A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
sexta-feira, 27 de abril de 2018
JORNALISMO E LITERATURA
Considerações
sobre estilo e representação da realidade
Os recursos estilísticos utilizados pelos gêneros
literários e jornalísticos se diferem e ao mesmo tempo se aproximam, embora a
atividade jornalística tenha considerado como intrínseca à sua própria
característica o estilo direto, a concisão, clareza e precisão. Mas é preciso
se ater aos estudos do Gênero, no interior do próprio discurso jornalístico,
para entender que esse é um parâmetro para determinar a clareza, a transparência
da linguagem, pois o máximo que o jornalismo pode chegar é até as notas do
estilo realista da literatura, de Balzac a Dickens e Flaubert.
Ou seja, a natureza da atividade
prática e a função no qual está inserido o jornalismo, coloca a linguagem a
serviço principalmente da comunicação e com o espírito da ética na relação com
o leitor.
De
outro modo, o estilo literário prima pela indefinição, ambigüidade e pela
representação indireta da realidade. Mas no contexto da pluralidade dos modos
de criação literária, o caráter documental e objetivo – que tem definido a
linguagem jornalística desde o início do século XX -- também pode constituir o
principal arcabouço na construção dos romances e novelas em diferentes fases da
literatura.
Como exemplo, citamos as experiências com o realismo social de Balzac,
Dickens e Flaubert, na Europa; a escrita de Lima Barreto, em estilo
jornalístico, e considerada “desleixada” por muitos críticos; sem falar nos
romances regionalistas de cunho extremante objetivo como Vidas secas, de Graciliano Ramos, e boa parte da literatura dos
anos 70, fase marcada por uma fecunda aproximação da literatura ao jornalismo.
Ou seja, a literatura pode incorporar o estilo
comum à história e ao jornalismo, no que consiste especificar o caráter de
verdade da ficção, conforme assevera Peter Gay:
A ficção pode, sem dúvida, oferecer a veracidade dos
detalhes; os romancistas e poetas não são estranhos à pesquisa. Balzac, em Les ilusions perdues [as ilusões perdidas], conta aos leitores
talvez mais do que estes se interessassem em saber sobre as atividades
gráficas; Melville acumula informações técnicas exaustivas sobre as baleias e a
caça a elas em Moby Dick; Thomas Mann discorre com um prazer indisfarçado sobre
as causas e o tratamento da tuberculose em Zauberberg [A montanha mágica]. Tais
fatos, em si, são reportagens; retirados do contexto ficcional em que ocupam
sua função, seriam textos jornalísticos, especializados ou mesmo históricos
(GAY, 1990, p.172).
Quanto
ao jornalismo, o estilo marcado pela objetividade, clareza e concisão,
predominante desde o início do século XX, segue a velocidade das práticas
rotineiras e tende a apresentar margens de diferenças de um discurso da
Internet, para o de um jornal ou de uma revista. Mas todos, no entanto, têm
algo que os assemelham: uma padronização notória e homogênea que se situa em
menor ou maior grau, mas que os define, principalmente neste momento em que há
um distanciamento maior em relação aos procedimentos literários.
Para o leitor, não se trata de uma tarefa
difícil diferenciar, na atualidade, a enunciação jornalística da literária,
visto que o jornalismo criou um discurso autônomo, e predominantemente marcado
pela objetividade, muito embora ainda prevaleçam em alguns textos os procedimentos
assemelhados ao de uso corrente do new
journalism. Ou seja, em contrapeso, o jornalismo tem utilizado em
diferentes fases o discurso indireto e plurívoco dos procedimentos literários.
Na questão do estilo, da mesma forma
que objetividade aproxima-se da notícia, a subjetividade muitas vezes pode
acompanhar o discurso como o zumbido de uma mosca na grande reportagem, numa
revista ou livro. A notícia, pela sua própria natureza, vai carecer de um tipo
de linguagem mais próxima da realidade objetiva, para dar conta do objeto que
precisa ser descrito no seu imediatismo e na intenção de propor a verdade.
Trata-se, desta forma, da opção por um discurso que cumpre uma função moral,
ética, de caráter anunciador do fato, mesmo que este traga em si diferentes lados,
algumas facetas nas quais são projetados fachos de luz para torná-las mais
visíveis.
A subjetividade, por sua vez, tende
a ganhar espaço e valor na medida em que o fato se amplia, ganha dimensão
sociológica, intelectual e simbólica numa grande reportagem na qual não se pode
desprezar as figuras de retórica e os diferentes pontos de vistas no sentido de
contar uma história. No fundo, os estilos praticados por ambos os gêneros mais
os unem do que os distanciam, sendo que na literatura, por ser guiada principalmente
pelo ficcional e pelo imaginativo, há uma maior pluralidade de experiências e
experimentações.
Em suma, é preciso ressaltar que a
maneira como cada gênero representa a realidade irá refletir na linguagem e no
estilo adotado pelo enunciador, predominantemente de forma mais direta e
comunicativa no caso do jornalismo, ou indireta no tocante à literatura. Neste
sentido, vale lembrar que a ruptura provocada pelas vanguardas no início do
século XX trará aos olhos do leitor uma realidade muitas vezes distorcida e
fragmentada.
Se na questão do estilo e
representação da realidade, pode-se dizer que há certa diferenciação – mas que
em alguns momentos da história se aproximam por demais pelo próprio empréstimo
de um gênero ao outro –, distanciamento maior ocorre em relação às funções que
cada um dos gêneros exerce quando da representação de uma determinada
realidade. Enfim, no caso específico do jornalismo, a comunicação com o leitor
e a busca da verdade através do pacto ético. “Num texto de 1927, A natureza da experiência estética,
George Herbert Mead salientava que o jornalismo tinha várias funções, uma delas
a de dar espaço ao imaginário, outra a de procurar notícias, necessária a uma
sociedade aquisitiva. Entre as duas, a margem é estreita e a dimensão de
informação inseparável da componente estética, aqui definida numa dimensão
social” (PONTE, 2004, p.53).
Esta discussão levanta outras
questões: a primeira se dá no nível da linguagem, ou seja, é certo que no
jornalismo impera a função pragmática, mas nada o exime de dialogar com a
função estética, o que é comprovado principalmente nas grandes reportagens e
nas crônicas, consideradas um gênero híbrido entre o jornalismo e
literatura. Por outro lado, a literatura,
que por sinal é reconhecida pela função estética, ou pela linguagem no mais
alto grau de significados possíveis, como diria Pound, pode também exercer uma
função pragmática, e um exemplo é a produção literária durante o regime militar
no Brasil pós-64 que, em função da censura, manteve um diálogo intenso com a
linguagem e os procedimentos jornalísticos.
A discussão invariavelmente
encaminha-se para questões de fundo moral e filosófico que, de certa forma,
estão relacionadas à natureza intrínseca e afirmativa dos dois gêneros e às
tentativas de situarem-se em campos autônomos. Enquanto o jornalismo passará,
ao longo da história, a ser regido cada vez mais pelo pacto ético com o leitor,
pela busca da veracidade dos fatos, a literatura deixará de, obrigatoriamente,
estabelecer compromissos com as funções de caráter moralizante, conforme já
mencionado, para avançar pelo domínio plural e indefinido da natureza estética,
a partir do que se convencionou chamar de “arte pela arte” dos simbolistas e
parnasianos do século XIX até culminar com as transformações operadas pelos
movimentos de vanguardas no início do século XX.
Isto, entretanto, não impediu que o
campo plural da literatura continuasse a abrigar uma visada de caráter ético
que, se não estava condicionada ao encontro da verdade de caráter imediato do
jornalismo, resultará num esforço de constituir uma prosa direcionada ao modo
solidário do processo ficcional para com as classes oprimidas, contrário à
violência, às injustiças sociais e a qualquer possibilidade de restrição da
liberdade do indivíduo num determinado contexto sócio-cultural.
No livro Que é literatura, o filósofo e escritor Jean-Paul Sartre defende,
inclusive, a tese de que, por essência, a literatura deva desencadear ações
para o desvendamento da realidade, de modo que o escritor sempre necessitará
promover escolhas e que jamais poderá portar-se na condição de “inocente”
diante do mundo. “(...) acreditamos que
o escritor deve engajar-se inteiramente nas suas obras, e não como uma
passividade abjeta, colocando em primeiro plano os seus vícios, as suas
desventuras e as suas fraquezas, mas sim como uma escolha, com esse total
empenho em viver que constitui cada um de nós (...) (SARTRE, 2006, p. 29).
Conforme observa o autor, a
literatura só se realiza quando compreende a possibilidade da liberdade de
escolha. Este posicionamento, inclusive,
é evidenciado nas obras de ficção produzidas por Sartre em total consonância
com o seu pensamento filosófico, expresso na liberdade compromissada com outro,
presente, por exemplo, na trilogia “Os caminhos da liberdade”, composta pel’ A Idade da razão, Sursis e Com a morte na alma.
Não se escreve para escravos. A arte da prosa é solidária
com o único regime onde a prosa conserva um sentido: a democracia. Quando uma é
ameaçada, a outra também. E não basta defendê-las com a pena. Chega um dia em
que a pena é obrigada a deter-se, e então é preciso que o escritor pegue em
armas. Assim, qualquer que seja o caminho que você tenha seguido para chegar a
ela, quaisquer que sejam as opiniões que tenha professado, a literatura o lança
na batalha; escrever é uma certa maneira de desejar a liberdade; tendo
começado, de bom grado ou à força você estará engajado (p. 53).
Por
certo que o posicionamento do escritor e filósofo francês, de defesa do
engajamento quando da produção literária, deva ser entendido dentro do contexto
histórico-social no qual o autor estava inserido, marcado pela resistência
francesa durante a Segunda Guerra Mundial; e também pelo fato de a obra Que é literatura constituir-se numa
resposta de Sartre a Julien Benda, defensor do não-engajamento do escritor em
seu livro La trahison des clercs. No
fundo, a recusa de Sartre representa uma forma de combater aqueles para quem o
escritor não pode, de maneira alguma, estar comprometido com o seu tempo histórico,
mas somente com o exercício da arte pela arte.
É
evidente que a tese de Sartre se apresenta nos dias atuais de forma datada,
tendo em vista a libertação da literatura de uma conduta, diria exemplar. Por
outro lado, a historiografia literária brasileira vem demonstrando que este
gênero acabou sendo acionado em momentos que ao jornalismo foi negado o
exercício de sua função ética, libertadora e democrática, de compromisso com os
interesses de grande parte da sociedade.
Um exemplo foi o caminho trilhado pelos escritores, a maioria
jornalistas, na década de 70, na busca de retratar a realidade social e
política do país, apagada pelo mando da censura. Ou então, o engajamento de
Lima Barreto, na luta pelo fim da discriminação e divisão racial e de classe no
país no raiar da República.
No
mais, não se sabe até quando efetivamente o jornalismo e a literatura
permanecerão como tentativas de se estabelecerem como gêneros autônomos, uma
vez que vivem historicamente numa relação de simbiose, necessária para dar
conta de revelar as relações de poder exercidas a partir dos mecanismos de
intervenção e representação da realidade.
Se levarmos em consideração as
idéias de Eagleton, as distinções de gêneros, fruto da sociedade burguesa, quem
sabe um dia poderão se mostrar falaciosas, no contexto de uma sociedade que
prima pela pluralidade de meios de compreensão da atividade artística e do
diálogo entre os diferentes tipos de artes, neste início do século XXI.
O jornalismo absorveu o discurso da
ciência, do ideal “burguês”, da modernidade.
Era necessário, no âmbito do espírito do direito à informação que
predominava no final do século XIX, que este adotasse uma linguagem objetiva e
que carecesse de um método, de um conjunto de regras para que estas pudessem
ser utilizadas por todos. Era necessário uma aproximação da verdade objetiva
para o relato, pelo menos num primeiro momento, no calor dos fatos.
Na contemporaneidade, estas práticas
continuam a ser adotadas, a servir como guia nas atividades jornalísticas, embora
não invalidem as experiências estéticas realizadas nas grandes reportagens,
artigos e ensaios. Talvez algum dia a
literatura traga novamente o jornalismo para o campo literário, como
primo-irmão do romance, do conto e da poesia.
Uma tese, porém, considerada distante, tendo em vista o fato de o
jornalismo ter alcançado maior proeminência, como porta-voz do cidadão nas
ditas sociedades democráticas.
No
mais, é preciso considerar o fato de o jornalismo ter deixado de representar
mera figura de retórica, após o poder de influência que passaria a conquistar
no século XIX, e com o império que em torno dele se formou, no século XX, a
partir do surgimento das grandes redes de comunicação, transformando-se no
principal agente na configuração da esfera pública na sociedade moderna. E por fim, vale lembrar que tem crescido a
produção de estudos teóricos que buscam oferecer-lhe um atestado
epistemológico, como um campo autônomo.
Desta forma, a natureza dos
princípios do jornalismo e da literatura mostra-se distinta. E não é possível
pensar mais no ideal de pura aproximação como havia há pelo menos um século. Da literatura agrada ao jornalismo a linguagem,
embora não é raro observar, nas últimas décadas, uma redução da dimensão
estética, dos procedimentos literários, nas reportagens publicadas nos veículos
de comunicação, principalmente no Brasil. O interessante, no entanto, é saber
até que ponto a prevalência deste discurso objetivo e científico, que lhe
contribui para atestar o seu caráter de autonomia, prevalecerá nos jornais
impressos, tendo em vista que os meios eletrônicos e digitais captam a
informação no seu imediatismo e, nisso, o discurso da objetividade, da pirâmide
invertida, já vem exercendo uma função primordial.
Ao jornalismo impresso, quem sabe
restará novamente a busca de uma aproximação maior com a literatura, por meio
de um discurso diferenciado capaz de seduzir aquele que lê, com outras armas
que a própria divulgação da notícia, que a comunicação imediata com o leitor.
Invenção
A cor
da água
flui
vaga, rosa,
(mente)
pelas ruas,
vindo
soturna:
cor(ação).
A
mola do mundo,
solta
no caos.
Imprecisas
retinas.
O
corpo na cerca,
estendido
no fio
de
arame:
holo(caos)to.
Violetas,
violas
invento:
Um peixe
anarquista no aquário!
(Foto: Raquel Santana)
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Prosa Paranaense


REPORTAGEM:
DNA DA PROSA PARANAENSE NO
SÉCULO 20
Consanguinidade nada aparente
Prosa paranaense traduz no realismo ou linguagem algumas das contradições do século 20
Roberto Nicolato
A prosa paranaense pertence a uma árvore
geneológica de muitos frutos, mas com raízes que saltam à terra. Para o bem ou
para o mal, carece do peso e dos fortes lastros da tradição e do passado. Sendo
uma produção mais recente do que a de outros estados brasileiros, está ancorada
no novo, como produto da modernidade. E assim traduz, na sua timidez, algumas
das contradições do século 20. Seus representantes mais ilustres poderiam
descender diretamente da vertente simbolista, que encontrou terreno fértil para
se alastrar em Curitiba. Um exemplo típico dessa experiência é o único romance
simbolista brasileiro, No Hospício,
escrito por Rocha Pombo em 1905, e considerado como o único que pode levar este
nome na história da literatura brasileira, segundo o crítico Moisés Massaud. No
Hospício é o que se poderia chamar de romance-ensaio, com justaposição de
outras linguagens fazendo parte da estrutura narrativa. Sem muita ação, se
passa num hospício para onde o personagem Fileto se refugia, como numa torre de
marfim, se utilizando do monólogo interior para falar de religião, filosofia,
história e literatura.
Para
a professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná,
Marilene Wanhardt, quando se fala em DNA da literatura paranaense o primeiro
nome que surge é do contista Dalton Trevisan. "Ele encarna por excelência
na sua ficção esse estereótipo do curitibano contido, que fala pouco, e crítico
da província. Uma curitibanidade que também se revela no modo de expressão da
maioria dos autores que vivem na capital paranaense, numa província que
mitifica as suas manifestações menores ou não deixa aflorar suas expressões
mais significativas". Se a urbanidade tem certa prevalência como tema na
prosa paranaense, por outro lado são poucas as obras que se dedicam à ficção
histórica, rural ou sobre a imigração. Um levantamento feito pela professora
Marilene na Região Sul, no período de 1955 a 1990, revelou que dos 30 romances
históricos publicados no período apenas quatro eram paranaenses, com destaque
para O Mez da Grippe, de Valêncio Xavier e Casa Verde, de Noel Nascimento.
"Talvez o fato de sermos pobres na ficção histórica tenha a ver com a
questão identitária, já que nosso perfil cultural não é muito divisado. O que
não é exatamente ruim, uma vez que não tenhamos de ir atrás desta
tradição", observa a professora da UFPR. Marilene diz ainda que não se
pode dizer que exista uma literatura paranaense na mesma acepção, por exemplo,
da praticada no Rio Grande do Sul. "Embora tenhamos nomes significativos,
a produção não traduz esse perfil do estado. O que temos é uma literatura no
Paraná", afirma. Neste entrecruzar de influências ou consangüinidade,
talvez a expressão do escritor Wilson Bueno possa resumir o assunto:
"Somos herdeiros dos simbolistas, das vanguardas, das retaguardas e não
podemos fugir do nosso passado. De Homero, passando por Rocha Pombo".
Legenda: Capa do livro “Remorso”, da Coleção Brasil Diferente de Newton
Sampaio, editado pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002. Linha do tempo 1907
– É publicado o romance No Hospício, do historiador Rocha Pombo. O crítico
Moisés Massaud o considera como o principal romance do movimento simbolista.
Sem muita ação, livro traz diálogo com a história, filosofia, religião e
literatura. Antes outros romances simbolistas haviam sido publicados no Paraná,
mas de pouca expressão comoMocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque, e Amigos
(1900), de Nestor Vitor. 1939 – Newton Sampaio publica Irmandade, livro de contos
marcado pelo tom pungente e pela sátira ao modo de vida da província. É
considerado como a primeira voz moderna na literatura paranaense e precursor da
geração de Dalton Trevisan.
Em
1946, a Revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan, surge com a
proposta de homenagear todos os Joaquins e propor uma arte de caráter
cosmopolita e inovadora. Publicação vai servir como o veículo onde Dalton
Trevisan dará visibilidade a sua produção literária. 1959 – Dalton Trevisan
publica seu primeiro livro Novelas Nada Exemplares, que já o revela um escritor
amadurecido. 1968 – Primeiro livro de Jamil Snege, Tempo Sujo revela uma
espécie de narrativa-depoimento da geração que freqüentava a "Velha
Adega", em Curitiba, na década 60. Nas décadas de 80 e 90, se destacou no
cenário literário local com as obras Como Se Fiz Por Mim Mesmo, Viver É
Prejudicial à Saúde e Grande Verão da Leitoa Branca. 1975 – Publicação de
Catatau, de Paulo Leminski. Romance experimental que traz um extenso monológo
em que se projeta a figura do filósofo René Descartes que supostamente teria
vindo ao Brasil junto com Maurício de Nassau. Posteriormente, Leminski acabará
se tornando o principal nome da poesia brasileira nos anos 80. 1977 – O Homem
Vermelho, de Domingos Pellegrini, ganha o prêmio Jabuti. Com uma prosa ligada à
temática social e ao desbravamento do norte do Paraná, Pellegrini vai escrever
ainda Terra Vermelha, O Caso da Chácara Chão, entre outros livros, sendo
considerado com um dos maiores contistas nacionais. 1981 – Valêncio Xavier
começa a ter projeção literária com o lançamento de Mez da Grippe, livro que
foge da narrativa tradicional e que tem suscitado polêmicas entre os críticos.
Livro é produzido a partir da montagem de recortes de jornais, depoimentos,
poemas e cartões postais, numa valorização da imagem, seguindo uma
característica própria na produção do autor. É fundada a editora Criar Edições,
de Roberto Gomes, ˆria Zanoni e do recém- revelado Cristovao Tezza, que viria
se tornar um dos grandes romancistas da geração 80/90. Década de 90 - Destaque
para Mar Paraguayo, considerado um dos livros mais importantes da década.
Manoel Carlos Karam ganha o Prêmio Cruz e Souza, com o livro Cebola; Miguel
Sanches Neto lança Chove sobre Minha Infância, Roberto Gomes retoma a prosa com
Solidão em Curitiba e Valêncio Xavier tem sua obra reconhecida nacionalmente.
Em paralelo, a produção londrinense revela a prosa de Mário Bortolotto.
Matéria publicada no Caderno G, do extinto
jornal impresso, Gazeta do Povo – Curitiba
domingo, 12 de março de 2017
NEM TUDO SÃO
ROSAS
Ela curvou as patas,
Lambeu por instantes
Com a língua ácida
O pelo macio,
Como um arminho
Pronto para ser coroado.
Sinistra, no silêncio
Concluso que é seu,
Atirou-se contra o vento
Em busca de pássaros,
De penas, assim que a
Lua rompeu no oceano.
Apresentou-se pra mim
No mundo em que se organiza
Como ser sem mácula.
Inocente e inesperada,
E cravou suas unhas no
Coração dos homens
Como uma roseira
Repleta de espinhos.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
ÁGUAS DE VERÃO
Águas de verão,
pra que tantas?
Se o solo já se encharcou,
os rios transbordaram
e as ondas, sob
invadiram
a restinga.
E quem assim a fez,
desordem natural,
de um tempo tardio,
que se esparge e
invade meu cérebro:
sonoras intenções.
Água cantando, chuva,
intermitente,
No coração, que
ouso escutar...
E me atormentam
Mais que tempestades.
Chuvas que molham
minha alma. Doçura
do mito, embriaguez.
Águas de pura letargia
Nesse dia movediço.
São águas de um
verão tardio.
Que encharcam
meus poros,
Canais irrigados
de lembranças...
Presente que
se faz passado...
Chuva que o
outono prenuncia.
O mar é seu instante,
último caminho.
Águas pra
Que tantas?
Se os muros
ruíram...
Se os muros
ruíram...
Se meus olhos
Inundaram-se
nessa torrente
de desejos
e dúvidas.
Poema e foto (Pontal do Paraná): Roberto Nicolato
Poema e foto (Pontal do Paraná): Roberto Nicolato
Assinar:
Postagens (Atom)







