passos largos buscava arrebanhar seguidores, contrários ao regime, à corrupção que tomava conta da própria Universidade de Havana, onde era estudante de direito, aqui ele fazia a sua militância, chamando cada um para uma conversa reservada, mas nem tanto,(...) Leon até imaginava a figura do jovem Fidel entrando no café, a agitação dos estudantes nas mesas, até se dar conta da presença de Anna, bem à sua frente..."

De "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

DEUS E O DIABO (Leon)



"Ao deixarem o Paladar, Leon, Elias e Anna tomaram a direção da Universidade de Havana; a escadaria os levou ao ápice, aos pés da imponente deusa Minerva, a Alma Mater de braços abertos para a cidade, templo do conhecimento e da sabedoria, de onde Leon avistou uma Havana, branca, ensolarada e em ruínas.
-- Olá – um jovem investiu mansamente na direção de Leon.
-- Sabia que naquele salão o papa se encontrou com o comandante? Deus e o diabo juntos..."

De "Havana me engana"


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

DE HERÓIS E DESTERRADOS (Leon)

"Pensou: A saga dos heróis é um contínuo voltar pra casa, encontrar uma mãe complacente, uma esposa zelosa e uma pátria pronta a servir, embora muitos não deem conta de que se tornaram
seres inadaptáveis, alienados em sua própria memória. Desterrados. Subiu a avenida até a Praça Central, onde deparou-se com uma imensa fila de trabalhadores cubanos".

Do romance "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

NA TELA DO CINEMA (Giuliano)

''Sem se dar conta já ocupava uma cadeira na fila de trás do cinema, assistindo Ceguera; uma imensa luz projetou na tela, sobre um rosto desfigurado, as cidades de São Paulo, Toronto, Montevideu devastadas pela cegueira física e moral... E Giuliano se viu perdido numa cidade anônima, sem presente ou passado, e suas ruas eram labirintos por onde tentava achar uma saída, queria chegar até a rodoviária, voltar pra casa... Que cidade é essa?..''

Do romance "Havana me engana"

Foto: Roberto Nicolato

CASA DE LAS AMÉRICAS (Giuliano)


"Quando viu Giuliano, Estelita abriu um sorriso e veio rápida em sua direção.
-- Prazer em conhecê-lo, pessoalmente! Os brasileiros são sempre bem vindos em Cuba.
Isso ele já sabia, que a relação cultural entre os dois países tinha se fortalecido no período da ditadura nas décadas de 70 e 80, especialmente nas áreas da música e da literatura. Isso pra não falar das novelas brasileiras, que emocionavam as famílias cubanas durante o horário nobre da televisão estatal, antes do pronunciamento de Fidel Castro.
-- Eu sei – respondeu com simpatia e Estelita o convidou para conhecer a Casa de las Américas.
Giuliano foi conduzido pelas dependências do prédio, de estilo art déco, amplos salões, construído logo após a revolução para aproximar os povos e isso estava patente no mapa das duas américas, estampado numa das fachadas da catedral da cultura socialista''.

De "Havana me engana"
Foto: Roberto Nicolato

domingo, 3 de fevereiro de 2019

TRAVESSIA (André)

Mercedes contou que a irmã, Graziela, ia tentar a travessia com o namorado no dia seguinte. “O pior, André, é quando sua família vai se desintegrando, fugindo da vista da gente, pra um dia que você não sabe quando...”, disse naquela noite calorenta, sentada na amurada do Malecon e André beijou seus olhos, a abraçou num misto de amor e compaixão, e falou que era melhor mesmo que ela não se arriscasse na travessia, os barcos eram frágeis, muitos naufragavam, e ele logo percebeu que a moça, assim como tantas outras, sonhava em encontrar alguém que pudesse levá-las o mais depressa dali


De "Havana me engana"

Roberto Nicolato

NO UNIVERSO DA RUMBA (André)


Um homem negro também entrou na roda de colar e guias no peio nu, atiçando os que acompanhavam, jogando os braços pra cima e pra baixo, as pernas tremulando num gingado, deslizando no cimento fosco... Como um galo afoito e sedutor, ele se aproximou da morena de short branco e bustiê, ela provocando num jogo de conquistas, e ele enfiou rapidamente uma das pernas por trás da moça e ela numa fuga zombeteira, adiantou alguns passos, colocando e tirando o lenço das partes íntimas, na defensiva, ao mesmo tempo em que se entregava ao universo da rumba e da lascívia, lembrando o ritual da fertilidade que caracteriza o guaguancó.
                                                                                                                  
De "Havana me engana" 

Foto: Roberto Nicolato