A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face (Rilke)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

JORNALISMO E LITERATURA

Considerações sobre estilo e representação da realidade
 Roberto Nicolato 
             Os recursos estilísticos utilizados pelos gêneros literários e jornalísticos se diferem e ao mesmo tempo se aproximam, embora a atividade jornalística tenha considerado como intrínseca à sua própria característica o estilo direto, a concisão, clareza e precisão. Mas é preciso se ater aos estudos do Gênero, no interior do próprio discurso jornalístico, para entender que esse é um parâmetro para determinar a clareza, a transparência da linguagem, pois o máximo que o jornalismo pode chegar é até as notas do estilo realista da literatura, de Balzac a Dickens e Flaubert.
            Ou seja, a natureza da atividade prática e a função no qual está inserido o jornalismo, coloca a linguagem a serviço principalmente da comunicação e com o espírito da ética na relação com o leitor.
De outro modo, o estilo literário prima pela indefinição, ambigüidade e pela representação indireta da realidade. Mas no contexto da pluralidade dos modos de criação literária, o caráter documental e objetivo – que tem definido a linguagem jornalística desde o início do século XX -- também pode constituir o principal arcabouço na construção dos romances e novelas em diferentes fases da literatura.
              Como exemplo, citamos as experiências com o realismo social de Balzac, Dickens e Flaubert, na Europa; a escrita de Lima Barreto, em estilo jornalístico, e considerada “desleixada” por muitos críticos; sem falar nos romances regionalistas de cunho extremante objetivo como Vidas secas, de Graciliano Ramos, e boa parte da literatura dos anos 70, fase marcada por uma fecunda aproximação da literatura ao jornalismo.
             Ou seja, a literatura pode incorporar o estilo comum à história e ao jornalismo, no que consiste especificar o caráter de verdade da ficção, conforme assevera Peter Gay:

A ficção pode, sem dúvida, oferecer a veracidade dos detalhes; os romancistas e poetas não são estranhos à pesquisa. Balzac, em Les ilusions perdues [as ilusões perdidas], conta aos leitores talvez mais do que estes se interessassem em saber sobre as atividades gráficas; Melville acumula informações técnicas exaustivas sobre as baleias e a caça a elas em Moby Dick; Thomas Mann discorre com um prazer indisfarçado sobre as causas e o tratamento da tuberculose em Zauberberg [A montanha mágica]. Tais fatos, em si, são reportagens; retirados do contexto ficcional em que ocupam sua função, seriam textos jornalísticos, especializados ou mesmo históricos (GAY, 1990, p.172).


            Quanto ao jornalismo, o estilo marcado pela objetividade, clareza e concisão, predominante desde o início do século XX, segue a velocidade das práticas rotineiras e tende a apresentar margens de diferenças de um discurso da Internet, para o de um jornal ou de uma revista. Mas todos, no entanto, têm algo que os assemelham: uma padronização notória e homogênea que se situa em menor ou maior grau, mas que os define, principalmente neste momento em que há um distanciamento maior em relação aos procedimentos literários.
             Para o leitor, não se trata de uma tarefa difícil diferenciar, na atualidade, a enunciação jornalística da literária, visto que o jornalismo criou um discurso autônomo, e predominantemente marcado pela objetividade, muito embora ainda prevaleçam em alguns textos os procedimentos assemelhados ao de uso corrente do new journalism. Ou seja, em contrapeso, o jornalismo tem utilizado em diferentes fases o discurso indireto e plurívoco dos procedimentos literários.
            Na questão do estilo, da mesma forma que objetividade aproxima-se da notícia, a subjetividade muitas vezes pode acompanhar o discurso como o zumbido de uma mosca na grande reportagem, numa revista ou livro. A notícia, pela sua própria natureza, vai carecer de um tipo de linguagem mais próxima da realidade objetiva, para dar conta do objeto que precisa ser descrito no seu imediatismo e na intenção de propor a verdade. Trata-se, desta forma, da opção por um discurso que cumpre uma função moral, ética, de caráter anunciador do fato, mesmo que este traga em si diferentes lados, algumas facetas nas quais são projetados fachos de luz para torná-las mais visíveis.
            A subjetividade, por sua vez, tende a ganhar espaço e valor na medida em que o fato se amplia, ganha dimensão sociológica, intelectual e simbólica numa grande reportagem na qual não se pode desprezar as figuras de retórica e os diferentes pontos de vistas no sentido de contar uma história. No fundo, os estilos praticados por ambos os gêneros mais os unem do que os distanciam, sendo que na literatura, por ser guiada principalmente pelo ficcional e pelo imaginativo, há uma maior pluralidade de experiências e experimentações.
            Em suma, é preciso ressaltar que a maneira como cada gênero representa a realidade irá refletir na linguagem e no estilo adotado pelo enunciador, predominantemente de forma mais direta e comunicativa no caso do jornalismo, ou indireta no tocante à literatura. Neste sentido, vale lembrar que a ruptura provocada pelas vanguardas no início do século XX trará aos olhos do leitor uma realidade muitas vezes distorcida e fragmentada.
            Se na questão do estilo e representação da realidade, pode-se dizer que há certa diferenciação – mas que em alguns momentos da história se aproximam por demais pelo próprio empréstimo de um gênero ao outro –, distanciamento maior ocorre em relação às funções que cada um dos gêneros exerce quando da representação de uma determinada realidade. Enfim, no caso específico do jornalismo, a comunicação com o leitor e a busca da verdade através do pacto ético. “Num texto de 1927, A natureza da experiência estética, George Herbert Mead salientava que o jornalismo tinha várias funções, uma delas a de dar espaço ao imaginário, outra a de procurar notícias, necessária a uma sociedade aquisitiva. Entre as duas, a margem é estreita e a dimensão de informação inseparável da componente estética, aqui definida numa dimensão social” (PONTE, 2004, p.53).
            Esta discussão levanta outras questões: a primeira se dá no nível da linguagem, ou seja, é certo que no jornalismo impera a função pragmática, mas nada o exime de dialogar com a função estética, o que é comprovado principalmente nas grandes reportagens e nas crônicas, consideradas um gênero híbrido entre o jornalismo e literatura.  Por outro lado, a literatura, que por sinal é reconhecida pela função estética, ou pela linguagem no mais alto grau de significados possíveis, como diria Pound, pode também exercer uma função pragmática, e um exemplo é a produção literária durante o regime militar no Brasil pós-64 que, em função da censura, manteve um diálogo intenso com a linguagem e os procedimentos jornalísticos.
            A discussão invariavelmente encaminha-se para questões de fundo moral e filosófico que, de certa forma, estão relacionadas à natureza intrínseca e afirmativa dos dois gêneros e às tentativas de situarem-se em campos autônomos. Enquanto o jornalismo passará, ao longo da história, a ser regido cada vez mais pelo pacto ético com o leitor, pela busca da veracidade dos fatos, a literatura deixará de, obrigatoriamente, estabelecer compromissos com as funções de caráter moralizante, conforme já mencionado, para avançar pelo domínio plural e indefinido da natureza estética, a partir do que se convencionou chamar de “arte pela arte” dos simbolistas e parnasianos do século XIX até culminar com as transformações operadas pelos movimentos de vanguardas no início do século XX.
            Isto, entretanto, não impediu que o campo plural da literatura continuasse a abrigar uma visada de caráter ético que, se não estava condicionada ao encontro da verdade de caráter imediato do jornalismo, resultará num esforço de constituir uma prosa direcionada ao modo solidário do processo ficcional para com as classes oprimidas, contrário à violência, às injustiças sociais e a qualquer possibilidade de restrição da liberdade do indivíduo num determinado contexto sócio-cultural.
            No livro Que é literatura, o filósofo e escritor Jean-Paul Sartre defende, inclusive, a tese de que, por essência, a literatura deva desencadear ações para o desvendamento da realidade, de modo que o escritor sempre necessitará promover escolhas e que jamais poderá portar-se na condição de “inocente” diante do mundo.  “(...) acreditamos que o escritor deve engajar-se inteiramente nas suas obras, e não como uma passividade abjeta, colocando em primeiro plano os seus vícios, as suas desventuras e as suas fraquezas, mas sim como uma escolha, com esse total empenho em viver que constitui cada um de nós (...) (SARTRE, 2006, p. 29).
            Conforme observa o autor, a literatura só se realiza quando compreende a possibilidade da liberdade de escolha.  Este posicionamento, inclusive, é evidenciado nas obras de ficção produzidas por Sartre em total consonância com o seu pensamento filosófico, expresso na liberdade compromissada com outro, presente, por exemplo, na trilogia “Os caminhos da liberdade”, composta pel’ A Idade da razão, Sursis e Com a morte na alma.

Não se escreve para escravos. A arte da prosa é solidária com o único regime onde a prosa conserva um sentido: a democracia. Quando uma é ameaçada, a outra também. E não basta defendê-las com a pena. Chega um dia em que a pena é obrigada a deter-se, e então é preciso que o escritor pegue em armas. Assim, qualquer que seja o caminho que você tenha seguido para chegar a ela, quaisquer que sejam as opiniões que tenha professado, a literatura o lança na batalha; escrever é uma certa maneira de desejar a liberdade; tendo começado, de bom grado ou à força você estará engajado (p. 53).

Por certo que o posicionamento do escritor e filósofo francês, de defesa do engajamento quando da produção literária, deva ser entendido dentro do contexto histórico-social no qual o autor estava inserido, marcado pela resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial; e também pelo fato de a obra Que é literatura constituir-se numa resposta de Sartre a Julien Benda, defensor do não-engajamento do escritor em seu livro La trahison des clercs. No fundo, a recusa de Sartre representa uma forma de combater aqueles para quem o escritor não pode, de maneira alguma, estar comprometido com o seu tempo histórico, mas somente com o exercício da arte pela arte.
É evidente que a tese de Sartre se apresenta nos dias atuais de forma datada, tendo em vista a libertação da literatura de uma conduta, diria exemplar. Por outro lado, a historiografia literária brasileira vem demonstrando que este gênero acabou sendo acionado em momentos que ao jornalismo foi negado o exercício de sua função ética, libertadora e democrática, de compromisso com os interesses de grande parte da sociedade.  Um exemplo foi o caminho trilhado pelos escritores, a maioria jornalistas, na década de 70, na busca de retratar a realidade social e política do país, apagada pelo mando da censura. Ou então, o engajamento de Lima Barreto, na luta pelo fim da discriminação e divisão racial e de classe no país no raiar da República.
No mais, não se sabe até quando efetivamente o jornalismo e a literatura permanecerão como tentativas de se estabelecerem como gêneros autônomos, uma vez que vivem historicamente numa relação de simbiose, necessária para dar conta de revelar as relações de poder exercidas a partir dos mecanismos de intervenção e representação da realidade. 
            Se levarmos em consideração as idéias de Eagleton, as distinções de gêneros, fruto da sociedade burguesa, quem sabe um dia poderão se mostrar falaciosas, no contexto de uma sociedade que prima pela pluralidade de meios de compreensão da atividade artística e do diálogo entre os diferentes tipos de artes, neste início do século XXI.
            O jornalismo absorveu o discurso da ciência, do ideal “burguês”, da modernidade.  Era necessário, no âmbito do espírito do direito à informação que predominava no final do século XIX, que este adotasse uma linguagem objetiva e que carecesse de um método, de um conjunto de regras para que estas pudessem ser utilizadas por todos. Era necessário uma aproximação da verdade objetiva para o relato, pelo menos num primeiro momento, no calor dos fatos.
            Na contemporaneidade, estas práticas continuam a ser adotadas, a servir como guia nas atividades jornalísticas, embora não invalidem as experiências estéticas realizadas nas grandes reportagens, artigos e ensaios.  Talvez algum dia a literatura traga novamente o jornalismo para o campo literário, como primo-irmão do romance, do conto e da poesia.  Uma tese, porém, considerada distante, tendo em vista o fato de o jornalismo ter alcançado maior proeminência, como porta-voz do cidadão nas ditas sociedades democráticas.
No mais, é preciso considerar o fato de o jornalismo ter deixado de representar mera figura de retórica, após o poder de influência que passaria a conquistar no século XIX, e com o império que em torno dele se formou, no século XX, a partir do surgimento das grandes redes de comunicação, transformando-se no principal agente na configuração da esfera pública na sociedade moderna.  E por fim, vale lembrar que tem crescido a produção de estudos teóricos que buscam oferecer-lhe um atestado epistemológico, como um campo autônomo.
            Desta forma, a natureza dos princípios do jornalismo e da literatura mostra-se distinta. E não é possível pensar mais no ideal de pura aproximação como havia há pelo menos um século. Da literatura agrada ao jornalismo a linguagem, embora não é raro observar, nas últimas décadas, uma redução da dimensão estética, dos procedimentos literários, nas reportagens publicadas nos veículos de comunicação, principalmente no Brasil. O interessante, no entanto, é saber até que ponto a prevalência deste discurso objetivo e científico, que lhe contribui para atestar o seu caráter de autonomia, prevalecerá nos jornais impressos, tendo em vista que os meios eletrônicos e digitais captam a informação no seu imediatismo e, nisso, o discurso da objetividade, da pirâmide invertida, já vem exercendo uma função primordial.
            Ao jornalismo impresso, quem sabe restará novamente a busca de uma aproximação maior com a literatura, por meio de um discurso diferenciado capaz de seduzir aquele que lê, com outras armas que a própria divulgação da notícia, que a comunicação imediata com o leitor.








Invenção










A cor da água
flui vaga, rosa,
(mente) pelas ruas,
vindo soturna:
cor(ação).

A mola do mundo,
solta no caos.
Imprecisas retinas.

O corpo na cerca,
estendido no fio
de arame:
holo(caos)to.

Violetas,
violas
invento:

Um peixe anarquista no aquário!
     (Foto: Raquel Santana)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Prosa Paranaense



REPORTAGEM:
DNA DA PROSA PARANAENSE NO 
SÉCULO 20  







Consanguinidade nada aparente


   






Prosa paranaense traduz no realismo ou linguagem algumas das contradições do século 20
   
Roberto Nicolato

     A prosa paranaense pertence a uma árvore geneológica de muitos frutos, mas com raízes que saltam à terra. Para o bem ou para o mal, carece do peso e dos fortes lastros da tradição e do passado. Sendo uma produção mais recente do que a de outros estados brasileiros, está ancorada no novo, como produto da modernidade. E assim traduz, na sua timidez, algumas das contradições do século 20. Seus representantes mais ilustres poderiam descender diretamente da vertente simbolista, que encontrou terreno fértil para se alastrar em Curitiba. Um exemplo típico dessa experiência é o único romance simbolista brasileiro, No Hospício, escrito por Rocha Pombo em 1905, e considerado como o único que pode levar este nome na história da literatura brasileira, segundo o crítico Moisés Massaud. No Hospício é o que se poderia chamar de romance-ensaio, com justaposição de outras linguagens fazendo parte da estrutura narrativa. Sem muita ação, se passa num hospício para onde o personagem Fileto se refugia, como numa torre de marfim, se utilizando do monólogo interior para falar de religião, filosofia, história e literatura.
   

 Se para Massaud é o romance simbolista brasileiro por natureza que antecipa alguns elementos da narrativa moderna, para o crítico Wilson Martins seu valor resume-se ao fato de apenas ser representativo de um movimento. Não mais que isso. "Mais modernamente, a prosa paranaense começa com Newton Sampaio, no final da década de 30. Ele era um moderno entre aspas, preocupado com a temática urbana, família da qual descende Dalton Trevisan", observa. Na verdade, não se pode pensar o projeto literário de Dalton Trevisan sem a revista Joaquim e a influência do escritor paranaense Newton Sampaio, que faleceu em 1938, com apenas 24 anos de idade, vítima de tuberculose. Sampaio morreu antes de ver publicadas as suas obras: Irmandade (1938), que foi premiada pela Academia Brasileira de Letras e Contos do Sertão Paranaense (1939). Dalton Trevisan o elegeu como o maior contista do Paraná. Em artigo da Joaquim, de número 11, diz que Newton Sampaio deixou uma obra talentosa, mas inacabada, e por isso mesmo irregular, alternando contos medíocres – como quase todos os que compõem Contos do Sertão Paranaense – e narrativas exemplares, de grande valor literário, presentes em Irmandade. Essa literatura mais voltada para os dramas humanos, para a gente comum ou da baixa clase média que circula pelas ruas e bairros da cidade também será em Dalton Trevisan um contraponto à literatura ufanista e da estética vazia dos simbolistas paranaenses (Leia-se Emiliano Perneta). Wilson Martins observa um certo ar de família entre os autores paranaenses contemporâneos, mas, assim como os integrantes de um mesmo clã, cada um com uma personalidade muito própria. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva: "Essa similaridade não deve ser levada muito a fundo, pois estou oferecendo uma visão impressionista", explica Martins, para quem nestas famílias há muita bastardia. Contigüidade, influências recíprocas e involuntárias, uma vez que a maioria vive numa mesma contemporaneidade. Assim, a temática urbana (como diria Wilson Martins, aquele interesse pela Praça Tiradentes, às 16 horas da tarde) aproxima Dalton Trevisan, Jamil Snege, Leminski e Cristóvão Tezza, da mesma forma que o experimentalismo literário se projeta nas obras de Wilson Bueno, Valêncio Xavier e Leminski. "O que existe hoje são heranças já diluídas do modernismo dos anos 20 e 30 e não da vertente simbolista", arremata. O crítico Miguel Sanches Neto também não acredita em qualquer influência direta do romance simbolista na literatura contemporânea do Paraná. "Talvez possa haver alguma conexão entre Catatau, de Leminski, e No Hospício, de Rocha Pombo...", arrisca. Na realidade, Sanches prefere colocar os autores paranaenses em dois campos, embora não muito delimitados: aqueles que buscam valorizar mais a linguagem que o enredo e os que apresentam uma dicção mais ligada ao conceito modernista de percepção da realidade. No primeira caso, se filiaria a prosa neobarroca de Wilson Bueno em Mar Paraguaio; o experimentalismo de Leminski, em Catatau, a valorização da estrutura narrativa em Manoel Carlos Karan ou o vanguardismo de Sossélla, em Nova Holanda, sem falar na prosa imagética de Valêncio Xavier. Numa vertente mais realista (sem desprezar, no entanto, o apuro no trato da linguaguem), se situaria Dalton Trevisan, Cristovão Tezza, Roberto Gomes, Domingos Pellegrini, Jamil Snege e o próprio Miguel Sanches Neto, cada um com suas características e dicções muito próprias.

     Para a professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná, Marilene Wanhardt, quando se fala em DNA da literatura paranaense o primeiro nome que surge é do contista Dalton Trevisan. "Ele encarna por excelência na sua ficção esse estereótipo do curitibano contido, que fala pouco, e crítico da província. Uma curitibanidade que também se revela no modo de expressão da maioria dos autores que vivem na capital paranaense, numa província que mitifica as suas manifestações menores ou não deixa aflorar suas expressões mais significativas". Se a urbanidade tem certa prevalência como tema na prosa paranaense, por outro lado são poucas as obras que se dedicam à ficção histórica, rural ou sobre a imigração. Um levantamento feito pela professora Marilene na Região Sul, no período de 1955 a 1990, revelou que dos 30 romances históricos publicados no período apenas quatro eram paranaenses, com destaque para O Mez da Grippe, de Valêncio Xavier e Casa Verde, de Noel Nascimento. "Talvez o fato de sermos pobres na ficção histórica tenha a ver com a questão identitária, já que nosso perfil cultural não é muito divisado. O que não é exatamente ruim, uma vez que não tenhamos de ir atrás desta tradição", observa a professora da UFPR. Marilene diz ainda que não se pode dizer que exista uma literatura paranaense na mesma acepção, por exemplo, da praticada no Rio Grande do Sul. "Embora tenhamos nomes significativos, a produção não traduz esse perfil do estado. O que temos é uma literatura no Paraná", afirma. Neste entrecruzar de influências ou consangüinidade, talvez a expressão do escritor Wilson Bueno possa resumir o assunto: "Somos herdeiros dos simbolistas, das vanguardas, das retaguardas e não podemos fugir do nosso passado. De Homero, passando por Rocha Pombo". Legenda: Capa do livro “Remorso”, da Coleção Brasil Diferente de Newton Sampaio, editado pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002. Linha do tempo 1907 – É publicado o romance No Hospício, do historiador Rocha Pombo. O crítico Moisés Massaud o considera como o principal romance do movimento simbolista. Sem muita ação, livro traz diálogo com a história, filosofia, religião e literatura. Antes outros romances simbolistas haviam sido publicados no Paraná, mas de pouca expressão comoMocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque, e Amigos (1900), de Nestor Vitor. 1939 – Newton Sampaio publica Irmandade, livro de contos marcado pelo tom pungente e pela sátira ao modo de vida da província. É considerado como a primeira voz moderna na literatura paranaense e precursor da geração de Dalton Trevisan.
    
      Em  1946, a Revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan, surge com a proposta de homenagear todos os Joaquins e propor uma arte de caráter cosmopolita e inovadora. Publicação vai servir como o veículo onde Dalton Trevisan dará visibilidade a sua produção literária. 1959 – Dalton Trevisan publica seu primeiro livro Novelas Nada Exemplares, que já o revela um escritor amadurecido. 1968 – Primeiro livro de Jamil Snege, Tempo Sujo revela uma espécie de narrativa-depoimento da geração que freqüentava a "Velha Adega", em Curitiba, na década 60. Nas décadas de 80 e 90, se destacou no cenário literário local com as obras Como Se Fiz Por Mim Mesmo, Viver É Prejudicial à Saúde e Grande Verão da Leitoa Branca. 1975 – Publicação de Catatau, de Paulo Leminski. Romance experimental que traz um extenso monológo em que se projeta a figura do filósofo René Descartes que supostamente teria vindo ao Brasil junto com Maurício de Nassau. Posteriormente, Leminski acabará se tornando o principal nome da poesia brasileira nos anos 80. 1977 – O Homem Vermelho, de Domingos Pellegrini, ganha o prêmio Jabuti. Com uma prosa ligada à temática social e ao desbravamento do norte do Paraná, Pellegrini vai escrever ainda Terra Vermelha, O Caso da Chácara Chão, entre outros livros, sendo considerado com um dos maiores contistas nacionais. 1981 – Valêncio Xavier começa a ter projeção literária com o lançamento de Mez da Grippe, livro que foge da narrativa tradicional e que tem suscitado polêmicas entre os críticos. Livro é produzido a partir da montagem de recortes de jornais, depoimentos, poemas e cartões postais, numa valorização da imagem, seguindo uma característica própria na produção do autor. É fundada a editora Criar Edições, de Roberto Gomes, ˆria Zanoni e do recém- revelado Cristovao Tezza, que viria se tornar um dos grandes romancistas da geração 80/90. Década de 90 - Destaque para Mar Paraguayo, considerado um dos livros mais importantes da década. Manoel Carlos Karam ganha o Prêmio Cruz e Souza, com o livro Cebola; Miguel Sanches Neto lança Chove sobre Minha Infância, Roberto Gomes retoma a prosa com Solidão em Curitiba e Valêncio Xavier tem sua obra reconhecida nacionalmente. Em paralelo, a produção londrinense revela a prosa de Mário Bortolotto.

Matéria publicada no Caderno G, do extinto jornal impresso, Gazeta do Povo – Curitiba




domingo, 12 de março de 2017



NEM TUDO SÃO ROSAS


Ela curvou as patas,
Lambeu por instantes
Com a língua ácida
O pelo macio,
Como um arminho
Pronto para ser coroado.

Sinistra, no silêncio
Concluso que é seu,
Atirou-se contra o vento
Em busca de pássaros,
De penas, assim que a
Lua rompeu no oceano.

Apresentou-se pra mim
No mundo em que se organiza
Como ser sem mácula.
Inocente e inesperada,
      E cravou suas unhas no
      Coração dos homens
      Como uma roseira
      Repleta de espinhos.






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ÁGUAS DE VERÃO





















Águas de verão,
pra que tantas?
Se o solo já se encharcou,
os rios transbordaram
e as ondas, sob
a força dos ventos
invadiram
a restinga.

E quem assim a fez,
desordem natural,
de um tempo tardio,
que se esparge e
invade meu cérebro:
sonoras intenções.

Água cantando, chuva,
intermitente,
No coração, que
ouso escutar...
E me atormentam
Mais que tempestades.

Chuvas que molham
minha alma. Doçura
do mito, embriaguez.
Águas de pura letargia
Nesse dia movediço.

São águas de um
verão tardio.
Que encharcam
meus poros,
Canais irrigados
de lembranças...
Presente que
se faz passado...

Chuva que o
outono prenuncia.
O mar é seu instante,
último caminho.

Águas pra
Que tantas?
Se os muros
ruíram...
Se meus olhos
Inundaram-se
nessa torrente
de desejos
e dúvidas.

Poema e foto (Pontal do Paraná): Roberto Nicolato